A Relação entre a Intuição e o Corpo, Daniel Goleman, Foco, p. 68–70
Depois de ser diagnosticado com o câncer pancreático que tiraria sua vida alguns anos depois, Steve Jobs fez um discurso sincero a uma turma de formandos de Stanford. O conselho dele: “Não deixe as vozes das opiniões dos outros afogarem sua voz interior. E, mais importante, tenha a coragem de seguir seu coração e sua intuição. De alguma forma, eles já sabem o que você realmente quer se tornar.”
Mas como você pode ouvir a “sua voz interior”, o que o seu coração e a sua intuição de alguma forma já sabem? Você precisa confiar nos sinais do seu corpo.
Talvez você já tenha visto a imagem bastante estranha de um corpo mapeado pelo córtex somatossensorial, que rastreia as sensações registradas por várias áreas da nossa pele: essa criatura tem uma cabeça minúscula, mas lábios e língua imensos, braços pequenininhos, mas dedos gigantescos — todos refletindo a relativa sensibilidade dos nervos em várias partes do corpo.
Um monitoramento semelhante dos nossos órgãos internos é feito pela ínsula, região escondida atrás dos lobos frontais do cérebro. A ínsula mapeia a parte interna do nosso corpo por meio de circuitos que se ligam aos intestinos, coração, fígado, pulmões, genitálias — cada órgão tem seu ponto específico. Isso permite que a ínsula aja como um centro de controle para funções dos órgãos, enviando sinais para o coração diminuir o ritmo e os pulmões respirarem melhor.
A atenção voltada para dentro na direção de qualquer parte do corpo amplifica a sensibilidade da ínsula à área particular que estamos checando. Sintonize a atenção às batidas do coração, e a ínsula ativa mais neurônios naquele circuito. O quanto as pessoas são capazes de perceber as batidas do próprio coração, na verdade, se tornou uma forma-padrão de medir sua auto-consciência. Quanto melhor as pessoas são nisso, maiores são suas ínsulas.
A ínsula nos sintoniza não apenas a nossos órgãos. Nossa própria noção de como estamos nos sentindo depende dela. Pessoas que ignoram as próprias emoções (e também — de forma reveladora, como veremos — ignoram como as outras se sentem) têm uma atividade lenta da ínsula em comparação com a alta ativação encontrada em pessoas altamente sintonizadas com suas vidas emocionais internas. No extremo desse desligamento emocional estão as pessoas com alexitimia, que simplesmente não sabem o que sentem e não conseguem imaginar como outra pessoa pode estar se sentindo.
Nossos “sentimentos viscerais” são mensagens da ínsula e de outros circuitos ascendentes, que simplificam as decisões da vida ao guiarem nossa atenção na direção de melhores opções. Quanto melhores somos em ler essas mensagens, melhor é a nossa intuição.
Pense naquele incômodo que às vezes você sente quando desconfia que se esqueceu de alguma coisa importante justamente quando está saindo para uma longa viagem. Uma maratonista me contou de uma vez que estava a caminho de uma corrida a 650 quilômetros de distância. Ela sentiu esse incômodo — e o ignorou. Mas enquanto ela seguia na autoestrada, o incômodo ficava voltando. Então ela se deu conta do que a estava incomodando: havia esquecido os tênis de corrida.
Uma parada num shopping que estava prestes a fechar salvou o dia. Mas seus tênis novos eram de uma marca diferente das que ela usava normalmente. Depois ela me contou: “Nunca fiquei tão machucada!”
“Marcadores somáticos” é o termo do neurocientista Antonio Damasio para as sensações do nosso corpo que nos dizem quando uma escolha parece certa ou errada. Esse circuito ascendente telegrafa suas conclusões através das nossas intuições, frequentemente muito antes que os circuitos descendentes cheguem a uma conclusão mais racional.
A área pré-frontal ventromedial, parte-chave desse circuito, guia a nossa tomada de decisão quando encaramos as escolhas mais complexas da vida, como com quem nos casar ou se compramos uma casa. Essas escolhas não podem ser feitas com base numa análise fria e racional. Em vez disso, nos saímos melhor ao simular como seria escolher entre A ou B. Essa área do cérebro opera como esse leme interno.
Há dois importantes fluxos de autoconsciência: o “eu” que constrói narrativas sobre nosso passado e nosso futuro e o “eu” que nos traz ao presente imediato. O “eu” relacionado ao passado e ao futuro reúne o que vivemos através do tempo. O “eu” do presente imediato, em absoluto contraste, existe apenas na experiência crua do aqui e agora.
O “eu” do presente imediato, nossa mais íntima noção do nosso self, reflete a soma fragmentada das nossas impressões sensoriais — especialmente os estados do nosso corpo. Este “eu” é formado a partir do sistema do nosso cérebro responsável por mapear o corpo através da ínsula.
Esses sinais internos são nossos lemes interiores, que nos ajudam em muitos níveis, desde viver uma vida de acordo com nossos valores até nos lembrar de colocar nosso tênis de corrida na bagagem.
Uma artista veterana do Cirque du Soleil me contou que, com suas rotinas cansativas, os artistas se esforçam pelo que ela chamou de “prática perfeita”, em que as leis da física e as regras da biomecânica se unem com o tempo, os ângulos e a velocidade, de modo que eles consigam ficar “mais perfeitos por mais tempo — já que não se pode ser perfeito o tempo todo”.
E como o artista sabe que está se aproximando da perfeição? “É uma sensação. Sabemos disso nas nossas articulações antes de sabermos na nossa cabeça.”
