Abismo
Foi ele quem me fez girar e rodopiar a beira do precipício. Ele mesmo, o acuso, face a morte me encarou. Ele, que hoje finge inocência, se esquece que em estado de demência me colocou. Culpa dele, toda dele, quem me fez confessar segredos com a pior das torturas, o amor. Ele, só ele, quem me confiscou sonhos, parcelou minhas verdades em contra cheques e rasgou. Ele, foi ele e não tenho dúvidas, quem escondeu minha alma e sem piedade a dilacerou. Ele, ele sim, réu primário, mas não inocente, que de tão incoerente, me conquistou. Ele, um ser ordinário, que dizia ser anjo, roubou minhas asas mas não me levou. Ele, só e confiante. Ele, só e em estado de graça. Ele, só ele voou. E hoje, sou o lamento de que eu e ninguém o alcança e só (enquanto só) resta a esperança de que para beira do precipício ele jamais retornou.
Alguém que me ouve a suplica, por piedade e no tempo do agora, me conceda a espada para matar sua glória, impetuosa glória, pos na beira do abismo sem asas ele me lançou.
Estou em queda livre e a morte é próxima, e será ele o criminoso do crime sem pecado, sem dolo mas com culpa, do amor que me negligenciou — Donna Piedade