Breve consideração sobre Arquétipos, Carl Gustav Jung, O Homem e seus Símbolos, p. 122–124

A maneira pela qual os arquétipos aparecem na experiência prática é que eles são ao mesmo tempo imagem e emoção; e só podemos nos referir a arquétipos quando esses dois aspectos se apresentam simultaneamente. Quando existe apenas a imagem, ela equivale a uma descrição de pouca importância. Mas quando carregada de emoção, a imagem ganha numinosidade (ou energia psíquica) e torna-se dinâmica, acarretando várias consequências.

Sei que é difícil apreender esse conceito, já que estou tentando descrever com palavras uma coisa que, por natureza, não permite definição precisa. Mas como muitas pessoas pretendem tratar os arquétipos como se fossem parte de um sistema mecânico, que se pode aprender de cor, é importante esclarecer que não são simples nomes ou conceitos filosóficos. São porções da própria vida — imagens integralmente ligadas ao indivíduo através de uma verdadeira ponte de emoções. Por isso é impossível dar a qualquer arquétipo uma interpretação arbitrária (ou universal); ele precisa ser explicado de acordo com as condições totais de vida daquele determinado indivíduo a quem o arquétipo se relaciona.

Assim, no caso de um cristão devoto, o símbolo da cruz só deve ser interpretado no seu contexto cristão — a não ser que o sonho forneça uma razão muito forte para que se busque outra orientação. E, mesmo nesse caso, deve-se ter em mente o sentido cristão específico. Evidentemente, não se pode dizer que, em qualquer tempo ou circunstância, o símbolo da cruz terá a mesma significação. Se fosse assim, perderia sua numinosidade e vitalidade para ser apenas uma simples palavra.

Aqueles que não percebem o tom de sensibilidade especial do arquétipo vão deparar-se apenas com um amontoado de conceitos mitológicos que podem evidentemente ser juntados para provar que todas as coisas, afinal, têm alguma significação — ou nenhuma.

Todos os cadáveres do mundo são quimicamente idênticos mas o mesmo não acontece com o indivíduo vivo. Os arquétipos só adquirem expressão quando se tenta descobrir, pacientemente, por que e de que maneira eles têm significação para um determinado indivíduo vivo.

As palavras tornam-se fúteis quando não se sabe o que representam, e isso se aplica especialmente à psicologia, onde se fala tanto de arquétipos como a anima e o animus, o homem sábio, a Mãe Grande etc: Pode-se saver tudo a respeito de santos, de sábios, de profetas, de todos os homens-deuses e de todas as mães-deusas adoradas mundo afora. Mas se são meras imagens, cujo poder numinoso nunca experimentamos, será o mesmo que se falar como num sonho, pois não se sabe do que se fala. As próprias palavras que usamos serão vazias e destituídas de valor. Elas só ganham sentido e vida quando se tenta levar em conta a sua numinosidade — isto é, a sua relação com o indivíduo vivo.

Apenas então começa-se a compreender que todos aqueles nomes significam muito pouco— tudo o que importa é a maneira como estão relacionados conosco.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.