Os curiosos negócios das Apps no município de Guimarães

Devo começar por avisar que o que irão ler a seguir é baseado apenas em informações publicadas no Google Play, no portal BASE (Contratos Públicos Online) e na minha experiência de utilização de duas Apps para dispositivos móveis promovidas pelo município de Guimarães: MyCity e BioDiversityGo! Vou apenas levantar questões e o leitor tirará as conclusões que quiser.

As Apps

Muito sucintamente, as duas Apps em análise têm funcionalidades interessantes e que promovem a participação ativa dos cidadãos do concelho. A MyCity é uma ferramenta de registo de ocorrências/anomalias detetadas no espaço público (avarias, falta de limpeza, estragos, etc.) por qualquer pessoa que se tenha registado no sistema. A BioDiversityGo! tem funcionalidades semelhantes, embora com objetivos bem distintos, pois o âmbito é o registo de avistamentos de espécies de flora ou fauna existentes no concelho. É possível consultar informações mais detalhadas nas App Stores da Google ou da Apple (ver ligações acima para o Google Play).

A) MyCity; B) BioDiversityGo!

As aplicações não primam bela beleza estética, usabilidade ou desempenho (sobretudo a BioDiversityGo!, que é bastante lenta e consome imensa largura de banda), mas cumprem a sua função e são, como se disse acima, um contributo interessante para o envolvimento dos cidadãos na valorização do seu território.

Devo realçar que a MyCity tem um sítio Internet (http://www.mycity.pt/) que, basicamente, é uma réplica funcional da aplicação móvel. Ambas as aplicações certamente terão um back-office onde funcionários processam os registos comunicados pelos utilizadores.

Os curiosos negócios

Estando profissionalmente ligado ao mundo das tecnologias de informação, fiquei com curiosidade de saber que empresa fez tais aplicações e qual o valor de aquisição. Felizmente, vivemos num país onde, apesar de tudo, há alguma transparência e fui consultar os contratos de aquisição no portal BASE. Vejamos as curiosidades:

  • Conforme contrato publicado no BASE, a MyCity foi adquirida pela Comunidade Intermunicipal do Ave à euPA Sistemas, pela módica quantia de 74.100€ (!!!). Este valor é no mínimo surpreendente, tendo em conta a simplicidade da app móvel e do próprio sítio Internet, reforçado pela experiência de utilização bastante tosca, em ambos os casos. Nem sequer o facto da aplicação ter sido feita para vários municípios justificaria este valor, pois, como é evidente, todos os municípios partilham a mesma aplicação. A aplicação transmite a sensação de que foi feita apenas por um ou dois engenheiros, em poucas semanas de trabalho, sem o habitual envolvimento de designers, prática inquestionável no mundo das aplicações profissionais. Acresce o problema da ligação ao serviço não ser segura (não suporta HTTPS) e de não ser muito difícil alguém intercetar as comunicações e, por exemplo, aceder à palavra-passe dos utilizadores. Admitindo-se o eventual exagero, a ideia que salta à cabeça é que “qualquer estagiário faria isto por um décimo do valor adjudicado”. É apenas uma ideia. Digam de vossa justiça.
  • O contrato de aquisição da BioDiversityGo!, da responsabilidade do Laboratório da Paisagem, tem valores mais decentes (10.000€), mas tem a particularidade de ter sido adjudicado, pasme-se, a um gabinete de contabilidade, a “CCJA, Contabilidade”, sediado em Famalicão, que nem sequer tem sítio Internet. Questão: o que raio tem um gabinete de contabilidade a ver com desenvolvimento de Apps móveis?
  • Talvez uma consequência da falta de aptidão dos contabilistas para gerirem Apps móveis, note-se que, nas App Stores, a BioDiversityGo! está registada em nome da identidade Dev Sistemas, da responsabilidade da euPA Sistemas — a mesma empresa que gere a presença da MyCity nas Stores. Questão: se o contrato foi adjudicado a um gabinete de contabilidade, porque razão está a euPA Sistemas também aqui metida?

E pronto! Esta é apenas uma amostra dos curiosos negócios que se fazem por cá. Estou certo que a informação aqui apresentada é incompleta, poderei ser acusado de enviesamento e gostaria que as entidades visadas ajudassem a completar estes dados. No entanto, realço, toda a informação aqui apresentada é pública e as questões que levanto são apenas isso: questões que qualquer pessoa atenta e minimamente informada colocaria.

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