
O que o médico diz sobre sistemas de gestão hospitalar?
Informatizar instituições de saúde requer planejamento e envolvimento de todo corpo clínico
Texto: Dr. Dario Fortes Ferreira
Prontuários eletrônicos de pacientes (PEP) — ou em inglês Eletronic Medical Records (EMR) ou Eletronic Patient Records (EPR) são hoje uma realidade inevitável em todo mundo. Também no Brasil, cada vez mais hospitais optam por informatizar suas prescrições médicas e de enfermagem, evoluções multiprofissionais e registro de controles de sinais vitais, entre outros dados de pacientes.
Cada dia mais, a informatização pode trazer benefícios aos pacientes, hospitais e ao sistema de saúde. As bibliotecas de informações eletrônicas podem verificar não apenas interações medicamentosas automaticamente, durante a realização das prescrições, mas sugerir ajustes de dose em pacientes com insuficiência renal e hepática e avaliar a presença de dois medicamentos da mesma classe terapêutica na prescrição, entre outras facilidades. Sistemas automatizados podem interagir com dados de pacientes apoiando profissionais da saúde nas decisões sobre o cuidado, é o que costuma ser chamado de apoio à decisão clínica.
A quantidade de informações geradas e arquivadas em evoluções médicas, evoluções multiprofissionais, prescrições médicas e de enfermagem e avaliações de riscos é imensa e sem dúvida pode se transformar em uma excepcional fonte de informações clínicas, epidemiológicas e de gestão. Na maioria das vezes, no entanto, esses registros encontram-se em linguagem natural e o desafio dos sistemas de informação é serem capazes de extrair, deles, dados confiáveis. Ferramentas modernas nos auxiliam a transformar esse amontoado de informações amorfas em megadados (big data) úteis para a gestão clínica, administrativa e financeira. Esses dados transformados são informação consistente para a pesquisa científica, gerando conhecimento e melhorando a qualidade da assistência ao paciente.
Eficácia e efetividade clínica são uma exigência dos tempos modernos. Conhecer e acompanhar os resultados clínicos e financeiros da assistência à saúde é essencial para que possamos aprimorar cada vez mais a qualidade do cuidado e a segurança do paciente. Com o crescimento da capacidade de processamento, podemos criar sistemas que monitoram constantemente nossos pacientes, detectando precocemente sinais de deterioração clínica que podem pôr a vida do paciente em risco criando avisos automatizados via SMS, por exemplo, permitindo tratamento rápido e muito mais eficaz.
Muitos gestores de hospitais, no entanto, temem o impacto que a implantação desses sistemas terá sobre o corpo clínico, e ainda é bastante frequente, embora cada vez menos, nos momentos de implantação, haver reclamações por parte dos médicos sobre o impacto negativo que o sistema de prontuário e prescrição eletrônica terá sobre suas vidas e sobre a assistência ao paciente. Falhas na prescrição, como omissão de medicamentos ou erros de dose, que eram comuns, mas indetectáveis, na prescrição manual, passam a ser culpa do sistema. A mudança no modo de prescrever e evoluir, passos obrigatórios nos atendimentos médico-hospitalares, muitas vezes aterroriza médicos e enfermeiros. Essa adaptação exige uma mudança do modelo mental dos profissionais, o que nem sempre é natural e fácil para todos, mas absolutamente possível e, felizmente, inevitável.
Decisões na fase de implantação desses sistemas são fundamentais para um bom resultado e para o sucesso perene do projeto. Questões como: Devemos migrar totalmente para o sistema eletrônico ou manteremos ações manuais? Deixaremos os médicos operarem plenamente o sistema ou colocaremos profissionais não médicos para inserção de dados? Investiremos em bibliotecas eletrônicas ou manteremos nossos próprios bancos de informações? Criaremos uma enxurrada de alertas ou avisaremos apenas o que for realmente necessário? Devem ser respondidas com cuidado, atenção e planejamento para não gerar frustrações posteriores.
Cadastros bem feitos são uma das principais chaves do sucesso da implantação. É necessário investir tempo e recursos humanos na geração de um bom cadastro. Decidir como os dados serão apresentados aos usuários, por exemplo: Permitiremos prescrição em comprimidos ou apenas em miligramas ou gramas? Usaremos funções forçadas, impedindo que sejam prescritas medicações relacionadas a alergias ou apenas geraremos alertas? Todas essas perguntas devem ser respondidas antes da partida para a implantação.
SUCESSO NO PROJETO DE INFORMATIZAÇÃO
Após implantar sistemas de prontuário e prescrição eletrônica em dois grandes hospitais, após trabalhar em um hospital quase 100% informatizado e sem geração de papéis impressos (paperless), posso sugerir algumas dicas para o sucesso do projeto:
• Não subestimem a inteligência dos médicos; apesar de haver queixas e reclamações no início, eles se beneficiarão muito de um sistema consistente.
• Não é verdade que evoluir e prescrever num sistema informatizado é mais rápido que fazê-lo manualmente? Na pior das hipóteses, consumirá o mesmo tempo. Tornar o sistema o mais “usável” possível é essencial, elimine alertas desnecessários, garanta que os servidores e as configurações permitam operação rápida, gastem tempo criando telas de acesso fácil e atalhos para acelerar a operação, mantenham os cadastros limpos e organizados.
• Procurem ao máximo reduzir a geração de papel impresso, invistam na certificação digital — o impacto financeiro pode ser mais alto, mas a economia em impressão e em papel em pouco tempo suplanta esse investimento. A não impressão dos dados aumenta a segurança da informação e o sigilo do prontuário e é muito mais sustentável para o meio ambiente.
• Invistam na segurança do paciente e permitam que a informação flua de modo multiprofissional, chegando a todos os envolvidos na assistência.
• Sempre tenham em mente, em todos os momentos de implantação e operação, a segurança do paciente. Invistam em processos de checagem de medicação à beira do leito — isso traz uma segurança enorme.
Como disse no começo, a informatização dos registros dos pacientes é um caminho sem volta, mas não isento de traumas. Investir tempo em planejamento, ouvir pessoas mais experientes, dedicar tempo à elaboração de um bom cadastro, investir em equipamentos e tecnologia bem dimensionados, não ser tímido na atribuição de responsabilidades e funções aos médicos e outros profissionais, pode garantir um prontuário de boa qualidade que realmente traga benefícios a todos.
Dr. Dario Fortes Ferreira é superintendente médico do Hospital Samaritano de São Paulo. Alto executivo e cardiologista, Dario é formado em Medicina pela Escola Paulista de Medicina e fez residência médica em Cardiologia na Unifesp, Título de Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e Associação Médica Brasileira. Tem experiência de aproximadamente 30 anos na área assistencial e em gestão de hospitais. Um dos desafios à frente da Superintendência Médica do Hospital Samaritano, é consolidar a implantação da Governança Clínica com foco na garantia da eficácia assistencial, gestão de riscos e o envolvimento do paciente no seu tratamento.