relativismo e totalitarismo

O relativista moral é o indivíduo que defende a inexistência de referências objetivas para a determinação de uma moral. Não existem decisões certas ou erradas. Tudo o que existe é uma “construção social” desses critérios. A conclusão do relativista, portanto, é a seguinte: se a moral foi construída, é esperado que ela possa ser desconstruída.

Esse entendimento da natureza da moral possui diversos problemas. O mais importante deles é a impossibilidade de responder à seguinte questão: se não existem referências objetivas para a determinação de uma moral, de onde o relativista retira a autoridade para promover a tal “desconstrução social”? Por que seria legítimo substituir o atual sistema de valores por outro? Afinal de contas, se tudo é uma construção social, esse novo código moral também o é. A mesma crítica feita à moral vigente poderia também ser aplicada à nova moral, de forma que esta última também poderia ser desconstruída num momento futuro à sua implantação.

A única maneira de responder a esse incômodo questionamento obriga o relativista a assumir alguma hierarquia de valores. A moral substituta deve ser superior à vigente. A moral revolucionária é certa e a moral tradicional é errada. Isso contradiz a premissa inicial de que não existe o certo e o errado. Se isso ocorre, se realmente não existe o certo e o errado, a moral vigente e a moral substituta são necessariamente iguais na hierarquia de valores, de forma que não existe um critério de superioridade capaz de nos levar a um desempate. Diante deste óbvio impasse, o relativista tem duas opções: ou assume que não existe um padrão moral objetivo e retira todo o sentido de sua tentativa de substituição da moral vigente ou aceita a existência de uma ordem moral.

Na primeira opção, a situação é mais cômoda. Ao assumir a igualdade moral entre todas as condutas, o relativista está assumindo que o estupro, a caridade, a censura, a liberdade de opinião e o homicídio são moralmente idênticos entre si. O relativismo necessariamente retira do indivíduo o julgamento da própria conduta e da conduta alheia. Em outras palavras, mudança moral se torna um termo sem significado, pois qualquer mudança requer uma diferenciação entre uma realidade atual e uma realidade potencial. Naturalmente, sendo tudo é igual, nada pode ser melhor ou pior.

A segunda opção é um pouco mais complicada. A existência de uma hierarquia de valores obriga os seres humanos a seguirem determinadas condutas. Isso requer esforço, tanto de desenvolvimento do conhecimento quanto da virtude. É uma mudança completa para o ser humano, uma vez que nossa vida é essencialmente a tomada de decisões. Os absolutos morais geram responsabilidade no ser humano. São criadas restrições à nossa própria ação. Entre a simples percepção e a aplicação prática desta percepção existe um longo e árduo caminho pela frente.

Pode soar contraditório, mas a existência de uma referência moral objetiva é a origem da verdadeira liberdade. Neste momento, a intenção não é discutir qual é o certo e o errado, nem qual a origem dos absolutos morais, mas apenas mostrar que uma moral objetiva é necessária para a existência de uma vida saudável. O relativismo moral cria uma falsa liberdade de ação. É impossível existir liberdade no caos. As diferenças e a diversidade só conseguem existir dentro de um contexto de ordenamento moral. A verdadeira discordância só existe se fundada num critério objetivo.

O relativismo nos leva inevitavelmente ao totalitarismo. Vence quem grita mais alto, ganha quem tem menos escrúpulos. Numa sociedade relativista, não há nenhuma base racional para uma discussão verdadeira, nem para o florescimento de opiniões divergentes e de pluralismo de condutas. Uma vez que o relativista toma consciência destes problemas, ele já está no caminho para deixar de sê-lo.

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