Carpideiras do passado — a destruição do Museu Nacional
Até a dor e o choro pela dor é uma construção social. O Museu Nacional estava queimando, queimou, e muito, muito se perdeu.
Mas não é o fim do mundo.
Não é hora de apontar os erros, não é hora de alimentar tensões, é hora de todos nós nos deixarmos doer e chorar a perda de grande parte da história desse país.
Será mesmo?
Será nosso papel enquanto afro-brasileiros chorar o defunto alheio, sermos carpideiras desse passado?
Repito, não é o fim do mundo!
E queria usar o exemplo do passado da própria família real, a qual agradecemos pelo esforço de montagem do magnífico acervo que infelizmente foi destruído ontem, para justificar por que nem tudo está perdido.
Se inspirem na população negra e indígena desse país as quais a família real roubou passado, presente, futuro, das quais roubou heranças, espoliou memórias e as quais matou e queimou lembranças.
Porque mesmo com toda a violência, apagamento, silenciamento e genocídio, o passado, as memórias e as heranças desses povos ainda continuam vivas, ainda são festejadas, muito se perdeu, claro, e a família real sabe mais do que ninguém que muito se perdeu, afinal ela garantiu que fosse perdido.
É triste, mas vamos seguir, façam como aqueles que vocês se esforçaram para fazer desaparecer, persistam, resistam, preservem e conservem suas memórias, suas lembranças e construam novas narrativas, novos lugares de memórias, outros passados, outras lembranças.
