o primeiro passo

Talvez não tenhamos a medida exata do que realmente ocorre quando lemos um livro, um artigo científico, uma notícia de jornal ou um simples bilhete. Não estamos apenas fazendo contato visual com certos símbolos e tentando interpretar seus significados. Há uma exuberância de acontecimentos no simples ato de ler. A leitura é o momento de conexão entre o leitor e o escritor. É a ligação entre uma mente que quer aprender com outra que deseja ensinar.

A palavra “comunicação” tem origem no termo latino communicare, que significa “tornar comum”. A intenção primordial de qualquer comunicação é transmitir alguma coisa, passar à frente algum conhecimento ou uma impressão qualquer, tornar algo comum às pessoas. Esta transmissão não é um fenômeno particular da palavra escrita. Ela pode ocorrer através da palavra falada, de pinturas impressionistas, da arquitetura de mosteiros ou das músicas dos Beatles.

A comunicação cumpre um papel essencial na história humana. Ao longo de nossas vidas, temos de resolver problemas. Precisamos de respostas. Temos a necessidade de saber para agirmos corretamente. Queremos nos informar sobre como devemos proceder para alcançar um objetivo. No entanto, nenhuma pessoa é capaz de ter todas as experiências necessárias, de forma a saber solucionar todas as situações que se apresentam em nossas vidas. Temos uma possibilidade de conhecimento individual muito limitada. Se quisermos saber mais, precisamos perguntar a quem sabe mais. A comunicação serve para que entremos em contato com as experiências de outras pessoas que já passaram pelas mesmas dificuldades que nós; para que não precisemos colocar o dedo na tomada para então descobrirmos que levaremos um choque.

Cultura é o nome que damos a este acúmulo de conhecimento possibilitado pela comunicação entre as pessoas. A troca de experiências é o tecido formador das culturas. Adquirir cultura nada mais é do que tentar solucionar os problemas da vida entrando em contato com as experiências e os conhecimentos de outros seres humanos.

Pela própria estrutura da realidade, somos incapazes de vivenciar materialmente as experiências de terceiros. Ao mesmo tempo, nossas vivências pessoais compõem uma parte muito pequena do total de possibilidades de experiência. Devido a estes fatos, concluímos que só é possível adquirir o conhecimento proveniente das experiências dos outros mediante a existência de uma relação de confiança entre o emissor e o receptor. Não há outra forma possível. Como não podemos reproduzir fielmente a experiência que nos é relatada, a única garantia que temos é a palavra de quem nos diz.

Somente o testemunho pessoal autêntico é capaz de construir uma escada que permite ao próximo deixar a ignorância e viver uma boa vida. Em ambientes avessos à sinceridade, torna-se mais difícil para as pessoas realizarem suas vocações. Ao invés de pontes, criam-se muros. É neste sentido que amar a verdade é também amar o próximo. O comprometimento individual com a verdade é a condição basilar para que outras pessoas adquiram conhecimento. Nenhum empreendimento educacional pode ser bem sucedido em um país onde as pessoas não possuem amor à verdade.

É na decisão individual de amar a verdade que se origina a possibilidade de criação de uma cultura que possa orientar corretamente as pessoas nas dificuldades da vida. As culturas têm origem na alma das pessoas, na decisão profunda de encarar o mistério da realidade ou de viver em estado de alienação. A política, o jornalismo, as escolas e as artes são apenas sinais de uma cultura. São consequências de como as coisas se passam no coração de uma nação. Pessoas são as causas. Instituições são apenas reflexos.

É ilusório acreditar que qualquer mudança significativa possa acontecer no Brasil sem que antes façamos uma revolução individual interna. Devemos ter como centro o amor à verdade, que ocasionará inevitavelmente num amor ao próximo. Para isto, devemos retornar ao chão firme de nossas experiências pessoais como forma de encontrarmos nossa sinceridade. A verdade também está nas coisas que vivemos. O início de tudo está em dizermos estas verdades da nossa experiência para nós mesmos. Só assim é que se pode começar amar a verdade. Todo o resto é pequeno perto deste primeiro passo.