Manual prático: Café (coado).

  1. Certifique que você dispõe de pó de café que realmente é café, e não as cascas moídas dele (ou coisas similares). Valorize, quando possível, os locais que moem os grãos na hora. Conserve o pó em local arejado, e preserve-o fechado, para não perder aroma e sabor.
  2. Só o primeiro tópico é realmente importante nesse manual.
  3. Duas xícaras pequenas de açúcar, tendo como medida ideal aquelas porcelanas que algum conhecido traz de lembrancinha, ao visitar outro estado. É provável que a estampa da xícara seja de mal gosto, o que a torna inutilizável por questões estéticas. Priorize o reaproveitamento do objeto pelo princípio semiótico, dando-lhe outra função, mais efetiva, discreta e cotidiana: o padrão de medida para o açúcar. As tartarugas agradecem, por isso evitar que xícaras de porcelana de estampa questionável sejam descartadas no oceano. Salve a natureza.
  4. Balance o açúcar no fundo da leiteira, duas voltas no sentido anti-horário, para preencher o tempo de se alcançar a pia. Tenha plena consciência que isso não passa de um ritual ocioso, que não interfere no produto final. Desenvolva, caso julgue necessário, um ritual próprio, sem que este comprometa o resultado. Não há nenhum estudo que comprove, por exemplo, que imitar um babuíno no meio da cozinha vá atrapalhar a coagem do café. Ainda assim, evite-o. Nesse tópico, considere “fazer nada” uma possibilidade de ritual.
  5. Abra a torneira e deixe encher precisamente até a risca do segundo rebite que prende a alça na leiteira. Com um colher, dissolva o açúcar na água, sem movimentos bruscos (ou seja, sem imitações de babuíno).
  6. Em fogo alto, na maior boca do fogão, deixe que a leiteira se sinta aquecida como a tampa da privada da casa do Péricles.
  7. Certifique a garrafa: caso tenha algum resto do café anterior, descarte-o e higienize o interior. Não reutilize, em hipótese nenhuma, o café anterior. A semiótica não se aplica a café velho.
  8. Encaixe o porta-filtro no bocal, ou posicione a garrafa em baixo da haste que sustenta o filtro (essa etapa depende dos recursos que se dispõe para a coagem do café). Considere apenas a importância de se fazê-lo diretamente na garrafa, pois a utilização de recipientes intermediários altera a temperatura do produto.
  9. Posicione o filtro, de pano, na haste ou no porta-filtro. No caso de filtros de papel, desligue o fogão, calce os sapatos e vá ao supermercado comprar um filtro de pano compatível. Ao retornar, reacenda o fogão, posicione o filtro de pano, e repense sobre suas atitudes perante o uso de papel para coar café. Nessa etapa de reflexão, fica a sugestão de utilizar as tartarugas supracitadas, como personificações inanimadas de consciência, a te repreender pelo desperdício de papel em prol de um método preguiçoso e risível de se coar café. Imagine-as com a voz da tartaruga Touchet, o que intensifica o caráter disciplinar da reflexão.
  10. Coloque no filtro quatro colheres (daquelas que gente que toma sopa utiliza pra tomar sopa) rasas de pó de café.
  11. Espere que a água inicie fervura, sem que ferva. Exige-se aqui um timing específico, pois o ponto ideal é o instante em que água começa a sofrer ondulações, prestes a ebulir. Deixe para imaginar a tartaruga Touchet imersa na água fervente em um outro momento, pois isso pode distraí-lo de agir na momento necessário.
  12. Em movimentos circulares e em constante fio, despeje vagarosamente a água sobre o pó, de modo a cozê-lo lentamente, pois isso garantirá mais sabor ao café. Enquanto aguarda a água passar toda pelo filtro, aprecie o aroma do momento. A hora de beber é a hora mais feliz, mas é certo que o cheiro de café recém-passado é uma das conquistas mais importantes da humanidade. Por breves segundos, conseguimos perdoar todo o erro que é a existência humana.
  13. Remova o filtro e feche rapidamente a garrafa, não sem antes servir a primeira xícara para você.
  14. Perdoe o adjetivo “prático” dado a esse manual no título.