República Incinerativa do Brasil
O mito em chamas
“Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.”
George Orwell (no livro 1984)
Sempre apreciei História e histórias. Há bastante tempo percebi que, entre uma e outra, não há distinção. Mas faz pouco, vi as histórias da nossa História tornarem-se pó e fumaça. Vivi para testemunhar a destruição do Museu Nacional do Brasil.

Parte Menos Um: O mito em chamas
Para alguém que não é um profissional de museologia e afins, tive a honra de atuar em várias instituições importantes da área. Estudei pré-história no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, ensinei produção cinematográfica no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, fui corresponsável pelo Museu de Arte Budista do Templo Zu Lai, estreei um filme no Museu Nacional da República, em Brasília. Ainda trabalhei em alguns outros museus, mas na minha lista sempre faltava O Museu.
Em vários momentos ensaiei, mas, por algum motivo ou outro, não consegui desenvolver um projeto junto ao Museu Nacional no Rio de Janeiro. Não tive a oportunidade, e jamais terei. Com noventa por cento do acervo incinerado, restou uma fachada oca. O patrimônio virou espólio. Agora sou viúvo de amor platônico.
O Museu Nacional consumido pelo fogo é a Torre de Babel em queda anunciada. O Labirinto de Creta aniquilado por Poseidon. A Biblioteca de Alexandria arruinada num cataclismo indecifrável. Dedicar-se à arte, ciência ou ensino no Brasil é ter o fígado devorado, reconstituído e novamente arrancado, todos os dias. É renascer somente para ser transformado em pó.
O incêndio no Museu Nacional é a autocombustão do patrimônio histórico e artístico de um aglomerado geográfico que não é nação. Nunca foi.
Parte Zero: A República Incinerativa do Brasil
O “estado brasileiro” é um termo que deveria ser escrito em maiúsculas e sem aspas, mas que não o é, pois vem falhando miseravelmente, uma vez após a outra, em sua invenção. Digo invenção porque, veja: toda nacionalidade é construída por anacronismos e revisionismos históricos, unidos em uma propaganda narrativa mutável. Note Tiradentes como herói da liberdade de uma pátria que não havia; o descobrimento em 1500 de um país que não se sabia; e, no caso mais emblemático, Luzia como a primeira cidadã de um estado nacional que continua inexistente após 11 mil anos de tentativas frustradas.
No Brasil, não há continuidade, há apenas ruptura. Criação sem maturação. Golpe sobre golpe. Um filho príncipe que dá o golpe no pai rei e intitula-se imperador; um general monarquista que dá golpe no amigo imperador instaurando a república; o leite mineiro que dá golpe no café paulista levando a uma revolta fracassada; o presidente que dá golpes em si mesmo usando ameaças falsas e um tiro verdadeiro; os militares que dão o golpe no vice com nome de pistoleiro de spaghetti western. Pode-se até dizer que a continuidade nacional se estabelece pela ruptura contínua. A lista surreal dessa distopia centenária segue até os golpes constitucionais da nossa ficção científica atual. A História do Brasil é reescrita sobre livros queimados a 233 graus Celsius. Deve ser por isso que o nome do país deriva de “brasa”.

Nós estamos, ao mesmo tempo, sobrevivendo num dos lugares mais violentos do mundo, desfrutando de uma das maiores diversidades culturais do planeta, mergulhados em crises socioeconômicas sucessivas. O Brasil é uma mistura de Faroeste com Belle Époque com Depressão dos anos 1930. Logicamente, um país só pode ser comparado a si mesmo e, levando em consideração os séculos de exploração desenfreada, eu diria até que estamos bem. Entretanto, de que vale uma das culturas mais inventivas se o extermínio vem sempre à galope? Peste, Guerra, Fome, Morte. Verdadeiras ou alegóricas. A todo momento um Cavaleiro do Apocalipse para nos incendiar. Os céus se abrem com o meteorito do Bendengó mas, por milhares de anos, não há ninguém capaz de alcançá-lo.
Fazer qualquer coisa em um país sem memória é assinar um atestado de Sísifo: empurrar um pedregulho montanha acima, vê-lo despencar ribanceira abaixo… e logo depois começar a carregá-lo de novo ao topo. Indefinidamente.
Sabemos que os humanos do paleolítico conquistaram o fogo. Acenderam tochas, iluminaram as paredes das cavernas e registraram suas histórias para a posteridade. Contudo, nós que nos chamamos brasileiros, até hoje não dominamos, com consistência, a perene flama criativa — conquistamos apenas seu poder de destruição. E enquanto não controlarmos o fogo, continuaremos nos queimando. Se você não conquista o fogo, ele conquista você.
Claro que o Palácio de São Cristovão será reconstruído em meio às lamentações. O que sobrou dos escombros, restaurado. Chegarão novas peças para o Museu Nacional ressuscitado. Mas quantas vezes teremos de recomeçar do zero? Quantas vezes reinventar a roda? Quantas vezes usar as cinzas para fazer tijolo?
Bom, acho que não temos muita escolha: quantas vezes for preciso. No fim das contas, um museu não é composto por suas paredes, não se resume aos seus artefatos, não se limita aos seus profissionais, visitantes ou viúvas. Assim como um país não se reduz a seu território, sua economia, nem mesmo à sua população, completamente substituída a cada século. Uma nação é a união coesa de um patrimônio cultural e artístico, imaterial e vivo. A História é o que fazemos dela. Resta saber quando estaremos dispostos a assumir, em definitivo, o controle da nossa história.

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