Concentração Total e Treinamento, Daniel Goleman, Foco, p. 157–161

A Iditarod deve ser a corrida mais cansativa do mundo: trenós de cães competem ao longo de um percurso de mais de 1700 quilômetros de gelo ártico, correndo por mais de uma semana. Normalmente, os cães e o condutor andam um dia todo e descansam à noite ou andam uma noite toda e descansam durante o dia.
Susan Butcher reinventou a Iditarod ao correr e descansar alternadamente por períodos de quatro a seis horas noite e dia, em vez de fazer períodos de 12 horas correndo e 12 de correndo. Foi uma inovação arriscada — para começar, lhe dava menos chances de dormir (enquanto os cães dormiam teriam de se preparar para o próximo trecho). Mas ela e seus cães haviam treinado dessa forma e, desde a primeira tentativa, Butcher soube, no fundo do seu coração, que esse regime de corrida poderia funcionar.
Butcher acabou vencendo a Iditarod quatro vezes. Ela morreu de leucemia (doença que havia matado seu irmão na infância) uma década depois de seus tempos de corrida. Em sua homenagem, o estado do Alasca proclamou o primeiro dia da Iditarod como sendo o Dia Susan Butcher.
Técnica em veterinária, Butcher foi líder no tratamento humano e cuidadoso de seus cães, cuidando deles ao longo de todo o ano e fazendo do treinamento para as corridas o padrão, não a exceção. E ela era bastante sintonizada com os limites biológicos de que seus cães — e seu próprio corpo — podiam suportar. O tratamento inadequado dos cães tem sido o maior motivo de críticas à corrida.
Butcher treinava seus cães tanto quanto um maratonista se prepara para uma corrida, sabendo que o resto é tão importante como correr. “Para Susan, o cuidado com os cães era a prioridade número um”, seu marido, David Monson, me contou. “Ela via seus cães como atletas profissionais o ano todo, dando a eles cuidado veterinário, treinamento e nutrição da mais alta qualidade.”
Havia também sua preparação pessoal. “A maioria das pessoas não pode imaginar a complexidade de enfrentar uma expedição de 1700 quilômetros no gelo e na neve, que pode durar até 14 dias”, Monson me disse. “A temperatura varia de 5 graus positivos a 50 negativos, estando à mercê de nevascas. É preciso levar kits para consertos, além de comida e remédios para si e para os cães, e tomar as decisões estratégicas corretas. É como se preparar para uma expedição ao topo do Everest.
“Por exemplo, há de 145 a 160 quilômetros entre um ponto de controle e outro em que há comida e suprimentos armazenados para a etapa seguinte, e é preciso levar meio quilo de ração para cada cachorro todos os dias. Porém, se no trecho seguinte houver uma nevasca, você precisará de comida extra e abrigo para os cães. E isso representa mais peso.”
Butcher precisava tomar essas decisões estratégicas — além de se manter vigilante e atenta — tendo dormido apenas uma ou duas horas por dia. Enquanto os cães descansavam o mesmo tempo que corriam, durante seus intervalos ela se ocupava de alimentar e cuidar dos cães e de si mesma, além de fazer quaisquer consertos necessários. “Manter a atenção durante um período altamente exaustivo e estressante significa ter de ser metódico e experiente, para que sejam tomadas as decisões corretas mesmo sob pressão”, diz Monson.
Ela passava horas e horas ajustando suas habilidades ao trenó, estudando as sutilezas da neve e do gelo, e se conectando com seus cães. Mas era o autocontrole a característica mais proeminente em seu regime de treinamento.
“Ela realmente conseguia se focar”, disse Joe Runyan, outro corredor de Iditarod. “E era isso que a tornava tão boa no esporte.”
A “regra das 10 mil horas” — de que esse nível de treinamento é o segredo do sucesso em qualquer área — se tornou uma verdade sacrossanta, repetida em sites e recitada como uma ladainha em workshops de alto desempenho. O problema: ela é apenas uma meia-verdade.
Se você é péssimo no golfe, por exemplo, e comete os mesmos erros toda vez que tenta dar uma determinada tacada, 10 mil horas de treino desse erro não irão melhorar o seu jogo. Você ainda será péssimo no golfe, ainda que mais velho.
Ninguém menos do que o especialista Anders Ericsson, o psicólogo da Universidade Estadual da Flórida que se dedicou a investigar o grau de perícia adquirida depois da aplicação da regra das 10 mil horas, me disse: “Ninguém se beneficia da repetição mecânica, mas sim de ajustar a sua execução várias vezes, até chegar mais próximo do seu objetivo.”
Você precisa regular o sistema ao forçá-lo”, ele acrescenta, “abrindo espaço para mais erros no começo, aumentando seus limites”.
Com exceção de esportes como basquete ou futebol americano, que se beneficiam de traços físicos como peso e altura, Ericsson diz que quase qualquer um consegue atingir os mais altos níveis de desempenho se praticar de forma inteligente.
No começo, corredores de Iditarod descartavam as chances de Susan Butcher algum dia vencer a corrida. “Naquele tempo”, David Monson recorda, “a Iditarod era considerada um esporte adequado apenas para homens do estilo caubói — duros na queda. Apenas valentões o praticavam. Outros corredores diziam que Susan jamais conseguiria vencer — ela tratava os cães como bebês. Então, quando ela começou a vencer um ano depois do outro, as pessoas se deram conta de que seus cães estavam mais aptos do que os outros para os rigores da corrida. Isso mudou fundamentalmente a forma como os corredores se preparam e disputam a corrida hoje.”
Ericsson argumenta que o segredo da vitória é “treino deliberado”, em que um treinador especialista (essencialmente o que Susan Butcher era para seus cães) o guia através de um treinamento bem-planejado ao longo de meses ou anos, e você se dedica com concentração total.
Horas e horas de treino são necessárias para um excelente desempenho, mas não são suficientes. O modo como especialistas de qualquer área usam a atenção durante o treino faz uma diferença fundamental. Por exemplo, em seu bastante citado estudo de violinistas — o que mostrou que o melhor de todos havia ensaiado mais de 10 mil horas — , Ericsson descobriu que os especialistas o faziam totalmente concentrados em melhorar um aspecto particular de sua performance identificado por um mestre.
Uma prática inteligente sempre inclui um esquema de feedback, que permite reconhecer erros e corrigi-los — razão pela qual os dançarinos usam espelhos. Idealmente, esse feedback vem de alguém com um olhar de especialista — e assim cada esportista campeão de nível internacional tem um treinador. Se você pratica sem esse feedback, você não chega ao topo.
O feedback importa, bem como a concentração — e não apenas as horas.
Aprender como melhorar qualquer habilidade exige foco descendente. A neuroplasticidade, o fortalecimento de velhos circuitos cerebrais e a construção de novos para uma habilidade que estejamos treinando exigem que prestemos atenção. Quando treinamos com nosso foco em outro lugar, o cérebro não reprograma o circuito relevante para aquela rotina em especial.
Sonhar acordado acaba com o treino. Quem assiste à TV enquanto faz exercícios jamais chegará ao topo. Prestar atenção total parece aumentar a velocidade de processamento da mente, fortalecer as sinapses e expandir ou criar redes neurais para o que estamos praticando.
Pelo menos no começo. Mas quando você domina a execução de uma nova rotina, a prática repetida transfere o controle dessa habilidade do sistema descendente de foco intencional para os circuitos ascendente que acabam tornando sua execução mais fácil. A essa altura, você não precisa mais pensar na execução — pode realizar a rotina bastante bem no automático.
E é aí que os amadores e os especialistas se distinguem. Os amadores se concentram, a certa altura, em permitir que seus esforços se tornem operações de baixo para cima. Depois de cerca de cinquenta horas de treinamento — seja esquiando ou dirigindo — ,as pessoas atingem aquele nível de desempenho “bom o bastante”, em que conseguem realizar os movimentos mais ou menos sem esforço. Não sentem mais a necessidade de uma prática concentrada, mas se contentam em se sair bem com o que aprenderam. Não importa quanto mais treinem nesse modo ascendente, a melhoria será desprezível.
Os especialistas, em contrapartida, continuam prestando atenção de cima para baixo, contrariando intencionalmente o desejo cerebral de automatizar as rotinas. Eles se concentram ativamente naqueles movimentos que ainda precisam aperfeiçoar, corrigindo o que não está funcionando bem no jogo, refinando os modelos mentais sobre como jogar ou se concentrando nos detalhes do feedback de um treinador experiente. Quem está no topo nunca para de aprender: se em algum momento começam a relaxar abandonam esse treino inteligente, passam a jogar com o circuito ascendente e suas habilidades se estabilizam.
“O especialista”, diz Ericsson, “contraria ativamente as tendências ao automatismo, construindo e buscando deliberadamente treinamentos nos quais a meta estabelecida excede seus níveis de desempenho”. E acrescenta: “Quanto mais tempo o especialista consegue investir no treino deliberado com concentração total, mais desenvolvido e refinado será o seu desempenho.”
Susan Butcher treinava a si mesma e a seus cães puxadores de trenó a operar como uma unidade de alto desempenho. Ao longo ao ano, ela e seus cães passavam por um ciclo de períodos de 24 horas de corrida e descanso, então tiravam dois dias de folga — em vez de arriscar que seus cães diminuíssem o ritmo por terem corrido demais, caso seguissem o padrão da época de intervalos de 12 horas. Quando chegavam à corrida Iditarod, ela e os cães estavam com o condicionamento máximo.
A atenção focada, como um músculo trabalhado, se cansa. Ericsson descobriu que competidores de nível mundial — sejam levantadores de peso, pianistas ou uma equipe de trenó puxado por cachorros — tendem a limitar o treino pesado a cerca de quatro horas por dia. Descansar e restaurar a energia física e mental faz parte do regime de treinos. Eles buscam forçar a si mesmos e a seus corpos ao máximo, mas não tanto a ponto de o foco diminuir durante a sessão de treinamento. O treinamento ideal mantém a concentração ideal.
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