A Seleção Brasileira feminina se tornou a “queridinha” dos torcedores na Rio 2016, mas há muito a ser feito para desenvolver a modalidade no país. Foto: Ministério do Esporte.

A solução para o futebol feminino no Brasil

7 reflexões para o desenvolvimento da modalidade no “País do futebol”

16 de agosto de 2016. Sol forte, maracanã lotado. Transmissão ao vivo nas principais emissoras de rede aberta e fechada do país. Depois de muitos anos, o brasileiro estava ali, no estádio ou em frente à TV, torcendo pela Seleção Brasileira Feminina. Em jogo, uma vaga na final dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e o sonho da inédita medalha de ouro. Que não veio, infelizmente. Derrotas para a Suécia, nos pênaltis, na semifinal, e para o Canadá, na disputa pelo terceiro lugar, deixaram o Brasil na quarta colocação.

Com a modalidade em foco pelo sucesso de Marta e Cia e pelos grandes públicos que as acompanharam nos Jogos Olímpicos, supostos analistas, que nada acompanham o futebol feminino dentro e fora do país, afirmam que o que o Brasil precisa é de um campeonato profissional feminino forte para se desenvolver na modalidade. Pedem que a CBF amplie o calendário feminino e que os “clubes de camisa” formem equipes e invistam na modalidade, dando notoriedade e trazendo suas legiões de fãs ao jogo feminino.

Seria mesmo este o melhor caminho?

08 de outubro de 2016. Na Jordânia, bem longe do Maracanã e do clima olímpico, mas com transmissão ao vivo em rede aberta (Band) e fechada (Sportv), a Seleção Brasileira Feminina Sub17 perde para a Inglaterra por 2 a 1 e é eliminada do Campeonato Mundial da categoria ainda na 1ª fase. Resultado ruim para o peso do Brasil no futebol mundial. Ainda assim, melhor que o da geração anterior: em 2014, o selecionado brasileiro nem sequer se classificou para o Mundial, que conta sempre com três representantes sul-americanos. Em 2016, a vaga foi garantida com o vice-campeonato continental — o título ficou com a Venezuela.

Esse é o contexto: mesmo com dimensões continentais e com a força cultural e social do futebol em nosso país, nas categorias de base nem sequer dominamos a modalidade na América do Sul.

A lógica da pirâmide

A lógica da pirâmide é básica para se compreender a estrutura de gestão de uma modalidade esportiva. O alto rendimento está lá em cima, no topo. A iniciação de atletas é a base. Entre eles, os estágios de desenvolvimento: identificação e lapidação de talentos, equipes e competições de base, desenvolvimento de conceitos mais complexos de jogo e evolução da prática e das faixas etárias até que os atletas alcancem o alto rendimento — normalmente representado por uma prática profissional. A evolução parece óbvia: de baixo para cima.

Na cultura brasileira, porém, pensamos sempre na solução mais curta. A política recente na área da educação é prova disso: investimento na estrutura do ensino público? Não. Investimento na qualificação dos professores da rede pública? Não. Valorização dos professores e as mais que justas adequações salariais? Não. O caminho foi facilitar o acesso dos estudantes ao ensino superior (que trouxe pontos positivos, é verdade, mas passou bem longe de resolver os problemas da educação formal no país). Ampliação do FIES e afrouxamento na fiscalização do MEC, proliferando cursos de qualidade duvidosa que passaram a receber alunos despreparados devido à péssima condição do ensino público nacional — salvo felizes exceções, é claro.

A opção pelo caminho mais curto é frequente. Ela sacia a ânsia brasileira pelos resultados imediatados. Os dados indicam crescimento, mas a qualidade não necessariamente sobe. O buraco é mais embaixo. Sempre.

Resistir à tentação de pensar no topo

No futebol feminino não é diferente. Olhar para a ponta do iceberg é uma tentação. Fazer (ou dizer que está fazendo) algo que envolva a Seleção Brasileira, grandes camisas ou um campeonato nacional profissional é tentador, mas não é a solução para o futebol feminino no Brasil.

O caminho é a base da pirâmide. Se não possuirmos estrutura e centros minimamente qualificados para a iniciação de atletas, nem equipes, campeonatos e investimento adequados para o desenvolvimento desses talentos na adolescência, qualificando o nível do jogo à medida que a faixa etária das atletas avança, como teremos atletas de alto nível na categoria principal?

Sem passar qualificadamente por estágios de desenvolvimento, nossas atletas terão graves déficits ao alcançar a fase adulta, o que implicará numa baixa qualidade do jogo praticado. Outro problema: sem a massificação, uma quantidade cada vez menor de atletas será capaz de passar por esse funil de oportunidades, resultando em menos atletas capacitadas para jogar no mais alto nível.

Esses são ingredientes perfeitos para um produto ruim, que acabará incapaz de atrair público, mídia e patrocinadores, jogando por terra, em pouco tempo, todo o esforço em melhorar o campeonato nacional, deixando atletas sem emprego e sem perspectivas de melhoria.

Em um país onde as oportunidades são escassas e o preconceito impera, não é uma boa ideia “queimar cartuchos” na tentativa de desenvolver o futebol feminino. Precisamos ser certeiros.

O caminho é de baixo para cima. Repita: o caminho é de baixo para cima

Tentação evitada, é hora do trabalho. O caminho é de baixo para cima. O foco é partir da base da pirâmide: massificar a prática da modalidade, criar condições e locais adequados para iniciação e desenvolvimento de atletas no jogo feminino; qualificar professores e treinadores, desenvolver e disseminar uma metodologia de trabalho específica para a modalidade; e criar competições e eventos de base.

Não é simples, mas é o caminho que sugere desenvolvimento. Não se trata de ampliar o Campeonato Brasileiro Adulto, nem apenas de transferir a responsabilidade para os “clubes de camisa”, os levando à modalidade feminina no curto prazo. Essas ações são populistas e geram mídia, mas não garantem o desenvolvimento da modalidade. Podem trazer justamente o contrário: um fracasso capaz de enterrar de vez o sonho de um futebol feminino forte e organizado em nosso país.

Em tempo: alguns poucos grandes clubes (os chamados “times de camisa”) possuem equipes de futebol feminino no Brasil. Deles, a maioria esmagadora apenas ‘empresta’ seu escudo e uniforme. O trabalho é totalmente terceirizado e os vínculos com a instituição são mínimos. Há benefícios nessa relação?

Colher os frutos

Tempo. Resultados significativos exigem tempo. Exigem maturação das ideias e das práticas, qualificação constante dos profissionais envolvidos e incremento da cultura de desenvolvimento. Tudo isso acontece com o tempo. Em um prazo entre seis e oito anos, a estratégia de fortalecimento da modalidade a partir da base da pirâmide será capaz de gerar resultados bastante significativos. Serão mais atletas praticando a modalidade, mais equipes e competições de base, maior qualificação do nível do jogo praticado no país e melhoria também das seleções brasileiras de base. Boa estratégia, mãos à obra e tempo: a receita para colher frutos não é assim tão complicada.

Base sólida, topo reforçado

Focar na base da pirâmide não significa abandonar o topo. Significa justamente o contrário: fortalecê-lo, mas à médio e longo prazos. Ainda assim, melhorias incrementais imediatas na categoria principal são necessárias. Um calendário nacional um pouco mais amplo e inteligente, que permita a manutenção das equipes por um maior tempo, é fundamental para que as atletas possam se dedicar profissionalmente à modalidade. O incremento das competições estaduais também é necessário, já que na maior parte dos centros (mesmo em grandes, como Minas Gerais) o nível técnico da disputa e o interesse por ela gerado são muito baixos. Todavia, é preciso ter em mente que a evolução é lenta. Os resultados mais significativas virão no longo prazo.

Contra a maré

Por mais antagônico que pareça, reduzir o número de equipes na divisão principal pode ser uma ação certeira, permitindo que os jogos tenham melhor nível técnico. Atualmente, o Campeonato Brasileiro conta com 20 equipes. Considerando elencos enxutos, de 20 atletas, significa pensar em 400 atletas profissionais de alto nível no país. Doce ilusão.

Lembremos: é preciso melhorar o produto. Melhores jogos atraem interesse público, de mídia e consequentemente de patrocinadores. À medida que o trabalho evolua, a ampliação passa a acontecer, abrangendo mais equipes e atletas sem, contudo, diminuir o nível do jogo e a qualidade do produto. Um bom produto é fundamental.

E os clubes de camisa?

Não podemos ignorar a força dos chamados “clubes de camisa”. São marcas fortes, de enorme influência cultural e de mídia, capazes de atrair público, imprensa e patrocinadores. A grande questão é que a presença deles no futebol feminino precisa ser uma consequência do desenvolvimento da modalidade, não uma causa. O que vejo entre ‘analistas’ e mesmo em algumas ações da CBF é uma tentativa de transferir a responsabilidade do desenvolvimento do futebol feminino para os grandes clubes do nosso futebol. E também uma crença de que eles tem superpoderes, de que bastará sua participação para que a modalidade cresça e seja um sucesso.

Esses mesmos clubes tem enormes dificuldades em gerir suas atividades no futebol masculino, mesmo com grandes receitas envolvidas, amplo espaço na mídia e apoios federais e estatais. Imaginem então eles, com todas essas imperfeições, tendo a responsabilidade de desenvolver, à contra-gosto, o futebol feminino no país?

Por isso, sugiro cautela. Que possamos aprimorar o produto ‘futebol feminino’ no Brasil e a partir daí, caso haja interesse entre as partes, unir forças com os grandes clubes. Com a lógica da pirâmide em mente e lembrando sempre que o caminho é de cima pra baixo, sem atalhos. A receita já sabemos: boa estratégia, mãos à obra e tempo.