A Intenção Fotográfica dita a Regra

Uma breve discussão sobre quando a Intenção fotográfica entra em desacordo com as ‘regras’ fotográficas.


As regras fotográficas oferecem um ótimo parâmetro no qual podemos nos basear durante a captura fotográfica. Na falta de diretrizes claras sobre como proceder — ou na falta de uma intenção fotográfica bem definida — elas servem como uma rede de segurança sobre a qual podemos mergulhar de olhos fechados, com garantias de um resultado aprazível.

O problema surge quando as tais ‘regras’ se contrapõem à intenção fotográfica. Em prol de atender às regras, abrimos mão de elementos e recursos que alimentam a intenção por trás da fotografia.

David DuChemin escreveu sobre isto em seu livro Falando Fotograficamente (Ed. Photos):

“Escolhemos a palavra errada. Não existem regras na arte. Não existe nenhuma na composição, exposição, foco ou qualquer outro elemento da nossa técnica. Existem princípios da boa técnica e existem muitas coisas chamadas de regras que ocasionalmente têm uma racionalidade conhecida por trás delas. Porém, assim como muitas outras coisas, estas regras se libertaram de sua amarração racional e começaram a navegar à deriva. Elas chegaram até nós, surgiram no litoral do nosso ofício através de muitos livros e revistas bem intencionados sobre fotografia e já passou da hora de pararmos de segui-las. A arte criada com base em regras é uma arte sobre regras, não sobre a paixão, beleza ou qualquer outra coisa sobre a qual os humanos vêm criando artes honestas através dos séculos”. — David DuChemin.

Ao invés de ‘regras’ fotográfica, podemos tratar estes artifícios como ferramentas fotográficas: recursos providos de significado e função que podem ser utilizados para reforçar aquilo que é mais importante na fotografia — a mensagem.

Quando a mensagem — o elemento da fotografia que existe entre o fotógrafo e o observador, ou aquilo que o fotógrafo deseja transmitir com sua fotografia — é clara, existe uma intenção poderosa por trás do ato de perceber, entender, visualizar, organizar uma cena e finalmente pressionar o disparador para fazer a foto. É a intenção que guia quais ferramentas você deve utilizar e de quais você deve abrir mão para obter o melhor resultado fotográfico.

A imagem abaixo surgiu na seguinte situação. A modelo (minha sobrinha) estava muitíssimo chateada comigo. Ela não queria ser fotografada de forma alguma e estava altamente emburrada. Obviamente, eu quis registrar isto, pois é um sentimento bastante raro nela, sempre aberta e animada.

As Fúrias — Raphael Bonelli — 2015

A imagem acima gerou a seguinte pergunta, por parte de um aluno de fotografia: “ela pode ser considerada ‘correta’, visto que a modelo não está olhando para dentro do enquadramento?”.

O modelo sempre para dentro do enquadramento é uma regra fotográfica — ops, quero dizer, é uma ferramenta fotográfica. Assume-se que o modelo deve olhar para dentro do enquadramento por diversos motivos:

  • Gera empatia entre o retratado e o observador, pois embora o modelo não esteja olhando diretamente para ele, seus olhares se cruzam, e isto cria relação (para mais sobre o assunto, recomendo o livro Poses Perfeitas — Roberto Valenzuela — Ed. iPhoto);
  • Faz com que o modelo pareça mais aberto e acessível, por motivos similares ao do item acima;
  • Devido ao sentido de leitura ocidental (esquerda para a direita), o primeiro contato do observador é com o rosto do modelo;
  • A foto fica mais agradável, pois o curso pelo qual o observador pode acompanhar o olhar do modelo — antes de ele sumir na margem do enquadramento — é maior;
  • A foto parece mais ampla, facilitando para que o observador se insira no ambiente dela, pois o espaço deixado na frente da modelo parece maior.

Todos os sentimentos acima são os desejados em muitas e muitas fotos (eu ousaria dizer em uma vasta maioria), e por isto o conceito de que o modelo deve sempre olhar para dentro do enquadramento é considerado uma ‘regra’ fotográfica. Porém, quando a intenção fotográfica exige um significado contrário ao que a regra (ferramenta) produz, utilizá-la significa abrir mão daquilo que o fotógrafo deseja expressar em prol do conforto da rede de segurança.


Quando a intenção exige um significado contrário ao que a regra (ferramenta) produz, utilizá-la significa abrir mão daquilo que o fotógrafo deseja expressar, em prol do conforto da rede de segurança.

Os sentimentos que eu precisava para a imagem eram exatamente os opostos aos oferecidos pela ferramenta “posicionar o modelo olhando para dentro do enquadramento”.

  • Gerar um sentimento de desconexão entre o observador e a modelo, descruzando os olhares;
  • Fazer a modelo parecer fechada e irascível;
  • Devido ao sentido de leitura ocidental, fazer com que o primeiro contato do observador seja com as costas da modelo, gerando a sensação de que ela está de costas para ele;
  • Tornar a foto agoniante, devido ao pouco espaço através do qual o observador pode seguir o olhar da modelo;
  • Fechar a foto, dando a impressão de que a modelo está voltada para um elemento limitador, como uma parede.

Isto significa que, colocando a ‘regra’ em maior importância em relação à intenção da imagem, eu abriria mão de todos os sentimentos, ou pelo menos minimizaria o seu impacto. Como resultado, ao invés de ter uma foto da modelo emburrada e irritada com a invasão do fotógrafo ao fotografá-la, eu teria um efeito similar ao das capas de discos de música sertaneja, com a modelo olhando pensativa para o infinito.

Fazendo carão para a capa do meu CD.

Isto Significa Ignorar os Fundamentos Fotográficos?

Muito pelo contrário, isto significa ir além deles. Porém, para ir além de algo, você precisa passar por ele. Fotografar é um ato de tomar decisões e estas decisões só podem ser tomadas com base nestes fundamentos, que em sua grande maioria estão embasados em como o cérebro humano se comporta diante de uma determinada imagem.

Por isto não trata-se de ignorar ou de viver uma espécie de anarquia fotográfica, mas sim de dominar os fundamentos, ferramentas (e as ditas ‘regras’) de modo que o fotógrafo possa determinar quando elas colaboram ou prejudicam a mensagem da imagem.

Tomando o caso da imagem citada como exemplo, seria impossível tomar a decisão de voltar a modelo para fora do enquadramento sem que se tivesse conhecimento da ferramenta que dita que “voltar o olhar do modelo para dentro do enquadramento” gera uma foto mais agradável, e os motivos pelos quais isto acontece.

Não se trata de acreditar que você pode simplesmente fotografar sem se ater às lógicas e ferramentas da fotografia — composição, iluminação, cor, expressão e etc — pois estes elementos existem à revelia de você tratá-los com intencionalidade ou não — eles estarão lá, aleatórios, e a aleatoriedade raramente produz boas fotos.

Trata-se de compreender que a mensagem que você deseja transmitir com sua fotografia pode ser reforçada ou enfraquecida de acordo com as ferramentas que você utilizar e que suas imagens só têm a crescer na medida em que você aumenta este repertório de ferramentas. Por isto, é inevitável, o estudo é fundamental e infinito.