sobre o signo de Peixes #1

O Sol já está em Peixes. Uma das versões do mito que versa sobre os Peixes que ilustram os céus diz que eles são Vênus e Cupido, que Júpiter transformou em peixe para que escapassem da morte pela água. Amarrados um ao outro, para não se perderem. Vênus e seu filho. O amor é filho de Vênus. Vênus se exalta em Peixes, onde Júpiter tem seu domicílio. De Vênus e Júpiter, Peixes recebe favores, ordens e proteção. Um signo que nasce sob o signo da sorte e da benesse, mas também da abnegação e do torpor. O mundo entorpece Peixes que entorpece o mundo. Viver sob as águas é refúgio, abismo e delírio. Há um alívio em entregar-se ao curso do rio chamado Destino, que é o alívio de se reconhecer imerso em um mistério. Peixes, para mim, é o mais místico dos signos. E místico no sentido de conter em si o mistério. Ou por sua natureza mutável, um signo dado à mistagogia, que é o ato de conduzir ou iniciar alguém em algum mistério. O mistagogo seria o responsável por fazer nascer o mystes — aquele que é iniciado no segredo. O mais curioso é que todas essas palavras — mistério, mistagogo, mystes — derivam de myein, que literalmente significa algo como “fechar”, usado aí no sentido de manter oculto. A ética do mistério é o segredo.

George Harrison, pisciano de Sol e Vênus, era conhecido como “o beatle quieto”. Sabemos que, segundo a Tradição, Peixes é um signo mudo. Era também o beatle mais dado à espiritualidade. O documentário que conta sua história leva o nome de uma música sua, “living in the material world”, “vivendo no mundo material” — muito legal a capa, na qual ele está, evidentemente, na água. Era alguém certo sobre a existência do espírito e juntou espiritualidade e música no seu trabalho: “Try to get a message through / and get back out of this material world”. George estava fazendo uma música espiritualmente desperta”, declarou Scorsese, diretor do documentário. O sucesso não o distraiu do caminho espiritual que desejava trilhar. Após sua morte, suas cinzas foram jogadas em rios sagrados da Índia, conforme sua vontade. Voltou para as águas sagradas, onde seu corpo sempre desejou estar, e de onde sua alma nunca saiu.

- Letícia Helena C. Santa Cruz

foto: Henry Grossman