Sobre niilismo, a vida e eventuais paixões

A quem interessar, meu desabafo:

Você conhece aquela sensação de estar vivo? Aquela sensação de “eu estou aqui”.

Vivo

Segundo o relógio do meu computador, no qual escrevo nesse momento, fazem 16 anos, três meses e 16 dias que eu estou aqui, vivo. Cinco mil, novecentos e cinquenta e dois dias, vivo.

É tempo pra caralho, não é? Foram já quinze primaveras, e já uma décima-sexta por vir esse mês. Foram tantas primaveras que nem me lembro mais delas. Foram também 850 finais de semana, nem tantos assim aproveitados. Cento e quarenta e duas mil oitocentas e quarenta e oito horas passadas, corridas, apressadas, esperando o sinal bater, poder sair do carro, o portão abrir.

Oito milhões, quinhentos e setenta mil minutos, gastos espertamente em esperar na vez de pedir no restaurante, sentado na fila, tentando dormir de noite.

Foi muito tempo, muito tempo mesmo. Pra grávida, 850 semanas. Pro burocrata, 4103 dias úteis. Pro cientista, 4.73 x 10^18 ciclos de césio.

Mas, ao mesmo tempo, tanto tempo perdido.

Tempo perdido é tempo vivido?

Tanto tempo queimado em filas

Tantos minutos ansiosos pra acabar

Tantas horas tentando pegar no sono

Tantos dias esperando o final de semana

Tantas semanas esperando o final do mês

Tantos meses esperando as férias

Tantos anos esperando o quê? Viver?

Tanto tempo esperando viver a vida que sonhei ter, enquanto perdia a vida que eu vivia.

Vivia?

Eu vivia essa vida? Que vida era essa, esperando a vida vir ser vivida? A espera de um despertador, que me acordasse e dissesse “viva!”. Anos e anos de passividade, de vida não-vivida, a espera de algo acontecer.

Até que um dia aconteceu, mas não foi o despertador que me acordou. Foi uma mão macia, passeando pelo meu rosto, deslizando pelo meu corpo. Foi num desses momentos em que acordei.

Comecei a ouvir aquela música que você disse que gostava

A assistir aquele filme que você disse que era bom

A ler sobre o teatro, o palco e a arte

A conhecer aquela novela sobre agricultura

A rir daquelas piadas que nem nós entendíamos, mas que eu ria igual só porque era você quem contava.

E foi num desses momentos que eu notei que não era mais ansioso para que o tempo passasse logo, e sim que a preocupação era não ter tempo o suficiente. Tempo o suficiente para viver. O medo agora era que o sinal batesse antes de eu conseguir te ver, que o dia acabasse sem eu conseguir te ver, que a semana acabasse sem ao menos um piquenique com você.

E, a partir desse momento, pude notar que eu vivia.

E viver é bom;

(contigo melhor ainda)

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