Lágrimas presas, peito ardendo, coração gritando. Tudo fora do lugar, na casa ou na alma. A cabeça já nem pensava, quando de repente o sorriso embriagado dela surgiu, e a voz, atropelada, dizendo coisas tão provocantes... Ela me tentava de todas as formas possíveis, pois tinha certeza de que eu era o abismo mais inofensivo, e não iria atacar contra sua vontade. Acredito que eu a transmitia um misto de segurança, conforto, desejo, e sei lá. Ela mexia comigo de uma forma que nunca saberei explicar. Chorou em meu colo, falou coisas que pareciam sem sentido, pediu abraço, sorriu, nos beijamos, nos tocamos, conversamos entre olhares no escuro, seguramos o gemido... tudo isso em menos de uma hora. E é disso que eu falo, sempre nos completamos e nos entendemos como ninguém. Todos diziam que eu tinha algo com ela... Eu tinha mesmo! Mas ela não sabia. Eu namorava o cabelo dela, a maneira que ela o jogava para o lado ou a maneira como ela o prendia num coque alto... Eu namorava o sorriso dela, a falta de paciência comigo, a revirada dos olhos, o jeito hamster de ser... Eu namorava a risada dela... Eu namorava cada curva daquele corpo branco, que em flashs surge em minha mente, traços em luz de lanterna, num ritmo que guiavam minhas mãos na parede da sala daquele apartamento branco... Eu namorava aqueles beijos, quentes, cheios de sabor, vezes vinho, vezes cachaça, vezes cigarro, vezes gelo com maçã na barriga, vezes puro amor... Eu namorava aquele arrepio que eu sentia na madrugada em que o noturno tocava e nossos corpos se encostavam ou dançavam juntos... Eu namorava até mesmo todas as vezes que dormimos juntas e nem se quer falamos boa noite uma para a outra. Eu sabia que as lágrimas não demorariam a descer. Aquela garota é puro amor. E eu estou me sentindo uma personagem, de filme ou de livro, com uma paixão secreta, guardada... E percebida fora do tempo devido. Sempre soube que não havia nada normal em mim... Não seria dessa vez. E eu gostava daquilo. Achava atraente, perigoso até, misterioso. Talvez agora esteja estranhando tanto a casa nova, aqui eu sei que ela não vai chegar, com aquele cheiro de pele dela, e invadir, sorrindo, como quem não quer nada, mas no fundo querendo, ou não querendo, nunca sei. Aqui é vazio de novo, como o apartamento branco era antes dela chegar... Aqui é monótono. Mas, tem a minha cara. Aqui toca rock clássico durante todas as horas que estou presente. Comprei um saco preto de box para pendurar na sala, e poder machucar as mãos e os pés com socos e chutes nos momentos onde nada faz sentido... Garrafas de cerveja pela cozinha... E um coração dilacerado. Como diria aquela frase: eu te senti, eu te vivi. Me desculpa por ter sido abismo onde eu poderia ter sido algo mais normal.

— Marina Bessa.


(Um dos textos mais lindos que recebi, pois pude voltar a sentir cada instante daqueles nossos dias… Obrigada!)