Expectativas, decepções e outros contos.

Um dos conselhos que mais se escuta no presente é que não se deve criar expectativas. Que as expectativas que criamos são responsáveis pelas nossas decepções — sejam elas sobre o que for, resultado de situações que estavam ou não sobre nosso controle — e que um caminho para uma vida mais feliz e leve passa por deixar toda e qualquer expectativa na estação antes de embarcar nesse trem para a felicidade plena.

Não tenho como discordar dessa sabedoria, afinal atire a primeira pedra quem nunca idealizou todos os detalhes de algo que ainda estava por acontecer ou então imaginou como seria uma vida a dois com um possível pretendente. Deixar a imaginação correr solta é gostoso e traz um pouquinho de magia à rotina —e ingenuamente acreditamos que, a princípio, não há nenhum mal nisso.

No entanto, exatamente como acontece muitas vezes na ciência, a realidade é o que ‘estraga’ a teoria: aquela sensação que o plano foi por água abaixo, que as outras pessoas não estão seguindo o roteiro planejado, um sentimento absoluto de fracasso — é isso, é o fim, nada vai dar certo, nada será capaz de consertar o que deu errado. Além de lidar com as consequências que não esperávamos somos obrigados a admitir: o tombo seria menor caso não houvesse tantas expectativas. Complicado.

Meu palpite é que criar expectativas está estritamente relacionado ao desejo de ter controle sobre as circunstâncias, àquela vontade de ter segurança, de saber o que vai acontecer para poder se preparar para o que está por vir. Talvez até tenha uma ligação com perfeccionismo — quando imaginamos o futuro queremos que tudo perfeito e exatamente como queremos, afinal estamos num faz de conta!

Com tantas maneiras de saber o que outras pessoas estão fazendo e todas as novas possibilidades que isso nos abre, expectativas estão esmagadoramente altas. Aprender a administrar nossas emoções e expectativas não é fácil. Abrir mão do controle e entender que mesmo não sendo perfeito será exatamente como deveria ter sido — no final tudo vai dar certo, não é mesmo — é um exercício de paciência, ainda em aperfeiçoamento no meu caso.

Ainda assim, como tudo na vida, creio que abrir mão completamente de expectativas não é o ideal. Claramente ajuda mantê-las razoáveis e aceitar que às vezes a vida não acontece como queríamos e mesmo assim está tudo bem — chega a ser contraditório, mas é a verdade: ao controlar nossas expectativas aprendemos a deixar o lado controlador das coisas de lado. Porém expectativas nos dizem o que realmente queremos, o que acreditamos ser importante, nosso cenário ideal. Quando usadas com moderação são um excelente guia para tudo que realmente nos importa, nossas prioridades para com nós mesmos, carreira, relacionamentos amorosos ou não…

Expectativas é o jeito que nosso cérebro tem de ilustrar nossos valores de uma maneira mais concreta.

E aí que está o cerne da questão: quando nossas expectativas não são correspondidas estamos negando o que há mais de importante (mesmo que apenas naquele momento) em nossas vidas. Como ainda não existe um botão de liga/desliga para isso, quero focar na outra parte desse desfecho: que tal comunicar melhor o que esperamos e assim, com alguma sorte, chegar mais perto do que queremos? Certamente é muito frustante quando a outra pessoa não segue o script mas pensando pelo lado dela, é impossível seguir algo que não se tem conhecimento algum!

Que tenhamos discernimento para saber se nossas expectativas são minimamente realistas e também saibamos usá-las a nosso favor, como indicações do que realmente queremos e ainda, que algum dia possamos aprender a externalizar nossos desejos para as pessoas ao nosso redor. Que eu consiga seguir minhas próprias expectativas.

Será que é esperar demais?

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