Banalização do certo ou errado

Me fascina a tentativa de compreensão do comportamento humano. Meu trabalho tem dado a oportunidade de entender na prática o que frases célebres de grandes pensadores da historia deixaram como mensagem quando em vida.
Como prestador de serviços, meu trabalho começa geralmente quando o cliente solicita um orçamento. É interessante perceber, as diferentes reações que nosso preço gera nas pessoas. Há aqueles que de imediato, como que num movimento de reflexo, já se mostram contrariados com o valor atribuído ao orçamento, descrevendo-o como caríssimo. No outro extremo das reações, há os clientes que com sinceridade atribuem a característica de barato ao nosso preço. E entre estes dois polos há gente que não esboça reação alguma, só deseja a realização do trabalho.
Outro fato interessante que demonstra abordagens diferentes das pessoas é quando me dirijo à casa de um cliente para cumprir meu trabalho. Há pessoas bem realistas, que me tratam estritamente com o “cara que limpa sofás” e a partir disso, não esperam nada além do que alguém que limpa sofás possa dar: um sofá limpo. No outro lado da balança estão as pessoas que abrem as portas de sua casa a um desconhecido, e naturalmente se esforçam a trocar com este, a fim de que se torne um conhecido. Eu não meço esforços para isso, busco afinidades entre nós e não raro faço amigos/clientes. Compartilhamos nossas experiências e histórias, escutamos um ao outro, chegando ao ponto de alguns me retribuírem a atenção ensejada na forma de presentes, que já foram livros, temperos, gorjetas, dicas preciosas, lições de vida e etc. Eu por minha vez, exerço meu comportamento humano através da correspondência destes carinhos com um serviço mais detalhado, em que não há pressa para ir embora, também em forma de brindes e descontos, ou seja, vou além do que contratou o cliente.
Um dia, cerca de 4 anos atrás, logo que aterrissei na África do Sul, conheci um feirante seguidor do rastafarianismo chamado Jabulani (que significa celebrar). Este homem com seu sotaque carregado das tribos sul africanas me deu boas lições espontâneas sobre a existência, principalmente quando dizia que a vida é como um espelho, se você sorrir para ele, ele sorri de volta para você. Isso não era novidade para mim, já havia escutado algo sobre. No entanto foi a partir daí que sua voz passou a ecoar sobre meus dias, e muitas das frases célebres que os gênios da história nos deixaram passaram a fazer mais sentido. Jabulani também repetia de forma incontável a expressão Mofaya e dizia que os animais eram seus amigos, repetindo “ eu não mato a galinha, não mato a vaca, não mato porcos ou coelhos, são meus amigos”. Na época, com 21 anos e imaturo, eu não fazia ideia da importância que aquele encontro teria sobre mim. 4 anos depois suas lições viriam a fazer mais sentido na minha vida, quando naturalmente me enquadrei dentro delas.
Enfim, a trama aqui é a percepção de que o certo ou errado são entendimentos particulares de cada um. O barato ou caro depende de quem paga, a pessoa valiosa ou não depende de quem a recebe, e os ensinamentos preciosos dependem de quem os absorva ou não. Escolher fazer de um orçamento motivo de constrangimento mútuo é uma escolha com consequências para quem esteja envolvido. Tratar as pessoas bem ou com indiferença são opções que reservam suas implicações particulares a cada um, e finalmente saber escutar as lições que a vida diariamente nos passa é igualmente gerador de efeitos.
Assim é a vida. Mas o que me chateia nisso tudo é a banalização dos fatos. O egocentrismo parece engessar o que é certo e o que errado, ficando o entendimento de um e de outro exclusivamente dependente do que favoreça mais o indivíduo, sem que haja uma reflexão do que significam nossas atitudes se analisadas além do Eu, em âmbito coletivo.
E o mais desconfortável nisso tudo é a banalização dos valiosos ensinamentos deixados pelos grandes pensadores que pela história humana passaram. As selfies acompanhadas de frases prontas banalizam o conteúdo destes pensamentos. Elas minimizam a genialidade dos poetas e dos sábios. Imagine uma ideia dos imortais Einstein, Chaplin, Goethe, Neruda, Pessoa , Shakespeare, Linspetor combinada com o vazio existencial de uma selfie. Nem o sujeito em frente ao espelho, nem seus seguidores levam a sério tal absurdo. As frases prontas passam medonhamente invisíveis disfarçando algo que o selfier deseja esconder.
Aliás, tenho uma reflexão pronta sobre as selfies que está descansando uns dias antes de ser publicada. Aproveite para postar sua selfie logo.