A Autoconsciência e os Murmúrios do Corpo, Daniel Goleman, Foco, p. 65–67

pirangy
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Aug 8, 2017 · 3 min read

Futebol, basquete, debates, qualquer disputa — o maior rival da minha escola de ensino médio, no Vale Central da Califórnia, ficava na cidade ao lado, seguindo pela Rodovia 99. Com o passar dos anos, fiquei amigo de um aluno daquela outra escola.

Durante o ensino médio, ele não tinha muito interesse em estudar — na verdade, quase não se formou. Tendo sido criado num sítio nos arredores da cidade, passava muito tempo sozinho, lendo ficcção científica e mexendo em potentes carros antigos, sua paixão. Na semana anterior à formatura dele, um carro passou correndo por trás quando ele estava virando à esquerda para entrar na garagem de sua casa, destruindo seu pequeno carro esportivo. Ele quase morreu.

Uma vez recuperado, meu amigo entrou para a faculdade comunitária local, onde descobriu uma vocação que fascinou sua atenção e mobilizou seus talentos criativos: fazer cinema. Depois de se transferir para uma faculdade de cinema, fez um filme como projeto de fim de curso que chamou a atenção de um diretor de Hollywood, que o contratou como assistente. O diretor pediu para meu amigo trabalhar num projeto muito querido seu, um filme de baixo orçamento.

Isso, por sua vez, levou meu amigo a conseguir um estúdio para apoiá-lo como diretor e produtor de outro filme pequeno baseado em seu próprio roteiro — um filme que o estúdio quase matou antes da estreia, e ainda assim se saiu surpreendentemente melhor do que qualquer um esperava.

Mas os cortes arbitrários, as edições e outras mudanças feitas pelos chefões do estúdio antes da estreia foram uma lição amarga para ele, que valorizava ao máximo o controle criativo do trabalho. Quando foi fazer outro filme baseado num roteiro próprio, ele recebeu uma oferta de um grande estúdio de Hollywood, que era a oferta-padrão da época, em que o estúdio financiava o projeto e detinha o poder de mudar o filme antes do lançamento. Ele recusou a oferta — sua integridade artística era mais importante.

Em vez disso, meu amigo “comprou” o controle criativo ao produzir o filme sozinho e investindo cada centavo dos lucros que recebeu com o primeiro filme neste segundo projeto. Quando estava quase tudo pronto, ficou sem dinheiro. Foi atrás de empréstimos, mas todos os bancos negaram. Apenas um empréstimo de último minuto do décimo banco ao qual ele implorou salvou o projeto.

O filme era “Guerra nas Estrelas”.

A insistência de George Lucas em manter o controle criativo, apesar das dificuldades financeiras que teve, representa uma enorme integridade — e, como o mundo todo sabe, também acabou se mostrando uma decisão de negócio muito lucrativo. Mas essa decisão não foi motivada pela busca de dinheiro — na época, ter direitos subsidiários significava vender pôsteres e camisetas do filme, uma fonte banal de receita. Naquele momento, todo mundo que conhecia a indústria do cinema aconselhou George a não continuar o filme sozinho.

Uma decisão dessas exige imensa confiança nos próprios valores. O que permite a alguém ter uma bússola interna tão forte, um norte que o guie pela vida de acordo com seus valores e objetivos mais profundos?

O segredo é a autoconsciência, especialmente a precisão para decodificar a voz interior dos murmúrios do nosso corpo. Nossas reações fisiológicas sutis refletem a soma total da nossa experiência que é relevante para a decisão em questão.

As regras de decisão derivadas das nossas experiências de vida residem nas redes neurais subcorticais que reúnem, armazenam e aplicam algoritmos para cada acontecimento das nossas vidas — criando nosso leme interno. O cérebro armazena nosso mais profundo senso de propósito e sentido da vida nessas regiões subcorticais — áreas pouco conectadas com as áreas verbais do neocórtex, no entanto ricamente ligadas à intuição. Conhecemos os nossos valores primeiro sentindo o que parece certo e o que não parece, e então articulando essas sensações no nosso íntimo.

A autoconsciência, então, representa um foco essencial, que nos sintoniza aos sutis murmúrios internos que podem nos ajudar a guiar nosso caminho pela vida. E, como veremos, este radar interno é a chave para administrarmos o que fazemos — e, igualmente importante, o que não fazemos. Este íntimo mecanismo de controle faz toda a diferença entre uma vida bem vivida e outra hesitante.

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    digitando enquanto leio. [typin’ while readin’].