Oi, vô.

Faz tempo que não conversamos, né? Aliás, faz tempo que não penso em você. Me desculpe por isso.

Vim aqui pra te contar como estão as coisas.

Ainda bem que o senhor não está aqui porque a chácara encontra-se irreconhecível, vô. Te causaria desgosto e uma enorme tristeza.

Desmataram muito, vô. É coisa triste de ver.

Mas se te alegra alguma coisa, o Beethoven ainda ta aqui. Acho que ele fica esperando o senhor voltar a qualquer momento (como todos nós ficamos quando olhamos pro portão esperando ver aquela sua bicicletinha vermelha parada lá na frente).

Outra coisa que eu imagino que o senhor ia gostar é que o tio Benval fez um galinheiro lá na parte de trás da sua chácara! Não queria ser eu a pessoa a te contar, mas o tio Ruy faleceu há quase dois anos, vô. Isso acabou com o tio Benval, mas ele parece melhor por agora ter com o que ocupar a cabeça.

Vô, o Ricardo também morreu. Morreu tão novinho, vô, com tanta coisa pra viver ainda… isso já tem mais tempo, acho que uns quatro pra cinco anos. Foi bem triste, acabou com a tia Rosinha, mas hoje ela parece mais conformada.

Agora pra te alegrar: o senhor tem bisnetos, vô! Sete! Dois do Nuno (uma menina e um menino), um da Lane, uma da Jô, um do Thiago e dois da Kel (uma menina e um menino também)! São todos lindos!

Queria que o senhor estivesse aqui pra conhecer a Laissa, vô. Vocês não tiveram a chance de se conhecer tão bem, mas ela herdou uma caracteristica sua: é desbocada igual o senhor! Ela é tão engraçada que na maior parte do tempo nós esquecemos que estamos conversando com uma criança de onze anos (sim, vô, onze! Ta enorme e linda!); a Liu esse ano faz dezoito (pois é, eu também não consigo acreditar ainda) e continua a mesma Liu de sempre: um doce.

E tem eu, vô. Na nossa última conversa eu disse que o senhor ainda ia me ver casar, mas nós dois sabíamos que isso era uma mentira. Uma daquelas mentiras que dizemos pra tentar confortar, mas desnecessária, uma vez que o senhor já estava em paz com o fato de que seu tempo aqui estava no fim.

Mas eu cheguei perto viu, vô. Mas não era pra ser e foi melhor assim.

Agora indo pra um lado melhor: tô na faculdade! Tô estudando pra ser dentista (quem diria, né?!), meus pais estão bem felizes com isso.

Vô, queria aproveitar pra pedir desculpas por nunca ter ido visitar seu túmulo. Não gosto de cemitérios e te sinto mais na chácara do que em qualquer outro lugar.

Na chácara sua presença é forte. Eu consigo te ouvir dando risada, consigo te ver arando a terra, consigo escutar a sua voz dizendo “me deixa falar, caralho. Me deixa falar, porra” quando te interrompiam.

Às vezes gosto de ficar deitada no quarto que era seu e ficar olhando pro seu chapéuzinho que ta pendurado intocavelmente na parede. Me traz boas lembranças. Tanto o seu chapéu quanto a sua bicicleta, na verdade.

Desde pequena quando eu via alguém com um dos dois parecidos lá em São Paulo automaticamente eu pensava no senhor. Isso não mudou.

Enfim, vô, acho que já falei demais, né? Vou levantar pra tomar café, to aqui na casa da tia Francisca.

Perdão ter demorado todos esses anos pra conversar com o senhor. Mas eu nunca te esqueci e nem vou esquecer.

O senhor tá morto pro mundo, mas sempre vivo na minha alma.

Eu te amo.

Queria ter te dito isso quando tive a chance.

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