Prolegômenos a uma ética dos spoilers (pt. 1)

onde reflito sobre a ontologia de um spoiler.

Muito se tem discutido sobre 'spoilers', e muita briga tem acontecido nas timelines por causa desses seres demoníacos. Movido pelas observações na minha timelinda, resolvi criar uma série de textos onde reflito sobre a natureza dos spoilers, sua temporalidade, e como proceder eticamente para evitar me colocar em situações de atrito ou conflito por causa da natureza dos spoilers. Nesse primeiro texto, começo a articular uma noção de spoiler e de como essa noção começa a formar a minha ética. E pretendo nos textos seguintes articular mais algumas noções, sempre ligando com a minha ética ( como proceder, o certo e o errado). Não escrevo de forma prescritiva, dizendo às leitoras e leitores o que fazer, mas convido todos a caminharem comigo nesse Compostela de aprendizado.

sim, e isso é um problema (gif tirada do imgur)

A narrativa seriada é uma prática inerente à humanidade desde tempos imemoriais. É da natureza do narrar esse postergar para o próximo momento a continuação de uma narrativa, seja para o dia seguinte, a semana posterior, mês que vem, etc. Nenhum exemplo é mais representativo do que a narradora Sheherazade, sempre adiando pro dia seguinte os eventos que se seguiriam, mantendo-se viva no processo. Não é um pulo intelectual muito ousado a percepção de que esse postergar, esse deixar pro próximo capítulo, encerra uma relação de poder (quem sabe detém mais poder do que quem não sabe) e descobrir o que virá torna-se uma missão do ego (fraco).

a spoileradora usurpa o seu poder de se encantar com a narrativa

É nesse universo que imana o conceito de 'spoiler'.

O spoiler é um pedaço de informação sobre algo que há em uma narrativa qualquer e que carrega o poder de frustrar a experiência de alguém que frui da obra posteriormente.

Construindo-se uma ética do spoiler, é possível que haja uma "zona de espuma" entre a informação que estragaria a experiência de alguém e a que é apenas um dado interessante que pode ser compartilhado, sem que estrague pontos fortes da narrativa. Não creio que o futuro fruidor da obra possa deter todo o poder de determinar o formato da fala de quem compartilha, mas por um outro lado há de haver bom senso, já que informação lida, vista ou escutada não pode ser simplesmente deletada, e o estrago no fruir futuro já está feito.

Um elemento que muitos parecem ignorar é que OBRAS DE FICÇÃO não são eventos no mundo per se e não devem ser regidas pela ética do JORNALISMO e seus "breaking news". E mesmo reality shows devem estar isentos da ética da notícia, pois são híbridos de ficção e realidade, criando inclusive uma clivagem entre ambas. A fruição e a necessidade em ambos, notícia e ficção, são diferentes, quase que opostas.

Claro que um 'eliminaram a fulana do reality' é spoiler puro, mas será que devemos reclamar de um 'odiei a eliminação'?

Mesmo essa pergunta acima, que parece um tanto óbvia, pode (e deve) ser contextualizada, sem que haja uma regra fixa. Cito um caso que aconteceu comigo, onde fiz esse exato comentário, e um follower que conhecia meus gostos e preferências reclamou do meu texto ser um spoiler (já que ele poderia deduzir quem teria sido eliminada). Se há uma situação 'espuma', essa o é por definição já que tendo o programa sendo disponibilizado para download, e um dia inteiro ter se passado, não acreditei que deveria ter me silenciado sobre o dito reality, afinal, estou aqui pra isso, né?

Mas então, o que cabe a cada um?

Temos que pensar que pra cada lado da interação cabe uma reflexão do seu meio-ambiente. No meu caso, a minha ética irá contemplar a ideia de que há de haver um cuidado/respeito meu sobre o conteúdo do que mando pro mundo, no sentido de tatear com meus leitores o quanto eles estão por dentro do programa, e sentir o quanto posso compartilhar. Em geral, começo por opiniões mais gerais e vou fazendo retroalimentação até encontrar o tom de abertura ideal. Sei que haverá pessoas que irão se sentir spoileradas, mas não me cabe saber exatamente o que cada pessoa já sabe do programa. Penso que posso também botar spoiler tags, mas a não-sincronia da leitura (pessoas que lêem depois) possa tirar o efeito dessa medida. Em resumo, cabe a mim ir 'sentindo a água' quanto aos possíveis spoilers que produzirei.

Como receptor de conteúdo gerado por outros, não me cabe de maneira alguma regula-los, logo preciso me colocar na posição de 'filtrante'. Devo seguir e ler pessoas que estejam no meu nível de tolerância para spoilers. Se eu fosse MUITO exigente quanto a minha fruição da obra, caberia a mim construir filtros ou bloquear pessoas, mas nunca dizer a elas o que elas podem ou devem escrever a respeito.

Infelizmente sempre haverá pessoas com intento de destruir o prazer alheio, pessoas que fazem questão de diminuir o poder da fruição alheia, pois pra elas, isso é alimento. Entretanto, como na vida, posso escolher me afastar dessas pessoas.

Minha próxima reflexão será sobre temporalidades e spoilers.