QUANDO A LGBTFOBIA ACONTECE COM A GENTE

Essa história aconteceu no passado. Num 25 de dezembro fui festejar com dois amigos em um clube. Rimos, confraternizamos, dançamos até a exaustão. Na volta nos demos conta que ninguém tinha dinheiro e só conseguiríamos pagar qualquer táxi com cartão de débito. Havia vários carros parados na rua a espera dos passageiros. Nenhum taxista tinha a máquina para passar o cartão. Um deles se colocou à disposição em fazer a corrida desde que abastecesse com gasolina o valor acordado. Assim foi feito. Ao chegar próximo do destino, o taxista não quis entrar na travessa em direção a residência. O carro parou bruscamente e a voz do taxista gritou para que todos saíssem do veículo. O motorista não perdeu tempo em nos xingar: “Seus bando de gays filha da puta”, “Bixona” “Viadinhos escrotos”. O carro acelerou, cantaram os pneus. Ficamos na rua sem entender a atitude e inconformados com a violência.

O segundo episódio aconteceu dois dias depois mesmo ponto de táxi. Fui encontrar alguns outros amigos no mesmo clube da noite de natal. Me diverti, mas o cansaço bateu e quis voltar pra casa. Fui pegar um táxi e lá estava ele, o taxista LGBTfóbico. Aproveitei a oportunidade fui em cada taxista pedir a todos mais respeito aos clientes, em especial os LGBTs seus principais clientes, apontei o taxista que cometeu ato de LGBTfobia contra meus amigos e eu, repudiei o constrangimento que sofri na noite de natal. Furioso o taxista teve a coragem de partir para agressão. Caímos no chão, brigamos, fomos apartados pelo outros taxistas que trabalham no local. Não vou mentir, tive medo de mais agressões, preferi voltar caminhando para casa. Retornei seguro. Chorei como se não houvesse horizonte. Pensei na morte, na minha família, nas pessoas que me rodeiam, nos demais LGBTs. No quarto me deparei, eu e meus amigos, vítimas da violência homofóbica.

Ainda me pergunto por que aquele homem estava ali, prestando serviço para comunidade LGBT que ele mesmo repudia? Por que tanto ódio? O mínimo que desejei foi o afastamento desse taxista daquele ponto. Isso certamente ajudaria a reduzir futuras agressões. Passei o dia pensando que caminho tomar. Os músculos ainda doloridos, a carne ainda amassada. Denunciei. Liguei no “Disque 100”. A chamada me direcionou para um canal online que opera da mesma maneira pelo endereço http://www.humanizaredes.gov.br/ouvidoria-online/. Depois de tanta violência aprendi que quando sofremos qualquer violência o caminho é realizar um Boletim de Ocorrência na polícia.

Com os pensamentos mais livres percebi depois que tive sorte. Não fui dos homossexuais mortos, seja por assassinatos e suicídios, a cada 24 horas no país. O susto, o medo, jamais serão esquecidos. Tenho orgulho de ser quem sou, tenho orgulho das pessoas que me amam, em respeito a tudo isso que tenho de mais valioso, fica impossível compactuar com qualquer violação à dignidade humana.

Agradeci às poucas pessoas que me deram força e carinho. Sem elas não teria tamanha coragem de encarar essa situação sozinho. Vivemos num momento importante da nossa história onde temos a compreensão que precisamos dar um basta à violência física ou verbal.

Reforço o orgulho que sinto dos lutadores pela igualdade de direitos e pelo combate a LGBTfobia. Basta de LGBTfobia!

Texto: Paulo Trindade — Artista, ativista e produtor cultural amazonense. 
Ilustrações: Keith Haring — Artista gráfico e ativista estadunidense. Considerado um ícone da cultura underground de Nova York da década de 80.