Amor próprio não acontece à primeira vista

Eu não tinha um lugar pra escrever (até hoje) porque eu sou insegura pra caramba. E não só quanto ao que eu escrevo, mas quanto à minha aparência, meus objetivos de vida, minhas capacidades. Eu passo 85% do meu tempo pensando que eu não vou conseguir fazer o que eu quero. Claro que parte disso se deve a uma somatória de situações na vida que me fizeram assim, mas, outra parte, em especial a que se relaciona à minha aparência, é menos pessoal e afeta um monte de outras mulheres.

Digo isso considerando que nós crescemos em uma sociedade que inspira a competição entre garotas e que cria um monte de padrões de beleza que tentamos, muitas vezes sem sucesso, seguir. É claro que a insegurança ser tão comum entre nós é uma consequência disso. É normal. Mas, nesses tempos em que (ainda bem!) o discurso feminista anda se propagando nas redes sociais, a gente já sabe que esse tipo de insegurança não devia ocupar tanto espaço em nossas vidas.

Parece quase fácil falar que devemos amar nossos corpos (e devemos mesmo) e respeitar nossos limites, mas na prática é tudo muito mais complicado.

Não existe uma fórmula mágica pra aprender a se amar. Amor próprio não acontece à primeira vista, não se concretiza de um dia pro outro. Trata-se de um processo meio árduo e, por vezes, demorado, mas, ainda assim, inegavelmente necessário.

Amor próprio é necessário porque a gente aceita cada coisa por conta de não nos amarmos e respeitarmos o suficiente. A gente aceita emprego lixo, a gente aceita relacionamento ruim, a gente aceita ciúme, dominação, a gente aceita se submeter a dietas medonhas e a gente aceita que acreditar em si mesmo é arrogância.

O problema é que medimos nosso valor com base no que os outros sentem sobre nós. Quando meu ex terminou comigo eu achei que eu era um lixo porque o cara que eu gostava não queria mais estar comigo. E, antes disso, durante nosso relacionamento, eu me sentia um lixo e me questionava porquê ele estava comigo. Viu, que problema? Se eu não me amava, como é que eu poderia amar direito outra pessoa? E, se eu não me amava, como esperava que o amor dele fosse preencher a lacuna que cabia ao meu amor próprio ocupar?

Demorou muito pra eu perceber isso e mais ainda pra aprender como fazer pra me amar. Mas naquela hora eu não tinha muita opção. Eu estava sozinha então ou aprendia a lidar com minha própria companhia ou eu aprendia. Passei umas semanas sem sair de casa, vendo filmes antigos, dando uma choradinha, dormindo mais do que devia. Mas, nesse processo meio tristonho, eu me reconectei comigo — os filmes antigos eram minhas animações prediletas, coisa que eu não revia há uns bons anos. Passei a ler mais também, cozinhar, enfim, fazer um monte de coisas que eu tinha deixado de fazer e que, em outro momento, foram importantes pra mim.

Quando dei por mim, eu gostava de estar sozinha. Gostava de ter minha felicidade apenas nas minhas mãos. Gostava de não depender de outra pessoa. Foi assim que meu amor por mim despertou. Meio tímido, mas forte, forte o suficiente pra fazer com que eu não aceitasse qualquer pessoa apenas por medo de estar sozinha ou carência.

Passei quase um ano solteira. E eu fui feliz em quase todo ele. Conheci um monte de gente nova, criei novos hábitos, me dediquei mais ainda à minha vida profissional. Tenho certeza que minha felicidade começou naqueles dias em que passei sozinha revendo Toy Story. Eu nem percebi mas estava aprendendo a apreciar minha solidão. Ficar sozinha é importante. Ficar sozinha é bom. E, às vezes, a gente tem que passar por umas coisas meio ruins e umas fases meio bads pra se dar conta disso. Mas, quer saber? Vale a pena.

Hoje eu sei que ainda tenho muito pra aprender sobre amor próprio. Afinal, eu ainda não me amo o suficiente pra ter certeza de que vou publicar esse texto ou pra desistir da minha dieta que inventei do nada sem acompanhamento profissional. Eu ainda não me amo o suficiente pra olhar no espelho sem procurar por defeitos no meu corpo. Mas tenho aprendido a amar várias coisas sobre mim, dentre elas a minha capacidade de falar sobre o que sinto, e eu acho que tô no caminho certo.