“É só uma piada.”

Jason P. Steed é um ex-professor de inglês e, atualmente, advogado. Ele recentemente publicou uma série de tweets sobre humor e essa famosa frase que mencionei no título do post e tomei liberdade de traduzi-los (e adaptar mínimas mudanças) pois acho extremamente relevante compartilhar isso nos dias de hoje. Se quiserem ver os posts originais, cliquem aqui. Vamos lá.


A dissertação do meu PhD era sobre a função social do humor (na literatura e cinema) e vou falar um pouco sobre “é só uma piada.”

Nunca “é só uma piada.” Ninguém “tá só brincando.” O humor é um ato social que sempre cumpre uma função social.

Dizer que o humor é um ato social é dizer que ele sempre está em um contexto social; não dá pra fazer piada sozinho. O humor é uma forma de interagir e se identificar com os outros.

Ou seja, humor é uma forma de construção de identidade — quem nós somos em relação aos outros. Usamos o humor para formar grupos e para achar nossos lugares individuais dentro ou fora deles. Resumindo, fazer piada (o humor) é uma forma de assimilar ou isolar os outros.

Em outras palavras, usamos o humor para juntar— ou separar — grupos sociais. É isso que o humor faz.

Por consequência, nossa forma de fazer piada é ligado à ética — quem vamos abraçar, quem vamos excluir, e como/por quê?

Assimilar ou isolar outros funciona também não só com pessoas, mas também com ideias. Isso é muito importante.

É por isso que “piadas” racistas são ruins. Não só porque elas isolam pessoas, mas também pois elas absorvem a ideia de racismo (a ideia de separar pessoas pela raça).

Uma piada racista manda a mensagem para o grupo de dentro de que racismo é aceitável. Se você não acha aceitável, você está no grupo de fora.

Quem contou a piada racista pode até dizer que “é só uma piada” — mas essa defesa ele faz para o grupo de fora. Ele não precisa dizer isso pra quem está dentro.

É por isso que nunca “é só uma piada.” Para o grupo de dentro, não se precisa defender a piada; a ideia dela é aceita e aceitável.

Então quando pessoas fazem piadas sobre estupro ou racismo (ou inúmeros outros), elas estão pedindo para o grupo de dentro aceitar isso. É isso que piadas fazem.

A própria piada é uma forma de criar um grupo de fora e um de dentro, através dessa assimilação e isolação.

Se você aceita “é só uma piada” ou “to brincando, cara” como defesa, você está se mostrando disposto a entrar no grupo de dentro onde a ideia por trás da piada é aceitável.