Insurgência

Eu estou puta, muito puta. Eu não consigo deixar de estar puta desde ontem à noite, quando me senti ameaçada pelo simples fato de existir enquanto mulher em um bar.

E isso é bom. A gente tem que continuar puta, tem que ficar PISTOLA, tem que ter coragem, tem que se impor. Porque eu fico pensando, em todas as épocas da história humana em que grupos de pessoas foram massacrados, tiveram seus direitos retirados, foram desumanizados, sempre houve quem dissesse: não mais. Será que eu teria essa coragem? Será que eu me levantaria contra um homem perigoso, pondo minha própria integridade em risco, em prol de um bem maior? Em prol, inclusive, de conquistar um pouco de paz, um embate de cada vez? Eu não sei se teria essa coragem, primeiro pelo medo que sentiria por mim mesma, segundo pelo medo de como meus pais ficariam caso acontecesse algo comigo.

Eu acho que a gente nunca consegue ter essa certeza, eu acho que ninguém se conhece o suficiente para saber a própria reação em um momento inesperado, perigoso e decisivo. Eu acho que nem Rosa Parks sabia que um dia se recusaria a ceder aquele assento no ônibus. Mas eu espero ter essa coragem.