Brasil, uma ditadura dos cartolas

Bons e melhores políticos surgem, se a sua matéria-prima, os pré-candidatos, são democraticamente selecionados… Vieram as eleições, e a velha profecia novamente se confirma: a renovação, mesmo depois dos pedidos de 2013, foi mínima. Pouquíssimos candidatos, a rigor, emergiram de um funil democrático, e poucos nos representam…

Já prevíamos! Afinal somos milhões de brasileiros com essa bola de cristal, já sabíamos que nas eleições não haveriam verdadeiras opções… De onde vem tamanha certeza, qual a Ciência, ou a onisciência, por traz disso tudo?

FAÇAMOS AS CONTAS

Numa democracia de fato, quem me representa em algo é quem eu indico como pessoa de minha confiança… Quando várias pessoas indicam, surge alguém com mais indicações que as outras. Cada grupo de interesse teria o seu pré-candidato, e através de eleições (nas convenções partidárias) emergiria o melhor candidato.

  • Somos 200 milhões de brasileiros, 144 milhões de eleitores. Quantos de nós tiveram a chance de indicar uma pessoa “conhecida sua” na qual confia, para assumir algum cargo público eletivo?
  • Quantos de nós nos filiamos a partidos políticos merecedores de nossa confiança? Apenas 3,5% dos eleitores. O PMDB tem ~2,3 milhões, o PT 1,5 milhões, o PSDB 1,4 milhões. Ficando com os dados oficiais do TSE, os 3 maiores partidos totalizam apenas ~5 milhões de pessoas.
  • Quantos entre os filiados podem de fato indicar um pré-candidato, ou seja, eleger quem será elegível? Apenas a cúpula dos partidos, estimada em 1% dos filiados, tem esse poder, ou seja, 1% de 3,5% = 0,035% = ~0,05% dos eleitores. Trata-se de uma estimativa bastante cortês do tamanho dessa cúpula — estimando pela soma do número de pessoas em cada Comissão Executiva de cada município.

A matemática sobre dados oficiais deixa claro que menos de 0,05% dos eleitores tem acesso ao direito de votar de fato no seu pré-candidato — e portanto mais tarde num candidato legítimo. Também deixa claro que ainda hoje (2016) os partidos políticos não nos representam numericamente na hora da escolha dos pré-candidatos.

… E como haverão bons e melhores candidatos, se a sua matéria-prima, os pré-candidatos, não são democraticamente selecionados? Haverão pouquíssimos, como já prevíamos na profecia.

AFUNILANDO AS CAUSAS E CONTABILIZANDO

A legislação brasileira (leis federais nº 9.504 de 1997 e nº 4.737 de 1965) é totalmente omissa, não regulamenta a “permissão” para se tornar pré-candidato, não obriga a realização de “convenções partidárias”, muito menos oferece garantia de igualdade de direitos entre os postulantes (a prefeito e vereador) nas “eleições prévias partidárias” e na ata da convenção partidária… Regulamenta-se apenas a propaganda intra-partidária.
Quando existe no regimento interno do partido, o que seria ao menos uma “democracia dos filiados”, é uma reconhecida farsa.

Uma rápida análise no histórico dos três maiores partidos também mostra a existência de uma rígida hierarquia na cúpula de um partido. As “permissões” para pré-candidato são defendidas (com unhas e dentes) pelos primeiros níveis da hierarquia municipal e estadual: eles são os reais e únicos titulares do direito de seleção dos pré-candidatos e escolha dos candidatos. Foram apelidados carinhosamente, em homenagem aos seus similares históricos nos clubes de futebol, de cartolas.

Não é difícil estimar o número de cartolas… De cada uma das ~5,6 mil cidades do Brasil, são no máximo 2 pessoas por partido (por cidade) que dão a palavra final sobre quem pode ser pré-candidato.
Fazendo as contas, imaginando duas pessoas de cada um dos 3 grandes partidos a cada cidade, podemos chutar uns 2×3×5,6 mil = 34 mil…
São ~34 mil cartolas de partidos que (praticamente) não nos representam, decidindo por nós, 144 milhões.

Em cidades grandes como as capitais de estado, mesmo que suponhamos um número maior de cartolas (digamos 3 por cidade), o número de “cidadãos por cartola” é muito superior 10 mil. São pequenos feudos…

São Paulo, a maior cidade, tem 12 milhões de habitantes. Numa eleição bem disputada são até 4 partidos com alguma chance na disputa, logo 3×4= 12 cartolas: 1 cartola decidindo por cada 1 milhão de paulistanos.

Pensando nos conceitos de democracia e ditadura, os feudos de cartolas se enquadram muito mais no conceito de ditadura: o Brasil é o país da ditadura dos cartolas.


NOTA1: e será que é só no Brasil? Adoramos falar das maravilhas do modelo estadunidense… Mesmo um dia copiando exatamente todas as suas leis, ainda estaríamos com praticamente o mesmo problema, como lembra este vídeo didático, “We the People, and the Republic we must reclaim”.

NOTA2: mesmo a pior democracia, essa “ditadura dos cartolas”, ainda é muito melhor do que a ditadura militar (1964–1985).

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