A Edição como Parte da Intenção Fotográfica

Por Raphael Bonelli

“A fotografia tem sua própria linguagem e embora a gramática e o vocabulário dela ainda estejam crescendo e se desenvolvendo, ela ainda é uma linguagem e as fotografias são lidas conforme suas convenções.” — David DuChemin

Em seu livro “Falando Fotograficamente (Ed. Photos, 2015)”, David DuChemin discute a fotografia como uma linguagem, no sentido de que ela envolve uma mensagem (a imagem em si), um emissor (o fotógrafo) e um receptor (o observador). Como uma ferramenta de expressão, o fotógrafo espera que sua obra seja compreendida pelo observador, e para tal é necessário que o fotógrafo compreenda as convenções sob as quais o observador irá interpretar sua imagem.

Fotografar é um ato de decisão. Estas decisões são inevitáveis, sendo que única outra opção possível é deixar que as coisas aconteçam ao acaso e isto raramente renderá bons trabalhos. O mero ato do enquadramento é um ato de decisão do qual o fotógrafo sequer pode se abster, pois a limitação do quadro exige que o profissional defina quais elementos serão registrados e farão parte da mensagem e quais não. Qualquer elemento que fique fora do enquadramento deixa de existir para a mensagem.

A fotografia é um processo que deve ser movido pela intenção, pois é sobre ela que embasamos todas as decisões que devem ser tomadas durante a criação de uma imagem ou corpo de trabalho. Sem a intenção, a fotografia se torna um ato de disparar a esmo e torcer para que o destino ou o deuses da fotografia alinhem o mundo de forma que o resultado traduza-se em um sentimento que talvez sequer pretendíamos expressar.

“A forma como nos expressamos depende primeiramente de termos intenção.” — David DuChemin

No universo da fotografia digital, onde o registro da câmera depende de um processo de interpretação digital (conversão) para se tornar uma imagem, o processo de edição ou pós-produção da imagem torna-se uma parte muito importante do ato de se expressar fotograficamente. Deste modo, é igualmente importante que ele seja considerado através da intenção e das convenções de linguagem fotográfica para que a imagem se expresse da forma pretendida.

Não cometa o equívoco de imaginar que o processo de edição fotográfica só passou a fazer parte da expressão fotográfica com o advento da fotografia digital. Os grandes fotógrafos do passado dependiam de impressores experientes (ou eram eles mesmos versados no processo de revelação) para auxiliar no processo de tornar suas capturas ainda mais expressivas e alinhadas com a intenção original.

No resultado final — a imagem vista pelo observador — a edição estará presente de forma inseparável, ficando irrelevante, do ponto de vista da mensagem, qualquer tentativa de definir onde termina a captura e começa o trabalho de pós-produção.

Isto nos ajuda a entender a importância da intenção fotográfica — Por que eu registrei isto? O que eu quero dizer com esta imagem? Como esta cena me toca? Que sentimento quero transmitir para meu observador? — também na edição da imagem, de modo que o pós-processamento ajude a intensificar ou valorizar a expressão da cena, ao invés de (como já vi acontecer muitas vezes) lutar contra ela.

Bifurcações e Muitos Caminhos

Agressividade, candura, romantismo, modernidade, sazonalidade, atemporalidade — vários são os sentimentos, conceitos e mensagens que a edição fotográfica pode intensificar, suavizar ou expressar.

Agressividade, candura, muitos sentimentos podem ser amplificados ou expressados durante a edição da imagem.

A partir do ponto de partida (foto do centro) — uma imagem editada conforme os padrões técnicos corretos (falaremos disto em outro texto) — podemos decidir quais sensações iremos enfatizar ou minimizar em uma determinada imagem. Um tratamento suave, de baixo contraste e com tonalidades de cores ‘cremosas’, ajuda a ressaltar a aparência romântica e tranquila da cena (foto da esquerda), enquanto uma edição de alto contraste, escura e cores intensas, ajuda a transmitir uma sensação de agressividade, perigo e suspense.

Nenhum destes tratamentos surgem de forma espontânea e aleatória, eles estão baseados em convenções sob as quais o nosso cérebro trabalha e interpreta uma determinada cena e os sentimentos que são evocados por determinados elementos.

Quando a intenção para um determinado trabalho está clara desde o momento que antecede a captura, ela auxilia na tomada de decisões de edição de modo a enfatizar a expressão desejada, assim como o faz para o processo fotográfico.

Atentando-se a isto e praticando a intencionalidade consciente por trás de nosso trabalho fotográfico e de edição, podemos obter resultados ainda melhores, traduzindo-se em imagens com maior poder de expressão e maior capacidade de se traduzir naquilo que você deseja comunicar ao observador.

Voltaremos a este assunto e o expandiremos futuramente, em outras ocasiões, avaliando diferentes efeitos, ajustes e edições e suas possíveis interpretações e significados fotográficos.


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