sem título
Deitou-se no sofá, na escuridão da meia-noite, acabou de beber o uísque e de fumar o cigarro, ligou a televisão e adormeceu com o bailado das imagens de um filme com mais de trinta anos. Acordou, na manhã seguinte, surpreendido pelo acaso e de costas doridas. No final do dia, fez o mesmo. Daí em diante, isso aconteceu todas as noites de muitos dias pelas estações fora sem que voltasse à cama, nem mesmo para lhe mudar a coberta.
O problema aconteceu quando um dos apoios de braços sucumbiu ao peso das pernas. Sem ter onde repousar os pés, espreitou pelo corpo abaixo e sentiu desconforto pela nova postura e mais desanimado ficou quando vislumbrou uma ligeira saliência, que, até então, lhe era estranha, mesmo por cima do dedão direito. Desvalorizou e virou-se para o filme, que não viu. Na noite seguinte, tudo se repetiu, desagrado pelo apoio de braço partido, aquele corpo tão conhecido e, ao mesmo tempo, alheio, e aquela coisa mesmo lá no extremo que não conseguia perceber.
Ao cabo de algumas noites sentiu uma pequena picada no dedão. Mas não ligou. Depois a picada já era mais mordida. E continuou a não se preocupar com o calor que lhe vinha do pé. Até que, de modo repentino, ficou convencido pela dor que a mordida era mesmo qualquer coisa estranha que, na verdade, lhe estava a ferrar o dedão, como se um bicho lhe estivesse a cravar os dedos na carne. Muito intrigado avaliou, finalmente, a situação e percebeu a afecção: as bordas da unha pareciam ter ganho vida, cresceram e agarraram-se à carne da pele e da carne do dedo, vermelho como um pimento pôdre.
Olhava perplexo e fixamente para o fenómeno, que não tinha explicação razoável. A cutícula afigurava-se inchada, com pus à mistura, e a paroníquia desaparecera. Mas a unha, essa, continua a crescer aos seus olhos abertos e espantados e, logo a seguir, engoliu o próprio dedo, ao mesmo tempo que o sofrimento se agudizava até ao limite do insuportável. Já não tinha forças sequer para observar a espantosa revelação que acontecia ali mesmo à sua frente quando a queratina rígida e afiada se agigantou para o sofá. A unha, que nesta altura já era uma massa disforme, esbranquiçada e insaciada, tocou, perfurou e engastou-se na madeira.
Os gritos esbaforidos que ensaiara emudeceram e, finalmente, entendeu e ciciou:
– Morri.