O grilo

A vida tem modos nada convencionais de se comunicar com todos nós. Quando estamos confusos ou sem saber o que fazer, ela sempre dá um jeito de nos mostrar a direção certa e o que fazer. 
Eu sou uma pessoa que planeja muito a vida, afinal, eu tenho ambições e aprendi que para alcançar o que queremos devemos ter disciplina e planejamento. Eu sonho com o futuro, eu planejo ele e começo a abrir caminhos que me levem lá, mas eu deixei de planejar as coisas a algum tempo para dar lugar ao inesperado. Não que eu tenha desistido de todo um futuro, nada disso, eu ainda sonho com o meu futuro, só deixei de me matar tentando chegar lá.
Mas desistir do que já foi construído, para de planejar as coisas e tentar viver a vida de forma inesperada não é tão fácil. O medo, a confusão e a frustração ainda acompanham você, só que com menos intensidade do que antes. É normal, afinal nós temos medo do inesperado, do que estar p0oo vir quando não planejamos.
Acontece que eu andava pensando muito sobre a tal da felicidade. Será que fazendo tudo o que estou fazendo agora eu vou conseguir encontrar ela? E isso vai ajudar a chegar onde eu quero? Por mais que eu tentasse afastar essas questões da minha cabeça, elas voltavam. Era inevitável.
Em um sábado qualquer, daqueles que você só quer ficar deitado na cama, sem fazer absolutamente nada, me chamaram para sair. Eu logo pensei: “Me arrumar, pegar ônibus, metro, chegar no lugar, esperar a hora passar, sono, metro, ônibus, casa. Quanto trabalho”. Eu não estava afim de sair, só de ficar deitado assistindo TV no meu quarto, mas desistir da vida com o intuito de ser feliz e passar sábados na cama não era o certo, logo eu confirmei que ia.
Dormi, levantei, levai minha dog para passear, tomei banho, me arrumei, encontrei meu amigo, peguei um ônibus, metro, encontrei minha amiga, fiz baldeação e cheguei no lugar que íamos passar a noite. Depois de umas bebidas, uma porção de fritas com bacon e uma ida ao banheiro, decidimos sair e andar um pouco. As ruas estavam movimentadas, o clima estava bom e a noite só tinha começado.
Compramos mais bebidas e sentamos em uma calçada com outras pessoas ao redor que estavam fazendo o mesmo e conversamos por um bom tempo. E foi no meio de uma dessas conversar que minha amiga deu uma gargalhada daquelas maravilhosas depois de termos falado alguma besteira, que agora eu não lembro. A gargalhada dela chamou atenção de um cara, que sem qualquer restrição entrou no meio da nossa conversa e pediu que ela fizesse de novo. 
Aquele cara ficou muito contente e impressionado com a gargalhada da minha amiga, como uma criança quando ganha o brinquedo que queria no natal. Tomado pelos efeitos que a gargalhada tinha feito nele ele começou a conversar conosco e disse: “Você andar na rua e do nada ver algo como essa gargalhada, não tem preço! É único”.
Ele disse: “Vocês estarem aqui, agora, eu passar aqui, agora foi algo que deveria acontecer. Eu precisava estar aqui e encontrar vocês para vero que eu vi. Meu dia foi difícil, mas essa gargalhada mudou tudo. Isso tinha que acontecer, estava planejado”. Eu não discordava em nada do que ele dizia, porque era exatamente o que eu achava.
“Eu prefiro fazer alguém rir ou ver alguém rir do que qualquer outra coisa material. A felicidade não se compra se conquista. Nós temos que ir atrás do que queremos sem nos importar com as coisas materiais. Precisamos viver, sorrir, isso sim é felicidade e ela não tem preço” disse ele antes de ir embora.
Nós precisávamos estar lá, ele precisava estar lá. Nosso encontro estava planejado, porque assim como ele precisava da gargalhada nós precisávamos ouvir as palavras que ele disse naquela noite. Era a resposta que a vida estava dando as perguntas que estávamos nos fazendo há muito tempo. Perguntas que eu estava fazendo há muito tempo.
A vinda daquele homem não foi registrada só pelas palavras que ele disse, mas também por um grilo feito de folhas, capim talvez, que ele deu a minha amiga pela gargalhada. Mas eu não vi aquele ato como um cara dando um grilo feito de folhas para uma menina na rua, eu vi aquilo como a vida nos dando sorte para seguir em frente.