A ascensão de Alexandre Kalil e a Reforma Administrativa

Foto: Amira Hissa (Congresso em Foco)

Reportagem por: Bárbara Souza, Breno Ribeiro, Diego Souza, Gabriel Lacerda, Gabriela Guedes, João Gabriel Batista e Pedro Henrique de Oliveira.

Dizem que a política é saber a hora de apertar o gatilho e Alexandre Kalil sabe bem. Eleito como prefeito no final de 2016 com 52,98% dos votos, pode-se dizer que o ex-cartola surgiu no cenário político para os eleitores como o cara certo no momento certo.

Filho de Elias Kalil e de Leila Hissa Kalil, o representante da prefeitura de Belo Horizonte mantém o mesmo estilo dos tempos de Clube Atlético Mineiro. Entretanto, com uma personalidade tão diferente dos políticos tradicionais, quais seriam as razões que levaram o polêmico Kalil ao cargo máximo da capital mineira?

De início, é preciso relembrar o ano de 2008, quando o turco assumiu o Atlético a beira falência e a torcida amargava um jejum de títulos há mais de 40 anos. Nessa época, com as finanças indo de mal a pior, o resultado nos gramados consistia em uma série de fracassos. Diante desse cenário caótico, Kalil inicia o processo de reestruturação financeira do clube e colheu, nos anos seguintes, os frutos de um bom trabalho.

Longe da crise e com os cofres cheios, pôde investir em contratações e tornar o Atlético um clube competitivo e capaz de lutar pelos topos das tabelas outra vez. O ex-presidente do clube e atual prefeito de Belo Horizonte esteve à frente da conquista de três taças de grande expressão cenário do futebol nacional e continental, a Copa Libertadores da América (2013), Copa do Brasil (2014) e a Recopa (2014). Por esses motivos e muito mais, até hoje, ele é tido como peça fundamental na reviravolta, sendo considerado por muitos o maior presidente da história agremiação.

Paralelo aos trâmites administrativos, era comum ver Alexandre colocando a boca no trombone nos veículos da grande imprensa, seja para saudar e fazer declarações de afeto à Massa Atleticana ou para reclamar de resultados e dos escândalos de arbitragem.

Com a ajuda da mídia, criou-se um folclore em cima da personalidade de Kalil. Em Belo Horizonte é comum se referir ao ex-cartola pelo o apelido de “Poderoso Chefão”, devido a paixão pela família, a estreita relação com o pai, a sinceridade e a fama de durão que não leva desaforos para casa. Toda essa fama construída ao longo dos anos somada a uma equipe bem montada e atenta ao cenário político contemporâneo foram elementos cruciais durante sua campanha — e vitória — nas eleições para a prefeitura.

“Você pode me amar ou me odiar, mas mas tem duas coisas que eu não faço: Não invento, não roubo e não minto! E vocês sabem disso.” Disparou no último debate da TV Alterosa na véspera das eleições.

É fato que, no início da campanha, o ex-cartola não possuía a confiança da maioria e por muito tempo dividiu opiniões. Buscando atrair os eleitores, em sua campanha, Kalil se apresentou como uma alternativa à velha política. Sua gestão bem sucedida numa empresa privada serviu de respaldo para o bordão “Chega de político, é hora de Kalil”.

O discurso antipolítico caiu como uma luva em um momento de crise e representação, fazendo com que, o candidato rapidamente cativasse grande parte dos eleitores da capital e disputasse com diferença mínima o pódio das pesquisas realizadas durante as eleições. Estratégia essa que também foi adotada por João Dória, em São Paulo, e Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, todos eleitos em suas respectivas cidades.

Discurso esse, que para Mateus Simões, Vereador de Belo Horizonte, virou moda. “É até engraçado você ver um ex-dirigente de futebol dizendo ser contra a política, logo o futebol, uma área tão politizada no Brasil”, afirma.

Kalil em seu primeiro discurso como prefeito, já afirmava a execução de uma de suas primeiras ações para enxugar a máquina pública, a Reforma Trabalhista “Estão desempregados, estão na rua […] Vocês voltarão no dia 1° de Janeiro a mandar nessa cidade”, disparou em meio aos gritos da multidão.

A REFORMA TRABALHISTA

E mesmo que o ex cartola, tão querido por tantos Belo Horizontinos, tenha um bom histórico em relação aos seus planos de ação e mudanças administrativas em clubes de futebol, a capital mineira ainda não é 100% certa de suas ações. Na última pesquisa realizada em maio, mais de 30% dos eleitores ainda não sabiam o que achavam no início de sua gestão e das decisões que foram tomadas.

Dados: Instituto Paraná | Arte: Breno Ribeiro

A reforma apresentada visava cortar dois mil e oitocentos cargos comissionados, treze secretarias e fundações, inclusive as que estavam em processo de construção, como o caso da LGBT. Além de modificar empresas como a BHTrans, Prodabel, Urbel e BeloTur. Aprovada no segundo turno com vitória unânime de trinta e oito votos contra zero, a nova proposta tem como objetivo gerar uma economia de mais de trinta milhões de reais por ano.

Os funcionários nomeados por Kalil para administrar as secretarias representam escolhas que levaram em conta os aspectos técnicos, pessoas capacitadas que tiveram seus currículos minuciosamente estudados. Entretanto, Mateus Simões, Vereador de Belo Horizonte, o ideal seria uma administração com novos políticos que tenham práticas não viciadas. “Você vê que seria melhor que os políticos presentes atualmente na administração não estivessem?”, ele nos questiona.

Para Henrique Rosa, Assessor Jurídico e pesquisador da Reforma Administrativa, na prática isso pode acontecer de forma inversa e gerar um aumento no número de cargos comissionados ao invés de reduzir. Por isso, é necessário manter um certo cuidado sobre a forma como será feita a distribuição do quantitativo. “Uma vez que a Decisão é tomada descentralizada, sem ter que ir ao prefeito, gera mais agilidade. Outro problema é o surgimento de diversos decretos e isso é um pouco perigoso porque retira da casa dos representantes do povo a apreciação de diversas matérias que podem ser extremamente relevantes, mas que com essa nova reforma ficam a critério do prefeito.”, afirma o assessor.

Outro perigo presente na Reforma é o aumento da burocracia que traz consequente adiamento das operações, uma vez que, quando certas ações não precisam passar pelo veredito do prefeito, tendem a ser, em teoria, exercidas com mais agilidade. E a população, cada vez mais atenta ao exercício de governo dos representantes que escolheu também não se cala. Em pesquisa realizada pelo Instituto Paraná, os cem primeiros dias de mandato do prefeito Alexandre Kalil na visão da maioria dos Belo horizontinos está regular, dado que aponta que a satisfação total ainda está longe de ser alcançada.

E foi pensando nisso que nós, da revista Pingo no I, resolvemos analisar a atuação do “chefão” da capital mineira nestes cem primeiros dias de mandato. Realizamos uma checagem aprofundada acerca de cinco afirmações feitas em discursos ou entrevistas a respeito do saneamento básico, redução de despesas, cargos públicos e a própria reforma administrativa. Ficou interessado? As declarações e o desenrolar delas você confere clicando AQUI.

E se você acha que a saga de “Don Kalil” está chegando ao fim, está muito enganado. Muitos capítulos ainda virão nestes próximos anos, e nós da Pingo no I estaremos prontos para dar o devido aprofundamento a essa história. Contudo, enquanto isso não acontece, você pode entrar no nosso canal do YouTube e conferir se o “Poderoso Chefão” de Belo Horizonte tem alguma coisa a aprender com o Don Corleone da ficção.