Quando conheci Andrés Caicedo

Começar a escrever não é fácil, dizem. Ainda mais quando não se tem prática no assunto. As palavras querem sair, mas desejosas de verem luz acabam tropeçando umas nas outras e retornam frustradas às prisões escuras da alma. Sempre tento escrever sobre coisas que gosto, mas encontro censura forte antes mesmo de iniciar a tarefa. O medo dos erros gramaticais se junta ao receio da inutilidade das palavras. A verdade é que prefiro ler a escrever. É mais cômodo também. Alguém disse uma vez que escrever dói. E é verdade.

Dizem também que é mais fácil escrever quando o fazemos sobre algo que gostamos. Por isso decidi compartilhar minhas impressões sobre o dia em que conheci Andrés Caicedo. Sei que para a maioria esse nome passa despercebido, afinal ele ainda é muito pouco conhecido no Brasil. Mas definitivamente não trata-se de uma pessoa qualquer. Andrés é dono de uma obra literária que em pouco tempo me fez ver o mundo com outros olhos.

Antes que eu comece a descrever este personagem devo dizer como cheguei a ele. Certo dia incerto estava eu buscando dar vazão ao meu desejo de escape das coisas importantes da vida e decidi buscar refúgio naquele lugar onde todos os procrastinadores (palavra horrível essa) do universo se encontram: na internet. Infelizmente (ou felizmente) ela é um labirinto, e se perder é muito fácil para quem não sabe o que procura. Assim sendo, fui tateando no escuro até chegar não sei como à história do cinema colombiano. Na verdade, não foi tão no escuro assim. Gosto de cinema e me interessa sempre saber coisas novas sobre ele, saindo do lugar comum dos filmes de Hollywood. E nisso de pesquisar cheguei à cidade de Cali, Luis Ospina, Carlos Mayolo e claro, Andrés Caicedo.

Luis, Carlos e Andrés são figuras marcantes da vida cultural de Cali dos anos 70. Os dois primeiros são cineastas. O último, um escritor e agitador cultural que fundou cineclube, revista de cinema e escreveu contos, peças de teatro, críticas de cinema e romance até o fim da sua vida, que acabou de forma precoce por suicídio aos 25 anos de idade. De Luis a Carlos e de Carlos a Andrés foi um pulo. Todos estavam envolvidos num movimento de produção cultural que os levou à amizade (e aos links da internet nos quais os descobri).

A internet tem dessas coisas. Você começa pesquisando o programa atômico da Coréia do Norte e vai se perdendo num universo de links até chegar nas finalistas do concurso Miss Brasil 1963. Foi realmente por acaso que conheci Andrés. Mas o fiz movido por uma profunda curiosidade em saber sobre alguém que tinha feito tanta coisa em tão pouco tempo. Eu aos 25 anos nunca escrevi mais do que meia dúzia de poemas decadentes e um ou outro conto qualquer e insignificante. Aos 27, mantenho minha frase anterior com Ctrl+ C e Ctrl+ V. Depois de começar a ler suas obras, vi que é possível fazer muito quando se realmente quer.

Prazer, meu nome é Andrés Caicedo

Até então o único escritor colombiano que eu conhecia era Gabriel García Márquez, o Gabo. Mundialmente famoso e com uma obra incrível, Márquez acaba atraindo as atenções pra si e faz com que a gente esqueça que na Colômbia existem outros autores com obras interessantes. Dizem que Andrés é o anti-Gabo, um escritor que preferiu falar da realidade urbana do que da ficção rural e do universo do Realismo Fantástico das Macondos da vida e afins. Sinceramente discordo desta afirmação. Pelo que li de Andrés, ele nunca pretendeu escrever contra ninguém ou para criar um novo grupo. O que mais me encanta nele é que toda a sua obra é fruto de seu desejo autêntico de criar por criar, por expressar tudo o que continha a sua alma, sem se importar com premiações e críticas literárias. Em todo o seu trabalho existe um frescor de juventude que escreve e descreve o mundo que vê sem o uso afetado de palavras pomposas e diálogos irreais que os acadêmicos literários insistem em louvar. E mais: nele as histórias quase que se atropelam, tamanha a riqueza de ações e pensamentos de seus personagens. Quando o li pela primeira vez, senti imediatamente um grande sopro de vida bafejando, num universo criativo rico. É como se nele até os personagens secundários aspirassem ao desejo de ser protagonistas, tamanha vivacidade dos mesmos. Ninguém é tão mediocremente secundário a ponto de passar despercebido.

Seja circulando pela cidade à noite atrás de festas regadas a muita música e bebidas, seja causando confusões e brigas dentro de um cinema, seus personagens refletem um grande desejo de tomar a cidade pelas mãos, vivendo-a sem se deixar abater pelo anonimato e pelo vazio existencial que as grandes cidades acabam impondo aos seus habitantes. Vejo isso como um contraponto à timidez do autor, que embora fosse um sujeito muito ativo e alegre no convívio com os amigos, escondia um lado introspectivo típico daqueles que escrevem e criam. Percebo em alguns personagens talvez a projeção do que Andrés queria ser como pessoa em sua vida real, e que por alguns motivos não conseguia.

Infelizmente Andrés deixou o palco da vida muito cedo. Uma pena.

Outra coisa que me impressiona em sua obra é sua facilidade de transitar do humor para o mórbido sem se perder nos desafios da mudança. É sabido que Andrés era fascinado por histórias de terror, e tinha em Edgar Allan Poe um de seus referentes. Nele vida e morte se misturam sem disputar preponderância ou protagonismo, complementando-se neste espetáculo de baixa duração que é a vida humana.

Acredito que Andrés é melhor contista que romancista. Li seus Cuentos Completos com total fascinação, enquanto seu romance Viva a Música me causou apenas sorrisos tímidos. Por ter lido os contos, esperava algo mais. Mas é um bom livro. Talvez seja pelo fato de eu ter lido o primeiro em espanhol e o segundo em português. No idioma original a obra tem uma grande musicalidade, e mesmo quando não possui grandes frases há nela o emprego justo das palavras, com personagens falando aquilo que uma pessoa normal e real falaria. Talvez o português seja (como dizem) uma língua áspera que dificulta as coisas. Não consegui sentir o ritmo de Salsa que parece sempre atravessar suas histórias. Talvez seja o meu gosto maior pela velocidade de leitura dos contos do que pela lentidão dos romances, muito maiores em tamanho que os primeiros. Talvez.

Uma coisa é certa. A editora Rádio Londres está de parabéns por traduzir Andrés para o português. O fato é que essa editora sempre publica coisa boa. Sempre. E publicar Andrés não é diferente. Vejo também como algo necessário. Nós brasileiros vivemos num universo muito fechado em relação aos nossos vizinhos de continente, ignorando-os de maneira arrogante e desconhecendo que para além das nossas fronteiras tem muita coisa legal pra ler. Muita mesmo.

À venda nas melhorias livrarias (e sebos)

Por fim, faço uma revelação. Andrés de alguma maneira mudou minha vida. Depois de lê-lo passei a enxergá-la com muito mais leveza e grandeza que antes. É muito difícil não se deixar contagiar por esse vigor criativo, pela necessidade de escrever e de dizer, pela alegria e pelas músicas que sempre estão presentes em sua obra. Andrés parece dizer tudo aquilo que eu queria e não consigo. E às vezes isso sinceramente me espanta. Um dos seus principais contos, Infección, é provavelmente aquilo que mais parece representar as ideias que levo dentro de mim nesse momento. Acho que escrevi muito por hoje. Para quem começou esse texto pensando seriamente em desistir, fazê-lo é um triunfo. Faço por Andrés. Precisava falar dele.