A vocação do mestre

Vivo no meio do mato. Onde vivo, impera a natureza, nada é capaz de sobrepô-la. Em tempos de chuvas, a natureza imponente cresce e expande seus limites físicos. Raízes, galhos, folhas e flores avançam na direção do cumprimento do ciclo natural das coisas.
Num destes dias úmidos que só o Canto da Lagoa sabe proporcionar, uma senhora resolveu subir minha rua com o carro cheio de gente e de malas. A pobrezinha foi traída pelo solo ainda encharcado pelas enxurradas, pelo motor de seu carro, já debilitado e também pela falta de reflexos que sua idade lhe impusera. O automóvel descarrilhou justo na subida, quando seu motor fraquejou, as rodas tocaram o barro e o pé afundou no acelerador. Resultado: carro enviesado no meio da lomba, com eminência de choque com as incontáveis árvores que o circundavam.
Estudávamos todas as alternativas para remoção do veículo, já exaustos por não encontrar uma solução, quando o motivo deste texto surge barulhento no início da rua. Pilotando seu Fusca branco, de motor indiscreto, chegaram para nos socorrer o mestre de obras e seu filho que trabalhavam em uma casa na rua de trás.
Sem camisa, bermuda e botas de borracha, despido de vaidades, nosso amigo mestre desceu do carro efusivo, distribuindo sorrisos e aparentemente tomado por uma alegria que só um carro a beira do desastre pode oferecer.
As marcas de uma vida de trabalho, combinadas com a idade já avançada e a exposição ao sol, denunciavam a experiência deste senhor, que me condeno por não ter perguntado o nome.
Em todo caso, o chamarei de Mestre, sem medo de errar quanto ao apelido. Ele alegava contente que estava trabalhando e escutou os gritos com palavras soltas que o indicavam um possível atolamento. Disse que de pronto colocou suas ferramentas no porta-malas para socorrer as vítimas da lama.
Junto de Mestre e seu filho, chegou com força a chuva, o que aparentemente prejudicaria o trabalho, no entanto nenhuma palavra foi proferida sobre esta. Pelo contrário, Mestre não tinha razões para lamentar-se, tinha saúde. Se agachava, erguia troncos, posicionava pedras atrás dos pneus buscando calçá-los e não poupava esforços para recolocar o automóvel no trilho, sempre com um sorriso no rosto e uma vitalidade física impressionante.
Finalmente, após tomar decisões práticas que somente um mestre poderia conceber, recolocamos com a força de todos o veículo em local seguro.
Concluída a missão, Mestre e seu filho, cumprimentaram mão a mão todos os presentes e rapidamente regressaram a rua de trás onde certamente não lhes faltava serviço.
Pelas ruas que tenho andado, nas filas que tenho apanhado, nos dilemas pessoais e sociais que tenho observado, atitudes de mestre andam escassas. Outro dia me reclamava um amigo que estava cansado de desviar das pessoas que caminhavam no sentido oposto ao seu, pois se não o fizesse corria risco de machucar-se no atropelamento. Outros colocam seus carros milionários tão imponentemente no trânsito que acabam obrigando os demais motoristas a ceder-lhes a posição, quase que totalitariamente, ao invés de baixar o vidro e fazer o milenar sinal de positivo para conseguir o que se quer, num misto de recalque e prepotência. Alguém bate o carro e são necessárias horas intermináveis de discussões para garantir que o outro cumprirá com suas obrigações. Não é mais fácil trocar telefones, trocar placas e resolver o problema assim que este seja passível de resolução? Tanta desconfiança para com o caráter do próximo só denúncia as mazelas de nosso próprio caráter. Só enxerga defeitos nos outros aquele que nega suas próprias imperfeições. Teme mais ser enganado aquele que está mais disposto a enganar.
O fato é que teremos que nos aguentar até o fim de nossas vidas. Estamos condenados a ser expectadores de nós mesmos, de nossas condutas até o último suspiro. E isso cedo ou tarde, aqui ou acolá, doerá de alguma forma.
Estamos preocupadamente distantes e despreocupadamente ausentes. Já Mestre se fez presente enquanto por aqui esteve.
Para ser mestre não é indispensável ter mestrado acadêmico, saber construir casas ou ser faixa preta em artes marciais. Para ser mestre, sabedoria basta. Observar ao seu redor, identificar sua utilidade para o mundo, cooperar, sorrir, dar o bom exemplo. Atitudes de mestre.
Os mestres são aqueles que conseguem influenciar os mais novos através de suas atitudes. No fim, poucos são os que se deixam guiar pelos maus exemplos, e se o fazem é porque geralmente não reconhecem o que há de mau no que estão fazendo, vivem no automático, não possuem tempo e nem vontade para reflexões pessoais .
Os mestres, somam, agregam, multiplicam sabedoria, simplicidade e humildade e por isso rapidamente são respeitados.
Lindas virtudes, que os mais jovens deveriam desconectar o celular para se espelhar.
Seguirei atento a cada ensinamento que me passarem os mestres da vida, para um dia repassar a sabedoria acumulada aos mais novos. A natureza realmente nos ensina a contribuir na direção do cumprimento do ciclo natural das coisas.

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