TransVest inaugura primeira república para transgêneros em Belo Horizonte

A ONG TransVest inaugurou no mês de abril uma república exclusiva para travestis e transexuais em Belo Horizonte. Pioneira na cidade e uma das primeiras no país, o espaço que se localiza no bairro Santa Tereza foi criado com o intuito de acolher transgêneros que moram na rua. De acordo com o integrante da direção Nathan Rodrigues, o objetivo do abrigo é garantir que eles tenham condições de estudar, trabalhar e buscar uma vida melhor, para permanecer na luta pela igualdade.

A república é um projeto desenvolvido pela ONG, que é a responsável pela administração e manutenção do local. A idéia que já existia se concretizou quando foram acolhidos alunos trans moradores de rua.O espaço possui seis vagas, mas todas já se encontram preenchidas no momento. Apesar dos diversos serviços oferecidos pela instituição, a TransVest não conta com nenhum auxilio do governo. Além do seu único mantenedor, o banco BDMG, ela se mantêm através de doações e voluntariado.

Ludmila Ferraz, a primeira moradora da casa, comemora o tamanho dessa grande conquista. “É uma casa que não é abrigo, não é albergue, nem casa de zoação. Lá tem normas, tem regras. Somos um coletivo que quer um futuro melhor, queremos estudar e estamos procurando serviço”, afirmou.

Para Paulo outro dos seis integrantes, o projeto apesar de ser novo é a salvação. Ele, que já viveu na rua e passou por abrigos públicos da prefeitura, mudou sua condição de vida agora na ONG. A questão de gênero fica muito explícita nesses abrigos, já que os locais são divididos entre os sexos biológicos, e as pessoas ficam suscetíveis à violência.

A INSTITUIÇÃO

A TransVest é uma organização não governamental, localizada no Edifício Maletta, que objetiva combater a transfobia e a violência social incluindo travestis, transexuais e transgêneros na sociedade.

Em entrevista, o assessor da ONG, Nathan Rodrigues, revelou que a TransVest
 começou apenas como um cursinho, mas que depois tomou proporções bem maiores. “Hoje, além do pré-vestibular, temos também preparatório para realizar a prova do Cesec, aulas de idiomas, como inglês, espanhol, francês e italiano, aula de libras, arte marcial e teatro”. Segundo a direção, a instituição não realiza um processo seletivo para a captação de alunos, basta que os mesmos tenham vontade de estudar. O preparatório possui duração de um ano, e pode se estender por tempo indeterminado devido ao retorno das provas, e as dificuldades de aprendizado resultantes de traumas escolares.

As doações e o auxílio do BDMG de acordo com Nathan, não são suficientes para suprir todos os gastos, pois além das aulas, a instituição também oferece vale-transporte e lanche para os alunos. Já sobre a equipe pedagógica, o mesmo nos revelou ser composta por 22 voluntários, incluindo professores, pedagogos e monitores. E também por compreender as demais necessidades de seus alunos, a organização conta com uma equipe responsável pelo acompanhamento psicológico, psiquiatra e jurídico.

Muito ativa nas redes sociais, a página da TransVest no Facebook possui mais de 12 mil seguidores. Além de estar presente em outras redes, como o YouTube e o Instagram, o assessor nos revelou que a comunicação dentro da ONG é o essencial e que é através dela que ele busca patrocínios e doações. “Hoje, quando se fala em visibilidade, é através de redes sociais e as mídias digitais em geral. Elas atuam promovendo a ONG com suas atividades, palestras, parcerias e noticias do meio trans como foco, mas também incluindo noticias do meio da diversidade sexual e de gênero”.

AS HISTÓRIAS

A singularidade do projeto está ligada diretamente com a singularidade dos envolvidos. A família TransVest, como eles ressaltaram, é cheia de pessoas diferentes, que carregam lutas únicas. Assim, suas histórias e aprendizados são compartilhados para o crescimento do grupo.

Ludmila Ferraz, que saiu de Brasília e passou por Uberlândia, até chegar a Belo Horizonte e hoje mora na Casa, não tem vergonha de contar sobre o período em que esteve na prostituição. “Se não fosse o TransVest, até hoje eu estaria lá. Se um dia eu precisar voltar, eu vou de cabeça erguida, mas espero que não precise. Não quero que isso volte para minha vida”, ressaltando as mudanças que o estudo lhe trouxe.

Josiane, de 21 anos, costuma dizer que, ao conhecer a instituição, sua vida se divide em duas: o antes e o depois. Para ela, a empatia é um valor fundamental e que ainda precisa ser muito trabalhado, para que a sociedade os veja como as mulheres e homens que realmente são. “Eles não precisam me aceitar, mas vão ter que respeitar”. Contou também que, quando se assumiu como mulher, seu avô, que tinha 94 anos, disse que a amaria de qualquer jeito; o que valeu mais do que qualquer repressão familiar.

A inclusão através da educação também esteve presente na fala de MichellyColt. Aos 36 anos, resolveu se preparar para o ENEM, ainda na dúvida entre os cursos de enfermagem e biomedicina. Apesar de ter obtido a nota necessária para ingressar na faculdade, Michelly não concluiu o ensino médio, o que impediu sua entrada, mas não desanimou seu ritmo de estudos. “O TransVest é isso, resistência. Conquistar o povo e essa sociedade primitiva, mostrar que somos capazes e que temos que ser reconhecidas como iguais em qualquer situação”.

A IDENTIDADE

A identidade de gênero é algo pouco compreendida dentro de uma sociedade, já que o mesmo não possui muito enfoque para discussões. Refere-se à maneira como alguém reconhece a si mesmo dentro dos padrões de gênero estabelecidos socialmente, independente do sexo biológico ou da orientação sexual. “Não é uma opção, não é uma escolha. Você nasce assim”, ressalta Carolina Moraes, de 26 anos.

Não é nada fácil para essas pessoas entenderem o que se passa em suas mentes, pois, além das críticas e preconceitos, há milhares de pensamentos e dúvidas. O estranhamento começa a partir de crianças, quando os brinquedos e roupas não os representavam. Na adolescência, a imagem real do espelho começa a destoar daquilo que imaginavam ver.

“É uma questão que não tem a ver com o enxergar e, sim, com o sentir. Essas pessoas se sentem como se estivessem em um corpo diferente do que deveriam ter”, afirma a psicóloga Patrícia Araújo. O acompanhamento psicológico é fundamental para que a pessoa se aceite durante a transformação e entenda quem está se tornando. “Não é um órgão que vai me fazer menos mulher”, afirma uma das participantes.

O uso do nome social oficialmente a partir o Decreto Nº8727 de 28 de abril de 2016, é uma forma de reconhecer os gêneros. O processo, porém, é burocrático. É preciso apresentar três testemunhas na audiência, junto a um laudo médico que comprove a identidade requisitada. Para a psicóloga, não há uma explicação da causa do por que isso ocorre, apenas acontece e precisamos aprender a lidar com isso.

O BRASIL

A comunidade transgênero sofre diariamente no país. Além da discriminação por grande parte da sociedade, a população trans luta para conseguir direitos básicos, como o uso do nome social, acesso ao mercado de trabalho e à educação. Contudo, um dos maiores problemas enfrentados por eles é a violência.

A transfobia se caracteriza como uma série de atitudes de agressão e exclusão de pessoas trans, baseado em um preconceito à questão de gênero. Essa discriminação reflete uma estrutura de desconhecimento e intolerância ao diferente muito presente na sociedade brasileira. “A gente é ligada somente à prostituição, mas a verdade não é essa. Somos marginalizadas. Para eles, toda trans vive na rua e rouba, como se fosse um monstro” comenta Carolina.

No Brasil, os casos extremos tornaram-se comuns. Os assassinatos desta parcela da sociedade sobem a cada ano e ainda há dificuldade no registro de todos os casos. Um levantamento feito pelo grupo TransRespesct mostra que 51,3% (864) dos casos conhecidos como homicídios de pessoas trans na América Latina ocorreram no Brasil, que é o país que mais mata transexuais no mundo.

Além disso, Minas Gerais é o quinto estado com maior violência contra LGBTs, reforçando ainda mais a importância da TransVest. Decisões nos tribunais de justiça passaram a aplicar a Lei Maria da Penha também para mulheres transexuais. Existe um projeto em tramitação na Câmara dos Deputados para nova ampliação na Lei, incluindo também pessoas transgêneros.

*Trabalho escrito por Amanda Caroline, Clara Passos, Gustavo Costa, Izabella Ravaiane, Julia Grego, Lara Pereira, Luísa Camargos e Luíza Lanza e apresentado para fins de avaliação parcial de quatro disciplinas do curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.