Um oceano de memórias não tão distantes - como quando você vestia minhas camisas surradas e perguntava se havia ficado legal, e eu respondia que sim -, alguns trechos de músicas clichês e outras tantas fotos armazenadas no smartphone deturpam minha sanidade mental durante as manhãs, enquanto preparo o café-expresso, amargo e sem gosto, em uma daquelas máquinas que furtam todas as suas moedas.
Sento em um banquinho e fico coçando o queixo, buscando entender a rotação acelerada do mundo. O café esfria, o pão amassado já não tem o mesmo gosto, as coisas mudam. “O padeiro errou ao preparar a receita?”, penso. Vai ver, só mudei de gosto. Mas, e você?
Eu não entendo isso, como você mudou. Quero dizer, as coisas não parecem certas, soam como um erro ortográfico grotesco, um ponto final no meio de uma frase. Mas as coisas continuam mudando, exceto o que eu sinto. Essa vontade enorme de querer falar contigo, te enviar alguma mensagem, saber como vão as coisas, perguntar se você ainda senta feito índio no sofá da sala, às onze da noite, e toma um copo de achocolatado. Isso mudou?
Continuo pelos lugares, preparando cafés e filosofando sobre as mudanças. Esse sou eu tentando dizer que ainda te amo, sem dizer. Que ainda quero ficar contigo, custe o que custar, sem estar. O mais louco disso tudo é acordar se afogando, torcendo por um bote salva-vidas, todos os dias.
