Warmest regards

Quando eu era criança, caia e ralava os meus joelhos com muita frequência. Minha mãe dizia que eu tropeçava no meu próprio pé. Com isso, nenhum machucado cicatrizava direito e lá estava eu me machucando novamente. Por conta dessa fase turbulenta, meus joelhos até hoje são cheios de cicatrizes em cima de cicatrizes. Umas menores, outras grandes; umas com histórias fabulosas, outras que nem lembro o motivo. Não importa. Estão todas lá.

Quando eu me aceitei um rapazinho gay, conheci o João. Foi paixão a primeira vista. Eu estudava no terceiro andar da faculdade e ele no segundo. Sempre chegava mais cedo para ficar esperando ele passar pelo corredor de baixo e olhar para cima. Um dia eu sorri e ele sorriu de volta. Nos amamos por bons meses até que ele não quis mais. Chorei e sofri como se nunca mais fosse conhecer alguém. Dois dias depois, eu vi o Arthur passar do outro lado da rua. Ele me olhou e eu sorri — nota-se que tenho o riso frouxo. Nos amamos por um longo mês de julho. Conheci seus amigos, acampamos juntos em Paraty, saíamos quase todos os dias. Vivi cada momento de glória.

Ele não quis mais. Sofri de novo e fui conhecendo vários rapazinhos que foram suprindo o vazio e o luto de um término até o dia em que conheci o meu primeiro namorado. Com ele, aprendi que feridas levam tempo para serem curadas, que amor é muito melhor do que paixão e que ninguém pode suprir a dor causada pelo outro.

A gente terminou tem quase um ano e, desde então, tenho emendando um casinho amoroso no outro sem perceber novamente o mal que estou causando em mim e também nos outros.

Apesar de admirar a minha capacidade de dedicar tempo e afeto aos caras que cruzam o meu caminho, não vejo muito propósito em ser assim, afinal, a quem eu quero enganar? Homem nenhum vai suprir a minha carência porque as cicatrizes que tenho abertas no peito precisam ser curadas com uma boa porção de amor próprio, introspecção e convivência comigo mesmo.

“Então fique sozinha, Liz. Aprenda a lidar com a solidão. Aprenda a conhecer a solidão. Acostume-se a ela, pela primeira vez na vida. Bem-vinda à experiência humana. Mas nunca mais use o corpo ou as emoções de outra pessoa como um modo de satisfazer seus próprios anseios não realizados.” (Comer rezar amar)

Confesso que para mim é muito difícil ser sozinho. Apesar de gostar e saber fazer coisas sem a companhia de ninguém, como ir ao cinema ou à balada, viajar por meses e passar dias sem me comunicar, eu não sei ser solteiro por muito tempo. Além de física, a minha carência é afetiva. Eu preciso ter alguém para enviar uma mensagem e esperar longos minutos até ter uma resposta, que pode ser positiva ou negativa. Para mim não importa, desde que eu tenha alguém para me distrair.

Como eu sou uma pessoa horrível. Ou carente. Carente demais, eu diria.

Mas então, cheguei aqui. Finalmente eu estou sozinho e sem nenhum contatinho engatilhado (mentira, tem uns dois ou três, mas sei que não vão render em nada e nem estou criando expectativas em cima deles, nem mensagem eu envio, nem resposta direito eu dou, só estão ali frutos de um Match no Tinder etc.). Cheguei finalmente ao status solidão e tem sido muito difícil conviver comigo mesmo. Às vezes, opto por dormir mais cedo para não cair na bobeira de me mostrar presente na vida de quem já não quer mais estar comigo. Ou pior: me fazer notar por pessoas aleatórias que eu nem quero, mas que a carência afetiva me faz estar ali pedindo migalhas aos peixes.

Não sei como as cicatrizes dos meus joelhos se curaram. Talvez tenha sido a partir do momento que passei a ter mais cuidado para não cair. Acho que é isso que meu coração precisa: ser cuidado para as cicatrizes se fecharem.