Sobre sobremesas e relacionamentos

A casa dos meus pais fica bem movimentada aos domingos. Todo mundo fazendo uma tarefa ou outra. Uma dessas manhãs, eu me encontrava regando as plantas da minha mãe, quando ela me pergunta o que gostaríamos de sobremesa.

Cheesecake de framboesa.

Cheesecake é sempre a resposta. Não importa a pergunta

Ela topou. E eu fiquei animado pensando que depois de ajudar com uma arrumaçãozinha aqui e alí, seria muito bem recompensado com a minha sobremesa favorita.

Eu preciso deixar uma coisa bem clara: minha mãe deixa muito MasterChef no chinelo. Se a sua existência na Terra ainda não foi agraciada com uma torta da Dona Sil, compare a minha animação com uma criança de 5 anos indo comprar Kinder Ovo.

Ao voltar do mercado, fui ajudá-la com as sacolas:

“Pe, não tinha geleia de framboesa. Comprei um sorvetinho mesmo, tá?”

Tá.

Veja bem: eu saí de uma situação com zero sorvete para outra com um pote de um litro de Tablito (que, convenhamos, não é nenhum Diamante Negro, mas dá pro gasto). Qualquer pessoa sem sorvete que ganha sorvete fica feliz, certo?

Não eu. Eu havia me apegado à natimorta torta de framboesa.

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No começo do ano, eu ganhei um bolo. Era perto do meu aniversário, e todo mundo sabe que não tem como errar me presenteando comida. O bolo era de chocolate com sorvete e uma camada externa de chantilly. Era uma montanha branca de açúcar que eu devorei em dois dias.

O excesso de chantilly, açúcar e sorvete no meu sistema, obviamente, não fez muito bem. Ao ponto que eu decidi começar um desafio: 90 dias sem doces. Achei que seria interessante observar pra onde eu ia correr quando as coisas ficassem estressantes no trabalho, caso o brownie do café ao lado não fosse mais uma opção.

Não vou mentir, nas duas primeiras semanas, eu passei vontade — muita vontade. Teve até um fim de semana lá pelo segundo mês que minha mãe, recebendo uns amigos em casa, fez a bendita torta de framboesa. Eu achava que já tinha adquirido uma certa “resistência”, mas me peguei com a cara em cima da torta “só pra sentir o cheirinho”.

No entanto, ao final dos três meses, eu não corri para comer doce nenhum. No domingo seguinte, teve torta e eu comi um pedaço. Saboreei e tava satisfeito. Parecia desfeita, comer só um terço do que eu estava acostumado, e eu tive que jurar pra minha mãe que o cheesecake estava delicioso — eu só estava satisfeito.

Eu tinha aprendido a não precisar de uma sobremesa no final de cada refeição. Me sentia como se tivesse “superado” o açúcar. Eu era melhor que isso agora.

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No último ano, eu não entrei em relacionamento algum. Assim como o bolo coberto de chantilly, o último me deixou enjoado.

Eu não decidi conscientemente passar um ano longe de relacionamentos como eu decidi com doces, mas o resultado foi o mesmo. Eu comecei a sentir que era melhor que aquilo.

Perceber que eu não precisava, de forma alguma, de outra pessoa para garantir minha felicidade foi libertador. E sendo sincero, eu gostava do sentimento de superioridade que o status de desapegado proporcionava.

Talvez, uma das razões por eu me manter afastado era a sensação de força que esse desligamento me trazia. Ver casais tristes após uma briga ou amigos decepcionados quando um casinho não saiu conforme o planejado eram provas da minha teoria. Que, ao entregar o poder de interferir nos seus sentimentos a outros, você fica vulnerável e, por consequência, fraco.

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Ontem, voltei de uma aula e precisei pegar algumas coisas no trabalho. Como tinha um tempinho pra matar, fui ao café vizinho. Pedi um brownie com sorvete e chantilly em cima. E tava ótimo.

Acho que tem sim uma lição importante ao aprender a viver sem alguma coisa. Ao me abster, provo a mim mesmo que tenho o controle.

No entanto, eu não abri mão do meu recém ganho empoderamento por causa do brownie. E ainda ganhei uma sobremesa deliciosa. Caiu a ficha que a força adquirida ao me desapegar dos doces não era diminuída pelo meu apreço aos mesmos.

Tenho uma nova teoria: relacionamentos são que nem sobremesas.