Os perigos da projeção elitista

Pedro Guedes
Aug 14, 2017 · 5 min read

(Tradução livre do texto de Jarrett Walker, consultor da empresa Human Transit, de Portland/EUA)

Via Mangue, no Recife. Um complexo de viadutos e vias expressas de 4km que custou quase R$600 milhões, prejudicando o ecossistema de um dos maiores manguezais urbanos do mundo e por onde não passa uma só linha de ônibus. Pouco mais de um ano após sua inauguração, já encontra-se saturada pelos congestionamentos diários. Foto: Wikimedia

Projeção elitista é um termo que refere-se à crença, entre pessoas relativamente sortudas e influentes, de que as coisas que elas acham convenientes ou atraentes são boas para a sociedade como um todo. Uma vez que se aprende a observar este simples erro, você o vê em todo canto. É talvez a grande barreira que impede a prosperidade, justiça e liberdade nas cidades.

Este não é um texto de agressão contra as elites. Não faço aqui nenhuma afirmação referente à melhoria da distribuição de riquezas e oportunidades, ou sobre o direito de ninguém a ser mais influente que os outros. Porém, estou apontando um erro que as elites estão constantemente sujeitas a cometer. O erro é o de esquecer que as elites são sempre uma minoria, e que planejar uma cidade ou um sistema de transporte baseado nas preferências de uma minoria muitas vezes resulta em algo que não funciona para a maioria. Até a minoria representada pela elite não vai gostar do resultado final.

Tempos atrás, eu estava apresentando uma proposta de sistema de transporte público para o Conselho Diretor do órgão de trânsito de uma região da Califórnia, e um conselheiro — representando a cidade mais rica da região — pediu a voz, limpou a garganta e disse:

Agora, Sr. Walker. Se adotarmos este seu plano, serei obrigado a deixar minha BMW na garagem?

A resposta, claro, é “não”. Mas sugerir que esta seria uma pergunta válida para testar um planejamento de transporte público é um exemplo extremo de projeção elitista. Na condição de multi-milionário, este homem é parte de uma ínfima minoria, então não faz nenhum sentido desenhar um sistema de transporte coletivo em torno dos seus gostos e preferências pessoais. Transporte público de sucesso significa transporte de massa, e não há massa a ser alcançada quando se busca pessoas como ele como cliente. Tavez ele pudesse ser atraído por um serviço que atendesse a porta da sua casa mas que incluísse um bar com drinques e serviço de massagem, mas poucas pessoas iriam considerar isso uma boa forma de gastar seu dinheiro um pouco mais limitado. Deixemos que o setor com fins lucrativos da economia dê a ele este luxo, e que ele próprio pague pelos impactos dessa escolha.

De vez em quando, claro, investimentos que beneficiam as elites tentam justificar-se como se servissem a um bem comum. Agilizar a vida de empresários e homens de negócios, por exemplo, supostamente pode atrair mais investimentos para uma comunidade. Um plano específico de transporte pode supostamente estimular investimentos imobiliários de alto padrão, que vão contribuir bastante em forma de impostos, mesmo que você nunca vá ter dinheiro para morar ali. Não é minha intenção aqui abrir um debate sobre estas afirmações. Considerando que esses argumentos estejam corretos, mesmo assim não se trata ainda de casos de projeção elitista. A maior parte dos casos de projeção elitista, no entanto, não se dá ao trabalho de fazer essas afirmações, sendo simplesmente um hábito inconsciente de presumir que suas preferências pessoais são uma boa medida para o que todas as outras pessoas irão dar valor.

Ao desafiar a projeção elitista, eu estou sendo muito pouco razoável. Estou exigindo que as elites alcancem um padrão sobrehumano. Quase todos nós usamos como referência nossas próprias experiências quando discutimos políticas públicas. Quem não deseja que sua experiência seja reconhecida pelos outros? Mas numa sociedade onde as elites têm poderes desproporcionais, a tarefa sobrehumana de resistir à projeção elitista é parte do papel deles. E já que eu sou um dos membros desta elite — não tanto em riqueza mas certamente em acesso à educação e outras formas de privilégio — este é também às vezes o meu papel. Como todas as outras formas de tentarmos ser pessoas melhores, é um trabalho bastante cansativo e nunca vamos conseguir fazê-lo de forma perfeita. Isto significa que as críticas à projeção elitista não devem tornar-se um tipo de raiva. Elas devem ser empáticas e misericordiosas.

Ainda assim, a projeção elitista é talvez a principal barreira para as cidades eficientes, justas e libertadoras. As cidades têm este aspecto especial: elas só funcionam para todo mundo se funcionarem para quase todo mundo. Podemos também afirmar isso em relação à sociedade como um todo, mas apenas nas cidades é que esse fato é tão óbvio ao ponto de ser inevitável.

Os congestionamentos, nosso exemplo mais óbvio, são o resultado da escolha de todos como resposta à situação de todos. Mesmo as elites estão presas nele. Nenhuma solução satisfatória foi encontrada para proteger as elites desse problema, e não é por falta de tentativas. A única solução real para os engarrafamentos é uma solução que sirva para todos, e para encontrá-la você precisa observar o problema da perspectiva de todos, não apenas do ponto de vista dos privilegiados.

A depreciação da imagem dos sistemas de ônibus urbanos atual tem a projeção elitista como sua base fundadora. Ônibus grandes com itinerários pré-definidos são a única forma de transporte urbano que pode ser rapidamente escalada para a área de uma cidade inteira ao mesmo tempo que se utiliza um espaço existente escasso com extrema eficiência. Ainda assim, muitas elites urbanas presumem (sutilmente ou descaradamente) que o sistema de ônibus não interessa porque não é do seu interesse pessoal.

Durante meus 25 anos de carreira eu tive a oportunidade de ver um sem-número de líderes urbanos de elite — a maioria deles muito bem-intecionados — buscar exaustivamente uma ideia de modo de transporte que os permitisse deixar os ônibus de lado. Um exemplo nos EUA foi a moda dos bondinhos presos no trânsito, “ferramentas de revitalização” que muitas vezes não tinham nenhuma utilidade prática de transporte. Temos também as adoráveis barcas com pequenos mercados dentro, e os super especializados trens de aeroporto. Agora, os mesmos erros alimentam a infinita quantidade de promessas vagas da revolução tecnológica do transporte, especialmente a noção matematicamente absurda de que um transporte que venha à sua porta quando você o chame vai conseguir atender toda a população de uma cidade com eficiência. (Muitos especialistas sérios já estão abandonando estas afirmações, mas ela ainda existe como discurso, minando o apoio das pessoas por um sistema de transporte que de fato funcione).

Nenhuma dessas ideias fez nenhum sentido geométrico como forma de liberação da população de uma cidade densa, mas eram ideias que apelavam para os gostos da elite, chamavam atenção da opinião pública, e consequentemente ajudaram a reduzir os investimentos nos sistemas de transporte que a população acharia de fato úteis e libertadores. Esta negação e abandono causou uma deterioração nos sistemas de transporte, reduzindo a eficiência dos sistemas de forma que acabou justificando a própria negação e abandono.

Mais uma vez: não podemos desafiar a projeção elitista dos outros até que nós a perdoemos em nós mesmos. Quase todo mundo lendo este texto é parte de algum tipo de elite, e quanto mais poder você tiver, mais urgente é que você se perdoe e comece a agir diferente. Devemos todos nos perguntar: “Essa ideia funcionaria para mim se eu tivesse na situação típica de um cidadão comum ao invés da minha vida privilegiada?”. Porque se a resposta for “não”, a ideia não vai funcionar para a cidade, e no fim das contas significa que não vai funcionar nem para você.

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