Representar os evangélicos no Congresso é fácil, difícil é representar Jesus

Mediante a sessão de Impeachment no dia 17 de abril de 2016, nos discursos dos deputados a justificativa religiosa foi muito pautada. Muitos usaram da representação dos evangélicos para justificar a luta contra a corrupção. Chegaram até citar denominações, provavelmente o qual eles fazem parte, e devem usá-las como curral eleitoral.

Em seus discursos constavam o combate à corrupção. Lembro-me de um dos deputados alegarem que pediu a sabedoria de Deus, e que foi orientado a votar a favor do Impeachment. Quando se atrela isso ao posicionamento de Deus, como se Deus chancelasse tal decisão, parte o pressuposto que Deus está ciente da situação e que aprova o Impeachment. A questão que fica é que como o discurso é contra a corrupção, e se vale fazer uma legenda dicotômica de quem é a favor do Impeachment e quem é contra, atrelando que o Partido dos Trabalhadores é a causa da corrupção, alegação feita várias vezes, imagina-se que quem está ao lado destes deputados religiosos são isentos de qualquer acusação de corrupção. O que não é verdade.

Inclusive o Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que pertence a Bancada Evangélica, e que também está envolvido em escândalos de corrupção, o qual é réu do STF, também fez um discurso religioso para pautar a sua decisão. Ao que me parece, olhando com uma perspectiva de fora do cristianismo, este deus que eles servem é caolho, pois só consegue ver um lado dos problemas. Como se a corrupção estivesse apenas do lado oposto.

Isto reforça quando se analisa que grande parte desta Bancada Evangélica, há alguns anos atrás eram aliados ao PT. E agora eles alegam que o PT representa a vontade de satanás, e até o chamam de “Partido das Trevas”. Será que o deus deles não revelou que o partido era maligno quando eram aliados? Pelo que eu saiba, muitos casos de corrupção do PT remetem a essa época, será que não tinham ciência disto?

Ultimamente tenho lido muito o livro “Anarquia Cristã” de Vernard Eller. Ele tem um posicionamento muito interessante a respeito de tudo isso, e gostaria de tentar contextualizar o pensamento dele, se for possível:

“Primeiramente, o exercício das políticas mundanas repousa sobre uma infundada confiança na competência moral dos seres humanos — mais particularmente, sobre o erro extremamente arrogante de atribuir superioridade moral categórica a partidários de uma “verdadeira” ideologia sobre aqueles de qualquer outra. Essa orgulhosa reivindicação estende-se não apenas à sabedoria moral (“Nós sabemos o que é certo e ninguém mais sabe”) mas também à autoridade moral (“Por conta de estarmos certos, isso justifica nosso uso da propaganda, manifestações, boicotes e todas as táticas de poder ao impor nosso ‘direito’ sobre aquelas pessoas que sabemos estarem erradas”). Políticas mundanas são alicerçadas sobre pretensiosas reivindicações de superioridade moral — das quais o evangelho cristão não reconhece nenhuma.
Em segundo lugar, uma característica primária das políticas mundanas é a sua invariável formação de uma “batalha contraditória”. Deve haver uma batalha. Um partido, ideologia, grupo de causa, lobby, ou bloco de poder que se auto-designa como “O Bem, a Verdade e a Beleza”, prepara-se para dominar, oprimir, vencer, ou impor-se sobre quaisquer grupos opostos que pensam que eles não merecem tal título. Se essa disputa de poder entre os moralmente pretensiosos é o que se entende por “política”, então Eller e companhia estão de fato felizes de serem chamados de “apolíticos”.”

Isto expressa bem a conjuntura atual do nosso país. Ao se posicionar contra a corrupção, se nomearem como emissários de Deus para se fazer justiça na terra, mas ao dependerem de coligar com grupos que também são corruptos, mostra a ineficiência do homem em fazer política, e o quanto que mais ele se compromete com legendas, mas toma uma postura anti-cristã.

E o discurso da família Bolsonaro expõe bastante isso, ousam falar em nome de Deus, inclusive pertencem ao Partido Social Cristão, porém fazem apologia a regimes genocidas, e apoiam atos como torturas, perseguições, exílios, e morte. Seria possível Jesus solicitar a um de seus seguidores que apoiem tais atos? No discurso ele homenageia o comandante Ustra, indivíduo que foi responsável pela tortura da Dilma. Será que Deus se agradaria de tal ato?

Na lógica se a proposta é apresentar uma dicotomia entre as posições, onde há um polo mal e o outro bom, supõe que o lado em que ficar o político religioso, seria o polo bom. Então vemos estes políticos apoiando candidatos envolvidos em corrupção, ou pior, estes políticos religiosos sendo os envolvidos, então compreendemos que é impossível fazer tal dicotomia, entre governo bom e governo mal.

Eller conclui esta parte de forma fenomenal, a ponto que ele expõe qual deveria de fato ser o posicionamento de um discípulo de Cristo. Então percebemos que os deputados religiosos estão totalmente equivocados:

“Entretanto, alegamos que há outra forma de política — outra forma de ação afetando a polis — que o evangelho pode aprovar totalmente. Dessa forma, ao invés de um partido mundano se auto proclamar como juiz moral sobre todos os outros, a nossa ação política deveria ser a submissão ao julgamento moral de Deus sobre tudo e todos humanos (o julgamento, isso é claro, cai primeiramente sobre os partidários de Deus). Mais do que escolher lados, essa política deveria ser criticamente não-partidária de toda batalha e de jogos de poder. Deveria ser uma intenção política de meditação e reconciliação de adversários, ao invés de apoiar o triunfo de uns sobre os outros. Deveria ser uma teologia política de libertação com o intuito de libertar a humanidade de nada mais do que sua escravização por parte da política mundana.”

Segundo Eller, o cristão não deveria aumentar as barreiras, apresentando uma proposta dicotômica, demonizando um lado, e divinizando o outro. Como se este lado bom, fosse o emissário de Deus para corrigir a sociedade. A proposta cristã deveria ser pautar a justiça, independente de lados, ressaltar a Graça, visando a reconciliação dos lados e estudando as propostas de ambos, e apoiando o que fosse benéfico para a sociedade. Mas sabemos que o discurso de “nós contra eles” rendem muitos votos. É por isso que ícones políticos como Jean Wyllys e Jair Bolsonaro, são praticamente dependentes um do outro, esta polarização faz com que nichos da sociedade apoiem um conforme ele se opõe ao pensamento do outro. Infelizmente isso faz com que ambos permaneçam no poder.

Agora vem um questionamento que inclusive já fiz aqui. Porque os deputados religiosos estão focados na mera moralidade, visando apenas regular o sexo alheio. Falta posicionamento deles quanto a propostas de fato relevantes para a sociedade, que possam ver tais propostas e encarar como um avanço da sociedade, e como diz a Palavra que devemos ser luz do mundo. A verdade é que não vejo estes deputados religiosos iluminando nada.

Ou autor, que inclusive inspirou muito o primeiro, é Jacques Ellul. Ellul tem um posicionamento até mais radical que Eller quanto o papel político do Cristão. Em seu livro “Anarquia e Cristianismo”, o autor critica o apoio das instituições religiosas apoiando grupos específicos do governo:

“Tem se desenvolvido uma espécie de corpo que praticamente todos os grupos cristãos aceitam, mas que não tem nada em comum com a mensagem bíblica, seja na Bíblia Hebraica, que chamamos de Antigo Testamento, ou nos evangelhos e epístolas do Novo Testamento. Todas as igrejas respeitam escrupulosamente e oferecem suporte à autoridade do Estado. Elas transformaram o conformismo em uma grande virtude. Elas toleraram injustiças sociais e a exploração de pessoas umas pelas outras, declarando que é vontade divina que alguns sejam senhores e outros servos, e que sucesso sócio-econômico é um sinal externo de bênçãos divinas. Elas inclusive transformaram uma Palavra de liberdade e libertação em moralidade, o mais espantoso aqui é que não pode existir uma moral cristã se realmente seguirmos o pensamento evangelizador. O fato é que é muito mais fácil julgar erros de acordo com uma moral estabelecida do que enxergar as pessoas como um todo vivo e entender porque elas agem como agem. Finalmente, as igrejas instituíram um clero equipado com conhecimento e poder, embora isso seja contrário ao pensamento evangelizador, como foi inicialmente realizado quando os clérigos eram chamados de ministros, o ministério sendo serviço e o ministro um servo dos demais.”

Ontem vimos deputados citando as denominações aos quais eles estavam representando. Mas será que o papel dele seria representar uma instituição, e não o povo em si? E isto nos leva a questionar quais os interesses da instituição ter alguns deputados lá?

Ellul aborda de forma exortativa que a interferência da religião cristã na política está totalmente associada com o emparelhamento clerical, formando uma casta religiosa e atrapalhando o aspecto evangelizador do cristianismo.

Segundo o autor, este apoio político-religioso, acaba dando precedentes para o conformismo, salvo quando a oposição segue os interesses dos poderosos, e principalmente que toleram injustiças sociais, em nome de sua legenda. Além de que pautam a moralidade religiosa como bandeira. Sendo que o Evangelho é o contrário. Jesus criticava os fundamentalistas religiosos que só pautavam a moralidade, e ensinou o dever de lutarmos por justiças sociais. Ou seja, o exercício destes religiosos está todo controverso ao que foi ensinado por Cristo.

O engraçado é que autor expressa um ponto de vista muito interessante deste apoio religioso a grupos políticos, o quanto eles são maleáveis, e seguem interesses que não são de Deus, mas se respaldam na “vontade de Deus” para se justificarem:

“É sobre o conluio com o Estado. Desde os dias de Constantino (e durante muitos anos importantes historiadores duvidaram da sinceridade dessa conversão, vendo na mesma um ato puramente político) o Estado tem supostamente sido cristão.26 A igreja recebeu uma grande ajuda em troca. Assim, o Estado tem auxiliado a forçar pessoas a se tornarem “cristãs”. Foram dados importantes subsídios. Locais de culto foram salvaguardados. Privilégios foram garantidos ao clero. Entretanto, a igreja também teve que permitir que imperadores interferissem em sua teologia, às vezes decidir o que seria doutrina verdadeira, convocar concílios, supervisionar a nomeação de bispos, etc. A igreja também teve que apoiar o Estado. A aliança entre trono e altar não vem da Reforma mas do século V. Tentativas foram feitas para se separar os dois poderes, o temporal e o espiritual, mas estes foram confundidos constantemente. Como eu citei anteriormente, o papa se tornou o papa interno, o imperador o externo. As muitas cerimônias (coroações, te déums), tinham em seu íntimo a idéia de que a igreja deveria servir ao Estado, ao poder político, e garantir a submissão do povo a isso. De sua maneira cínica, Napoleão disse que o clero controla o povo, os bispos o clero, e ele próprio os bispos. Ninguém mais poderia mostrar de maneira mais clara a situação real de que a igreja era um agente de propaganda do Estado. Obediência às autoridades era também um dever cristão. O rei era designado divinamente (embora tenha surgido uma dissidência sobre como confirmar isso), e dali em diante desobedecer o rei era desobedecer a Deus. Mas não podemos generalizar. Estou apontando aqui o que é ensino oficial, aquele do alto clero e da política da igreja (tanto entre ortodoxos como luteranos). Na base, entretanto, entre o baixo clero, a posição era muito menos certa. No que diz respeito ao período que eu conheço melhor, nos séculos XIV e XV, na maioria das revoltas camponesas o clero marchou com seus paroquianos como revolucionários e freqüentemente encabeçava os levantes. Entretanto, o normal era se tornar um massacre.
Devemos nos perguntar se as coisas tornaram-se diferentes sob sistemas democráticos. Muito menos do que possamos imaginar! O pensamento central ainda é de que o poder vem de Deus. Conseqüentemente o Estado democrático também é de Deus. O estranho é que isso era uma idéia antiga. Desde o século IX alguns teólogos estabeleceram que todo poder vem de Deus através do povo. Francamente, entretanto, isso não levou diretamente à democracia. Em democracias “cristãs” encontramos uma aliança similar à já descrita, exceto pelo que a igreja agora tem menos vantagens. Em democracias laicas há uma teórica separação completa, mas esse não é o caso. A igreja tem demonstrado muita incerteza teológica nessa área. Na França, a igreja foi monarquista com os reis, imperialista com Napoleão e republicana com a República (com alguma hesitação por parte dos católicos romanos, mas não dos protestantes). O melhor exemplo é que a igreja, onde pode, se tornou marxista em territórios comunistas.
Sim, de fato, na Hungria e Tchecoslováquia, as igrejas reformadas tornaram-se abertamente comunistas com Hromadka e Bereczki. E na URSS não podemos esquecer que durante a guerra, em 1941, Stalin pediu apoio à Igreja Ortodoxa (através de empréstimos, por exemplo), e a igreja estava feliz em fazê-lo. A Igreja Ortodoxa, então, é uma apoiadora do regime. A Igreja Católica Romana é menos complacente, mas não devemos esquecer que com Hitler, se não ajudaram diretamente o regime, o apoiou na Alemanha. O papa fez até mesmo um acordo com Hitler. O caso é que não importa a forma de governo; nos altos escalões, e em suas diretivas, a igreja sempre está do lado do Estado.
Na esfera comunista, também nos lembramos de um país latino-americano como a Nicarágua, onde o comunismo se instalou graças a Igreja Católica Romana e a teologia da libertação. O único exemplo claro de oposição é o já conhecido da Polônia.
Ao mesmo tempo que as igrejas de adaptaram às formas de governo, elas também adotaram as ideologias correspondentes. É interessante destacarmos a igreja no ocidente que pregou uma cristandade universal cobrindo toda a Europa, transcendendo diferenças nacionais, ao mesmo tempo que o Império era (ou pretendia ser) universal. Com a divisão do ocidente em nações, a igreja também se tornou nacional. Joana d’Arc foi certamente uma cristã nacionalista pioneira. A partir do século XVI as guerras se tornaram nacionais, e a igreja sempre apoio seu próprio estado. Isso levou ao Gott mit uns que é um objeto de desprezo para os céticos e de escândalo para os crentes. Quando duas nações vão à guerra, cada uma tem certeza de que Deus está ao seu lado em uma incrível distorção do pensamento bíblico, embora estejam lutando a batalha alegórica do Apocalipse e o inimigo político seja Satã.”

Ao ler o texto fica totalmente compreensível como o PSC antes era da base do PT, e hoje é um de seus maiores opositores. Isto mostra também que há uns anos atrás os líderes religiosos ensinavam em suas igrejas que a autoridade é estabelecida por Deus, e que não devíamos questioná-las, cabia a nós apenas orar por elas. E já hoje, quando conveniente, eles incitam vigílias para orar pelo fim do governo, usando pautas do combate à corrupção, mas fazendo vista grossa que o governo que irá assumir é até mais corrupto.

De forma alguma eu diria que os cristãos não devem se envolver com política. Tenho o meu posicionamento como anarquista, não acredito na legitimidade da eleição que colocou a Dilma no poder, da mesma forma que não acredito na legitimidade da representação dos deputados que iniciaram com o impedimento dela exercer a função. Mas creio que a participação do cristão na política deva ser diferente da que ocorre nestes dois milênios de cristianismo. O cristão deve participar mais em ações para se manifestar a Graça de Deus na terra, e isto inclui a justiça, do que propriamente tomar posicionamentos conforme interesses de legendas aliadas, para atender caprichos de financiadores de campanhas que estão por trás do jogo.

Artigo postado no Fé Libertária.