1 minuto
Olho para o relógio. 00:20. Estou no caminho do meu apartamento, alugado e completamente desorganizado, dentro de um carro que comprei faz 2 anos e que ainda não terminei de pagar. Provavelmente teve sua data de morte programada justamente para o dia de hoje. Sinto que a qualquer momento essa merda vai parar de funcionar. O sinal fechou. Estou correndo o risco de frear, e assim que o carro parar, o motor bater. Mas é um risco que eu preciso passar. O semáforo demora 60 segundos para abrir. Tenho 60 segundos para pensar na minha vida, em toda essa merda. O cara do carro de traz também parou. Achei que ele ia ultrapassar, seguir mesmo com o sinal vermelho, está tarde e não tem ninguém na rua. Mas ele parou. Talvez esteja contando com esses 60 segundos de paz, onde ele vai poder pensar na merda que a vida dele é. Estamos juntos nessa eu acho.
Aprendi a pensar rápido. Foi o meio que meu cérebro arrumou para fazer com que o dia caiba em 24 horas. Acho que estou um passo à frente da evolução. O incrível assalariado fodido que pensa rápido. Com isso tenho 13 segundos a menos. Preciso pôr as informações em dia, informar meu cérebro de tudo o que aconteceu. As coisas têm acontecido automaticamente, portanto é necessário algum tempo para assimilar. Mas não tenho tempo. 18 segundos a menos. Penso que não posso me distrair, e isso me distrai. Percebo que de nada adianta pensar rápido se não consigo me focar. Cansado. É isso. Preciso dormir melhor. Preciso então que o dia tenha 26 horas. Assim eu conseguiria dormir as 6 horas sagradas para o corpo de um adulto. Ou talvez eu deva morar perto do meu emprego. Ou talvez eu deva arranjar um emprego perto de onde eu moro. 23 segundos a menos. Foco.
Acordei às 5 horas. 5:30 estava pronto: havia tomado banho, comido e colocado a farda da empresa. Entro no carro, que por sua vez demora 15 minutos para funcionar. 5:45, e estou a caminho da senzala moderna. Clichê e real. 6:45 chego. Não consigo ir rápido com o carro nesse estado, preciso agir precavidamente. Penso que tenho 15 minutos sobrando, mas não há tempo a perder, o escritório já está aberto. Alguns outros escravos já chegaram e estão tentando deixar o senhor do engenho, o dono desta porra, menos puto. Estou nessa empreitada. 30 segundos a menos, e não consegui nem passar das 8 da manhã. Não vou conseguir. O que houve de importante hoje? O que do dia de hoje repassou para o amanhã? Pense.
O almoço. O almoço estava horrível, como de costume. Mas estava exageradamente ruim hoje. Decidiram fazer um convênio com um restaurante perto da empresa, que deixa a comida diretamente no escritório, dessa forma aumentando o tempo útil de trabalho. Que ideia formidável. Se continuar assim, vou adquirir uma infecção. Preciso lembrar de reclamar disso com alguém que queira me escutar. Ah, sim. Os arrombados da área de contabilidade querem marcar futebol no fim de semana. Não vou pensar numa desculpa convincente. Vou dar a desculpa mais esfarrapada possível, assim eles entendem. Dia de folga deve ser usado de maneira apropriada, tirando folga de qualquer rosto que eu já seja obrigado a ver durante todos os outros dias. Preciso me certificar disso. 40 segundos.
O que eu fiz com o resto do meu dia? Simplesmente não consigo lembrar. Quanto mais penso, mais distante me encontro. Não é possível que tenha ficado o dia todo sentado no escritório. O que havia de tão urgente para ser feito? Se havia, eu fiz. Se fiz algo errado, inúmeras ligações estariam dando vida ao meu celular, com belíssimas ameaças de demissão. Aparentemente está tudo normal. Me olho no retrovisor, estou normal. Cabelo bagunçado, mas relevo. 50 segundos. Estou pensando cada vez mais lento. Talvez 60 segundos seja tempo demais. Amanhã vou procurar algum outro caminho, com um semáforo mais rápido. Na verdade, não preciso de tanto tempo, não. Percebo agora.
Olho para o semáforo. 00:21. Acelero, o carro funciona. Esqueço de tudo novamente.
