Por que a segunda temporada de Sense8 falhou justo na sensibilidade?

Há pouco mais de duas semanas, a Netflix disponibilizou ao público a segunda temporada de Sense8 e, possivelmente, os seus feeds nas redes sociais foram inundados pelo post ‘Fulano está assistindo Sense8’, inclusive você pode ter sido um desses fulanos, contribuindo para o buzz de lançamento da temporada.

Antes de continuar, aviso que o texto contém pequenos spoilers, mas nada que estrague o tesão da trama. Caso você jamais tenha tido interesse em assistir a série, vida que segue, porém o que irei abordar aqui ultrapassa o mundinho ficcional de um produto da mais conhecida empresa de streaming atualmente e me levou à reflexão sobre o que vejo e percebo fora do simulacro.

Sense8 é uma série produzida pela Netflix, lançada em 2015. Esta nova temporada tem um gostinho especial para o público brasileiro, afinal os protagonistas gravaram algumas cenas na capital paulista. Bem, digamos que não foi uma simples locação. Tudo se passou durante a Parada Anual do Orgulho LGBT de São Paulo, também considerada a maior Parada LGBT do mundo, superando até mesmo eventos semelhantes realizados em outras grandes cidades em São Francisco (EUA) e Toronto (Canadá).

Confesso que fiquei curioso para conferir as imagens e ver como o evento foi inserido no enredo. Terminei o primeiro episódio e nada de São Paulo. Assisti o segundo, terceiro, quarto. Ué, cadê Parada? Cinco episódios se passaram, até que as coisas começaram a fazer sentido.

Lito, um dos oito sensates, também conhecido mundialmente na trama pela virilidade em seus filmes de ação, teve uma foto ~vazada~ na qual aparece fazendo sexozinho gostoso com seu namorado. Digamos que essa história de vazar foto de ator famoso em momento afetuoso com outro homem não é novidade para o público brasileiro e, cá entre nós, isso nem deveria ser pauta.

Cena em que mostram a voto vazada. E que foto ❤

Pois bem, Lito assumiu-se homossexual e, a partir dessa atitude, contratos foram desfeitos e portas se fecharam. Vale ressaltar que situações de pessoas LGBT perdendo o emprego ao tornar pública a sua orientação sexual são mais frequentes do que muita ficção. Só eu conheço três ‘cases’ de amigos que viveram isso. E olha que estou falando de excelentes profissionais.

Na trama, em meio às frustrantes propostas de filmes com personagens gays que morreram com AIDS, enfim, uma proposta se destaca aos olhos de Lito: a organização da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, o convida a ser o ‘padrinho’ da 20ª edição do evento. Sem mais spoilers, ele aceita e vem.

Chegando ao Brasil, Lito, Hernando — o boy magia eternamente Rebelde — e Daniela Velasquez são recebidos calorosamente pelos fãs brasileiros. Em seguida, o trio vai jantar em um restaurante charmosinho da cidade, no qual se deparam com um casal gay felizinho trocando beijos e carícias. Lito e Hernando reagiram com perplexidade, já Daniela aproveita para fazer umas fotos, afinal ~não é todo dia se vê homens gays trocando beijos em um local público com tanta naturalidade~. Guardem essa cena.

Eis que o grande dia chega. Close da Avenida Paulista lotada, trio elétrico, balões, arco-íris, glitter, homem sem brusinha, drags, glitter, cartaz de “Fora Temer” (sempre vale ressaltar, inclusive). Parafraseando Gusttavo Lima, “Foi bonito, foi. Foi intenso, foi verdade…”, mas poderia ter sido melhor. A cena terminou e eu vi Sense8 — umas das séries mais conhecidas mundialmente na atualidade — deixando ir pelo ralo a oportunidade em falar sobre a quantidade de pessoas LGBTs que são mortas neste país e no mundo.

Lito e Hernando em cima de um dos Trios da Parada LGBT 2016.

Aos poucos, a bandeira do arco-íris ganhou mais espaço em novelas, programas de entretenimento — como ‘Amor & Sexo — e pautas em esferas políticas e religiosas. Contudo, nem tudo são flores e cores. Observo que tal evidência possui dois lados bem opostos. Se por um lado ela encoraja cada dia mais pessoas a assumirem a sua orientação sexual e causas LGBTs, por outro ela provoca a intolerância de quem simplesmente não aceita/discorda que o outro pode ser diferente. Suponho que essa reação em cadeia seja o motivo pelo qual o Brasil seja líder mundial no ranking da violência contra LGBTs. Por aqui mata-se mais LGBTs que em alguns países do oriente e da África. Talvez porque lá a homossexualidade é considerada crime e punida legalmente com a morte, então o volume não seja alto, no entanto não deixa de ser algo preocupante.

O último relatório de “Assassinatos de LGBTs no Brasil”, feito anualmente pela ONG Grupo Gay da Bahia, identificou 343 mortes em 2016, sendo este considerado o ano mais violento para os LGBTs desde 1970, período do regime militar no qual ocorreram diversas operações, entre elas a “Operação Tarântula”, que tinha o objetivo principal de ‘caçar’ e prender travestis que se prostituíam nas ruas de São Paulo. Apesar de a operação ter sido suspensa pouco tempo depois, travestis passaram a ser assassinadas misteriosamente, a tiros.

Ou seja, atualmente, mesmo sem regime militar, a cada 25 horas um LGBT é assassinado, o que faz do Brasil o campeão mundial de crimes contra as minorias sexuais. A Bahia ocupa a segunda posição dentre os Estados com maior volume de mortes, ficando atrás apenas de São Paulo. O estudo preliminar feito em Setembro do ano passado mostrou que a maior parte das mortes (195) ocorreu em via pública, por tiros (92), facadas (82), asfixia (40) e espancamento (25), entre outras causas violentas. A instituição recebe informações das mortes por outras entidades, por familiares e amigos das vítimas, mas a principal fonte da base de dados são os casos divulgados pela imprensa. O levantamento é reconhecido pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (Fonte: Grupo Gay da Bahia).

De acordo com os dados atualizados pelo Grupo Gay Bahia, o site Em.com.br apresentou um gráfico que mostra o perfil de pessoas que morreram vítimas de homofobia no Brasil em 2016. Ocorreu um crescimento exponencial de morte de pessoas trans. Sendo considerado o subgrupo que corre maior risco.

http://www.em.com.br/app/noticia/especiais/dandara/2017/03/09/noticia-especial-dandara,852965/brasil-e-pais-que-mais-mata-travestis-e-transexuais.shtml

Em comparação a outros países, entre 2008 e 2014 cerca de 680 transexuais foram mortos somente no Brasil. Número alarmante em comparação com o segundo colocado, que atingiu 194 mortes no mesmo período.

Levantamento feito pela “Transgender Europe’s Trans Murder Monitoring” (TMM)

Os homicídios contra LGBTs são crescentes e, infelizmente, a homofobia não é crime no Brasil. Ou seja, continuaremos assistindo cenas como a do garoto que levou uma “lampadada” na mesma avenida onde ocorre a Parada todos os anos; vídeos de uma travesti agredida em via pública e morta com tiros no rosto; padrasto suspeito de matar garoto por ser gay. É triste. É doloroso. A Anistia Internacional já classificou a homofobia como algo que vai contra os Direitos Humanos, mas pessoas continuam sendo executadas por conta da sua orientação e/ou identidade de gênero.

Lembram da cena do casal feliz no restaurante? Nem sempre as coisas são assim por aqui. O respeito à pluralidade de identidade e orientação sexual ainda é algo utópico não só neste país. O gráfico abaixo mostra que caminhamos na contramão.

O sentimento do esvaziamento de todo o sentido do que poderia ter sido a cena de Sense8 na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo foi intensificado no momento em que absolutamente nada sobre esse tema foi sequer mencionado no discurso do “padrinho” do evento. Acredito que a Parada do Orgulho LGBT exista por inúmeros motivos, entre eles sociopolítico. O discurso do personagem Lito poderia ter sido riquíssimo.

Não quero problematizar (mais rs), nem fazer suposições sobre o motivo de não abordarem a homofobia e a transfobia no Brasil. Isso é mais um desabafo. Um desabafo decepcionado. Pois assim como o personagem da série sofreu ao se assumir gay, inúmerxs garotxs também sofrem. A diferença é que nem todxs tem uma segunda chance.

O entretenimento muitas vezes se torna uma janela que pode estimular debates, reflexões, posts, assuntos em grupos de Whatsapp e roda de amigos sobre assuntos de suma importância. O chamado marketing social. Infelizmente, neste caso, essa janela não foi aberta.

Além de desabafar, também queria saber se alguém mais teve essa sensação ao assistir este episódio de Sense8.


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