Desculpe o transtorno, preciso falar da Dicinha

Conheci ela na quebradeira. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar uma família grega quebrando pratos numa festa esfumaçada de Mykonos. Mas a quebradeira em questão era aquela dança baiana que todas as garotas faziam nos anos 1990 – onde quebrava-se tudo menos pratos. Ela quebrava. A prima Mariazinha quebrava. Eu não quebrava mas ela me fez entrar na roda pra sambar. Ela estava lá. Dançando. Levantando as mãos. Em cima e em baixo pra chamar atenção. Nunca vou me esquecer: a música era Quebradeira, do É o Tchan.

Quando as meninas pegavam no compasso, ela pegava no bumbum. Quando iam pro joelhinho, ela tava na cabeça. Quando era a vez de segurar o tchan, ela amarrava. Os olhos, sempre sacanas, deixavam claro que ela não fazia ideia do que estava fazendo. Foi paixão à primeira virada de pescoço. Só pra mim, acho.

Passamos algumas madrugadas conversando no ICQ ao som de Cia do Pagode e Terra Samba. De lá, migramos pro MSN. Do MSN pro Orkut, do Orkut pro inbox, do inbox pro SMS.

Começamos a namorar quando ela tinha 20 e eu 23, mas parecia que a vida começava ali. Vimos todo o concurso da nova loira do Tchan. Fizemos todas as receitas existentes de acarajé.

Queimamos algumas panelas de comida porque a swinguera não parava. Escolhemos móveis sem pesquisar se eles passavam por debaixo da cordinha. Escrevemos juntos músicas, refrões de duplo sentido. Fizemos uma dúzia de amigos novos e junto com eles o Entorta os Fundos, grupo de dança que rebolava muito. Fizemos mais de 50 coreografias só nós dois — acabei de contar. Sofremos com os haters de Carla Perez, rimos com os shippers de Scheila Melo e Alexandre Pires. Viajamos o Havaí, o Egito, o Japão, o Brasil e a Selva dividindo o fone de ouvido. Das dez músicas que mais gosto, sete foi ela que me mostrou. As outras três foi o Tonho Matéria quem compôs. Aprendi o que era tcheca e também o que era tchutchu, tchaco, habib, pareô, saruniê outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve a sorte de ter mandado o cavaco chorar com ela.

Um dia, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais que no final de "Acabou". Mais que no começo de "Mal Acostumado". Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não segure o tchan e em algum momento, pergunte: cadê ela pra amarrar? Parece que, pra sempre, ela vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse esperado nove meses pra depois ver o resultado, eu penso. Levaria pra sempre ela comigo.

Essa semana, pela primeira vez, ouvi a música que a gente fez juntos — não por acaso uma história de amor. Achei que fosse quebrar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido swingado na vida. E de ter essa pegada documentada numa música — e em tantos refrões, coreografias e frases de duplo sentido. Não falta nada.