Assim no Jornalismo como na Ciência: todos nós podemos nos capacitar como testemunhas

É fato, e não se tratou de vulgarizar o Jornalismo ou a Ciência, mas de aceitar que só jornalistas e só cientistas não dariam mais conta do recado… E que nós também, sem sermos profissionais e diplomados, podemos e devemos exercer, vez ou outra, o mesmo papel.

Eles sozinhos não dariam conta de testemunhar — realizar a coleta de dados como testemunhas treinadas e juramentadas — , não dariam conta da infinidade de testemunhos que são necessários para se estabelecer os (supostos) fatos do mundo real.

Os movimentos vem se somando e sucedendo desde os tempos de Giordano Bruno e Galileu… O mais recente parece ser o movimento contra as fake news. Redestilado por este artigo sobre Reality Check, ou revisto como negócio no lançamento da Wikitribune; o movimento mostra a aproximação entre o cidadão comum (a maioria de nós!) e o jornalista profissional (com uma reputação a zelar), e como um e outro se complementam no mesmo papel de testemunhas da verdade.

O cidadão-testemunha no Quarto Poder

Nunca é demais lembrar, o Jornalismo e a Mídia são componentes do sistema que assegura o Quarto Poder. É a “mídia de massa” ou mídia de “influência sobre os influentes”, quando sai da confortável posição de cultura e lazer, para a política, a justiça e a tomada de decisão coletiva.

O fotojornalismo da era pré-digital é a forma mais ilustrativa e bem-acabada desse processo. Citando Howard Chapnick:

imagem S. Zeitung
Com uma câmara na mão, os fotógrafos mais bem educados e mais bem informados, nos fornecem imagens de poder sem precedentes e informações incontestáveis sobre o mundo em que vivemos…

A câmara-na-mão se tornou celular e computador de bordo, qualquer um de nós pode sacar do bolso a sua câmara de alta resolução e foco automático, assinar em baixo do que testemunhou com a sua fotografia, e enviar para blogs, sites e redes sociais, ou mesmo atestados formais.

Para substituirmos os fotojornalistas, todavia, nos faltaria um pouco da educação… Faltaria? Ou será que as mesmas redes sociais e experiências com selfies, blogs e bares, já são um primeiro ensaio? 
Não tem curso de cidadão-fotógrafo… Esse preparo estaria, ou deveria estar, a cargo das faculdades, das escolas, implícito em todas as áreas.

Quanto à arte ou talento, importantes no passado pela exclusividade e investimento necessários, hoje substitui-se pela seleção natural: não é mais recurso escasso, são tantas, e a melhor foto é aquela que a própria comunidade vota como a melhor.

O fotojornalista se reinventou, agora é também um curador e gestor de equipes de voluntários, que se revezam e se somam no testemunho e nos melhores clicks daquilo que será tomado por verídico.

… E indo para além do fotojornalismo, existem dezenas de comunidades nascentes e efervescentes, se especializando em outras maneiras de dar seu testemunho. Por exemplo “testemunhas de dados”, como o grupo da Operação Serenata ou do Gastos Abertos, testemunhando e relatando o que viram nos dados públicos governamentais que analisam. Existem também os fact-checkers no jornalismo baseado em evidência, e tantos outros… Ao que tudo indica o registro sério do testemunho é uma tendência crescente e irreversível.

O cidadão-testemunha na Ciência

A Ciência e o Método científico foram se desenvolvendo ao longo dos séculos, e junto, na mesma toada, os instrumentos de medição que complementam os sentidos humanos do cientista, assim como os recursos para o registro e publicação dos dados científicos, que culminaram nas revistas científicas.

Fazer Ciência se tornou algo caro e bastante sofisticado, um sacerdócio, e muito longe do “poder de fazer” do cidadão comum.

Os fundamentos do método científico, todavia, não mudaram, nem é tão difícil de aprender. Requer um certo treinamento, mas justamente passamos 11 na escola nos preparando (!)… Testar e testemunhar coisas simples, é simples. Confira métodos de ensino modernos que reforçam isso, como o Mão-na-Massa, desde o Ensino Fundamental.

Exemplo ilustrativo

Nas Ciências Ambientais, a partir das décadas de 1970 e 1980, foi se tornando consenso entre os cientistas que sozinhos não dariam conta de coletar dados: houve um movimento para educar as pessoas a serem meio cientistas. Consiste em ajudar o cidadão atento e interessado, a medir, a registrar seu testemunho de forma imparcial, e apropriar-se dos instrumentos que garantem a coleta de dados. Foi o movimento da Educação Ambiental, que se consolidou e se estendeu ao currículo escolar.

Mais um zoom de especificidade para exemplificar. Um lençol de cama branco pode servir de instrumento de medida. Trata-se de uma experiência científica caseira, que torna a poluição do ar algo mais palpável e que complementa, por interpolação, as medidas realizadas via instrumentos mais sofisticados e estrategicamente posicionados.

A metodologia de medição da qualidade do ar através do lençol, foi utilizada em 2011 pelo “Projeto RespirAR” da SOS-Mata-Atlântica.

A pessoa na janela do prédio estendeu seu lençol branco para que todos da rua pudessem também ver e acompanhar a mudança de cor do lençol ao longo da semana. O lençol é o instrumento de medição que, somado ao procedimento de coleta de dado e de registro (legitimado por seu testemunho), se torna uma prova científica.

Permitiu que milhares de pessoas expressassem seu testemunho da poluição do ar da cidade, através não só do discurso, mas também do uso de instrumentos e procedimentos que geram provas, medições científicas que comprovam o fato testemunhado.

Ficha e seu formulário

Cumprem-se todos os passos da Metodologia Científica:

  • Fundamentação da medida: metodologia e rede de coleta (lençóis e instrumentos eletrônicos simultaneamente medindo) preparada pela SOS Mata-Atlântica e cientistas que assinaram a metodologia do projeto.
  • Capacitação para a medida: consciência e interesse garantem que o cidadão comum, minimamente letrado, ao assistir a palestra do educador e/ou ler manual, se homologue como “cientista” desse ato de medição.
  • Realização e registro da medida: pelo cidadão que assume a responsabilidade pelo lençol e pelo preenchimento da ficha.
  • Testemunho social da medição: a vizinhança, que vê o lençol na janela e caracteriza a comunidade e o referencial para a reputação do cidadão que mede.
  • Organização e difusão do resultado: a coordenação do projeto, que reúne as diversas medidas, cria gráficos e relatórios, e os publica.

Diversas outras iniciativas de educação ambiental tem se revezado, principalmente nas escolas de ensino médio e fundamental, ao oferecer meios, tais como kits de medição da qualidade da água [1, 2, …], para o cidadão comum participar de medições científicas de seu interesse.

Ciência ou jornalismo? dados bem testemunhados se prestam a ambos

Quando tentávamos listar na Wikipedia todas as “Cidades participantes dos protestos no Brasil em 2013”, no meio do caminho nos deparamos com nosso próprio testemunho e nossa interpretação dos dados sugerindo uma coisa, enquanto a imprensa “de escala nacional” (principalmente TV) dizia outra.

No grupo de colaboradores da Wikipedia houve uma mobilização mais intensa por checagem, inclusão de fontes locais (de cada cidade), confirmações, normalização dos dados, etc. Como resultado:
 350 referências foram coletadas, revisadas e interpretadas;
 por mais de 100 colaboradores, espalhados pelo Brasil;
 
~170 atos públicos em ~300 cidades tiveram suas “medidas” computadas.

Toda essa informação auditada e sumarizada de forma transparente, por não-jornalistas e não-cientistas, se mostrou a mais confiável:

Sinopse: os atos desta segunda fase tiveram seu ápice no dia 20 de junho,
com mais de 1,5 milhões de participantes, e menos de 0,005% deles envolvidos em ato não-pacífico ou de reação policial.
[tabela 2 do levantamento]

A “ verdade” neste caso foi uma construção coletiva, de testemunhos, de confirmações e de consolidação transparente dos dados.


A Verdade é a nossa seita

“Coloque a sua mão sobre a Bíblia… jura dizer a verdade?” 
E como ficam as outras religiões, os agnósticos e os ateus?

No passado, no império Persa de 500 anos AC, já se pregava a retidão pela Verdade, no Zoroastrismo. Da mesma forma, até recentemente, a verdade científica e a verdade jornalística eram quase que valores religiosos, de uma seita esquisita seguida por uns poucos interessados…

Ainda hoje, o número de pessoas num país, que se dedicam à Ciência ou ao Jornalismo, não chega a 1% da população. Essa pequena comunidade tem um compromisso comum. Parafraseando sacerdotes do jornalismo,

A primeira obrigação do cientista e do jornalista, é nos contar a verdade

Todo cidadão que assume esse compromisso e demonstra responsabilidade no seu exercício, é bem-vindo a nossa seita ;-)

Como auditar essa responsabilidade ou evitar que membros infiltrados criem boatos e falsas verdades? Como garantir um Quarto Poder sólido e incorruptível?
Infelizmente nesta seita não existem milagres, e não se pode acreditar que tenham existido. Ainda assim a realidade nos presenteia com algumas oportunidades, técnicas e culturais… A Ciência Aberta e a nova cultura de jornalismo, vêm garantindo mais e mais espaço (e responsabilidades) para o cidadão comum.