A beleza de abraçar nossas imperfeições

Abraçar nossas imperfeições? Sério mesmo? Por que não? Qual é o problema em aceitarmos nossos defeitos?

Será que vale a pena olhar para aquele nosso lado o qual mais rejeitamos? Você tem coragem de fazer isso?

Bom, bora tentar destrinchar o tema:

Rejeição: jogando tudo no lixo

“Aquilo que você resiste, persiste.” — C.G. Jung

Praticamente todos nós temos o hábito de descartar aquilo que não nos é útil, que não é agradável ou que simplesmente não atenda a nenhum padrão (seja estético ou de comportamento). Se isso acontece com nossos bens, que vão ficando obsoletos, também é de se esperar que haja uma renovação interior. Isso é normal, saudável e faz parte do ciclo da vida.

Só que a coisa se agrava quando queremos esconder ou jogar fora tudo aquilo nosso que, supostamente, não é aceitável socialmente. Assim, não é incomum que determinadas reações e sentimentos sejam trancafiados, escondidos a sete chaves no fundo do baú do ser.

Vivemos fugindo de nos mesmos, escondendo partes que não gostaríamos de revelar — seja por medo, orgulho, subordinação, entre outros. Sem contar que somos praticamente obrigados a manter uma imagem de pessoas fortes, destemidas, que não sofrem. Por isso, escondemos nossas dores do mundo.

Porém, penso que existe um salto, um ato de coragem em assumir nossas fraquezas e defeitos (tanto para nós mesmos quanto para os outros).

E existe muita gente que concordaria com isso…

O encontro com a Sombra

Para Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço, a Sombra é um arquétipo da personalidade composto das propriedades ocultas, desfavoráveis ou funções mal desenvolvidas, as quais ficam renegadas no inconsciente. Ela (a Sombra) não é o todo do inconsciente, apenas representa qualidades e atributos desconhecidos pelo ego do sujeito. Coisas negativas e/ou potenciais que o sujeito sequer imagina que possa ter ou vir a desenvolver [1].

Várias outras tendências e impulsos compõem a Sombra, tais como: egoísmo, medo, ódio, raiva, etc. Ela impele a extirpar da consciência todos esses aspectos considerados reprováveis, ou seja, os aspectos que danificam uma “boa imagem” de si mesmo.

Tudo aquilo que o sujeito nega de si e trancafia num baú a sete chaves dentro de seu inconsciente fazem parte da sua Sombra. Algumas vezes, esse conteúdo irrompe e escapa da mente do sujeito (sabe aquele surto de raiva que você teve e depois se arrependeu? Pois é…). Quando a gente menos espera, os demônios internos batem à nossa porta.

“Se você se enche de raiva quando um amigo lhe aponta uma falta pode estar certo que aí se encontra uma parte da sua sombra, da qual você não tem consciência.” — Marie-Louise von Franz

Porém, há um imenso valor quando se reconhece sua influência e o leque de possibilidades, os aspectos positivos que não poderiam vir à luz sozinhos. Para que isso aconteça, é necessário um encontro com a sua Sombra (que, infelizmente, sempre começa com um embate) [2].

“Mas o que é reprimido tem que se tornar consciente para que se produza a tensão entre os contrários, sem o que a continuação do movimento é impossível.” — C.G. Jung

Só que não vale a pena lutar contra a Sombra. Jung assevera que não se pode ter uma visão unilateral da Sombra, como se ela fosse uma parte inferior da personalidade, digna de pena e repressão. Na verdade, é uma parte que precisa ser unificada, integrada, para assim compor uma totalidade sadia (lembra do Self?). E para isso, é preciso encontrar um equilíbrio: nem o embate furioso com a sombra e nem a completa identificação com ela [3].

O Zen e a aceitação

No Zen Budismo, pode-se encontrar uma forte indicação ao desapego e aceitação das coisas. Esse desapego advém de aceitar que as coisas são constantemente mutáveis, perecíveis, que a mudança é a única constante. Tudo é impermanente. E tudo passa: a raiva passa, a maré de azar passa, o medo passa, até a uva passa (ha! Prassódia feelings).

Aí entramos no Mushin (無心), um estado mental bastante conhecido pelo Zen e por praticantes de Artes Marciais. É literalmente traduzido como “mente sem mente” ou “o estado de não-mente”. Trata-se de um estado em que a mente não é ocupada, isto é, não se apega a nenhum pensamento ou emoção. Não se identifica com nada, mas também não rejeita. É a simples aceitação do momento presente — mesmo com todas as suas imperfeições e falhas [4].

Não se trata de uma mente vazia, no sentido literal, mas uma mente no presente, “cheia do agora”. E para estar no momento presente, temos que nos abster de julgar. Parar de atirar pedras nos próprios sentimentos. Se é raiva que você está sentido, sinta a raiva. Olhe para ela e deixa-a ir.

Isso não pode ser captado por nenhuma elucubração intelectual, tem que ser sentido. É experiência, vivência.

Kintsugi — a Arte de abraçar nossas imperfeições

Na tradição japonesa, existe uma arte denominada Kintsugi (金継ぎ), que consiste em reparar a cerâmica com laca e pó de ouro (às vezes com prata ou platina). Com isso, as rachaduras ficam aparentes, mas o resultado é simplesmente espetacular:

Abraçar nossas imperfeições

Só que, como sempre, há um algo a mais nessa refinada arte. Isso faz com que ela seja conhecida também como “A Arte de abraçar as imperfeições”, contendo todo um pano de fundo filosófico [5].

A Filosofia do Kintsugi foca na aceitação daquilo que é defeituoso, por isso o destaque nas rachaduras. É ver essa imperfeição como algo natural da vida, que tem sua própria beleza. São essas cicatrizes que nos tornam únicos, que compõem a nossa história. São as páginas do livro pessoal de cada um.

Porque muita coisa na nossa vida se quebra, principalmente aquelas coisas e eventos que são preenchidos das mais diversas expectativas. Muitas vezes sonhamos com padrões: de relacionamento, de amigos, de emprego etc. Busca-se sempre a perfeição, mas se esquece que as coisas não são perfeitas. E pior, tudo é mutável, transitório, impermanente.

O Kintsugi evoca também a ideia do desapego e da aceitação do destino, algo já mencionado na Filosofia Zen Budista. Não há porque esconder as nossas dores a sete chaves, trancafiá-las e tirar todo o contato delas com o mundo. Pelo contrário, não se deve negar quem você é e isso inclui aceitar todas as suas partes, inclusive aquelas que você considera, a princípio, como “feias”.

Da mesma forma, passar por uma situação difícil e ter superado isso é algo do qual merece orgulho (sem exageros, ok!). Por isso, abraçar nossas imperfeições, as rachaduras e os momentos difíceis é um ato de muita força e coragem. É celebrar nossa capacidade de resiliência e superação.

Só mais uma coisinha…

Para não perder o costume, resolvi deixar um vídeo interessante do Mestre Yoda de Star Wars enfrentando sua própria Sombra (uma aula de como abraçar nossas imperfeições, aceitar nossos erros e integrá-los):

A ideia está formatada na Jornada do Herói — algo que está em Star Wars como um todo — por isso tem esse viés de dominar a Sombra etc.

Inclusive, seria uma boa explorar a Jornada aqui depois, hein?

Recapitulando

  • Vivemos fugindo de nós mesmos, escondendo partes que não gostaríamos de revelar;
  • Muitas vezes demonstrar fraqueza é um ato de força e coragem;
  • Na Sombra residem potencialidades que jamais imaginaríamos;
  • É preciso também encarar e aceitar as falhas, vícios, impulsos negativos etc.;
  • Esqueça aquela besteirada do “O Efeito Sombra”;
  • Aceite o momento como ele é, com suas falhas;
  • Existe uma peculiar beleza em abraçar nossas imperfeições, dores e sofrimentos;
  • Celebre sua capacidade de renovação, de resiliência.

Indicações de leitura

[1] MARCONDES, Kathy Amorin. Introdução à Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

[2] JUNG. C.G. O Homem e Seus Símbolos.

[3] JUNG, C.G. Psicologia do Inconsciente.

[4] SOUHOU, Takuan. A Mente Liberta: Escrito de um Mestre Zen a um Mestre da Espada.

[5] JUNIPER, Andrew. Wabi sabi: the japanese art of impermanence.