Muito mais que apenas “dizer” Ajeum: O alimento, a comida e a partilha dos povos tradicionais de matriz africana.

Laroiê!! Antes de tudo saúdo Exu, como ensina a tradição, e peço agò e a benção aos nossos mais velhos e aos nossos ancestrais. Deixo claro todo o meu respeito ao conhecimento oral e ancestral produzido antes de nós e que hoje me permite fazer essa reflexão. Motumbá, Mucuiu e Kolofé!

No último dia 27, de Novembro próximo, o Ilê Axé T’Oju Labá iniciou suas atividades junto à Embrapa do Projeto “Sustentabilidade em Casas Tradicionais de Matriz Africana do DF e entorno: segurança alimentar e nutricional agroecologia e conservação dos recursos naturais”. A realização da Oficina de “agroecologia e princípios agroflorestais” é o marco de início das atividades práticas do projeto.

O projeto, uma parceria da Embrapa com 12 Casas Tradicionais, tem por objetivo contribuir para a sustentabilidade das Casas Tradicionais de Matriz Africana por meio de intercâmbio, transferências de tecnologias e a construção de conhecimentos relacionados à produção de alimentos e à conservação de recursos naturais.

Algo a ser destacado é que os espaços de práticas das religiões de matriz africana, que não necessariamente se restringem aos terreiros, não são, no Brasil e no mundo, apenas lugares de culto religioso, mas também instrumentos de preservação das tradições ancestrais africanas e de luta contra o preconceito, combate à desigualdade social e preservação do meio ambiente.

Por vezes assumem uma função social importante, uma vez que grande parte das Casas tradicionais estão localizadas em áreas definidas pelas políticas públicas como de “vulnerabilidade social”. As aspas usadas não são na intenção de reduzir a força do termo, mas de destacar a sua fraqueza, que apesar de ser elucidativo é reforçador de inúmeros preconceitos.

Inclusive a distribuição de alimentos é uma prática habitual nesses espaços. Um pouco mais de atenção nos faz entender que o alimento possui um papel fundamental nas religiões afro-brasileira, estando presente em praticamente todos os momentos ritualísticos ou não. O alimento, assim como as ervas e a língua, possuem centralidade nas tradições africanas trazidas ao Brasil e no cotidiano dos terreiros.

O fenômeno cultural da alimentação e da oferenda, é um elemento característico e de certa forma definidor nas Casas tradicionais de Matriz Africana, atuando como elemento sacralizante, sagrado, socializador e solidário.

O alimento, ou melhor, neste caso, a comida, é percebido dentro das Casas tradicionais como um agenciador de identidade das religiões afro-brasileiras, seja nas ofertas e oferendas sagradas aos orixás, ou nos banquetes e festas costumais a esses espaços.

Dentro das Casas Tradicionais é comum o uso das expressões “comida de orixá”, “o santo come” e outras. O momento de dar comida ao orixá é uma das principais formas de ligação dos homens e seus orixás, é uma forma de relacionar-se com a espiritualidade. Este momento é, em certos aspectos, uma troca simbólica entre os orixás [o sobrenatural] e os seus filhos [humano].

A vida religiosa e espiritual dos terreiros nem sempre, ou nunca, são atendidas pelo mercado industrial e varejista atual, pois não atendem demandas ritualísticas, seriam objetos “sem axé”. Diante disso, a economia do axé, afirmou José Jorge de Carvalho, merece todo apoio e reconhecimento do Estado, primeiro, por ser sustentável e segundo, porque é fruto de uma sabedoria preservada pelos povos de matriz africana durante séculos. Completo pensando que o Estado deve ainda oportunizar uma resolução para a questão fundiária e garantir meios que os possibilitem a sua reprodução física, cultural, social e econômica.

O projeto “Sustentabilidade em Casas Tradicionais de Matriz Africana do DF e entorno” é pensado dentro da Casas Tradicionais como um reforçador da ideia de que o alimento é toda substância que ingerida nos alimenta e nutre. Mas que, apesar da sua inegável importância vital e essencial, vai além do puramente fisiológico, é possuidor de um valor social e cultural, isto é, possui significados simbólicos, constituidor de um código complexo que perpassa aspectos sociais, econômicos, culturais, políticos e religiosos.

O alimento é compartilhado, inclusive com a espiritualidade, e não pode ser visto como um ato solitário, individual. Por isso o uso comum do termo comida, entendida como não apenas o alimento ingerido, mas sim como um modo de fazer, de se alimentar e de partilhar. Retomamos aquilo que Roberto DaMatta já havia adiantado, o “comer define não só aquilo que é ingerido como também aquele que ingere”.

A prática alimentar dentro das Casas tradicionais, como é uma característica partilhado por outros povos tradicionais, é uma das origens da socialização, o comer junto, no caso específico, o plantar, o cuidar junto, antes mesmo da prática alimentar, mas que a ela está necessariamente ligada, são ações socializantes.

Como já vinhamos defendendo, a solidariedade presente na partilhar, no compartilhar funções, obrigações e momentos como o “comer junto”, são definidores dos povos e comunidades de matriz africana, por isso plantar, ou preparar o alimento e compartilhar a comida vai muito além de apenas “dizer” Ajeum.

Bibliografia

BRASIL: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à fome. Alimento: direito sagrado: pesquisa socioeconômica e cultural dos povos e comunidades tradicionais de terreiros. Brasília — DF: MDS; Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação, 2011.

CARVALHO, José Jorge de. A economia do axé: os terreiros de religião de matriz afro-brasileira como fonte de segurança alimentar e rede de circuitos econômicos e comunitários. p.37–74, IN: BRASIL: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à fome. Alimento: direito sagrado: pesquisa socioeconômica e cultural dos povos e comunidades tradicionais de terreiros. Brasília — DF: MDS; Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação, 2011.

DAMATTA, Roberto. O que faz o Brasil, Brasil?, Rocco: Rio de Janeiro, 1986.

MOTTA, Roberto. “sacrifício, mesa, festa e transe na religião afro-brasileira”. Horizontes antropológicos, Porto Alegre, nº 3, p. 31–38. 1995.

Francisco Phelipe Cunha Paz — Historiador, Mestre em Preservação do Patrimônio Cultural, colaborador do Ilê Axé T’Oju Labá e membro do Grupo de Estudos sobre religiões afro-brasileiras — Calundu/DF.