Terça-feira em casa

Acordou preguiçosa. Virou-se ainda deitada, esticando-se completamente, quase tocando a cabeceira. Ele não estava lá. Era uma manhã abafada e quente e ela estava morta de sede. Ainda ponderava entre água ou travesseiro quando notou os pijamas dele. O vagabundo sai sem nem falar tchau e deixa os pijamas largados na cama. Assim, de qualquer jeito. A vontade era de se deitar em cima deles para que ficassem ainda mais amassados. Ele tinha que aprender de um jeito ou de outro.

Espreguiçou-se mais uma vez saindo da cama e foi matar a sede. Como sempre, a cozinha, pela manhã, era um caos. Ele insistia em fazer aqueles ovos fedidos todo dia e saia atrasado pro trabalho. Sem tempo de lavar a louça, ele dizia. Teria tempo se não cozinhasse aquela porcaria. Pelo menos, hoje, deixou a frigideira dentro da pia com água.

Não tinha nada pra fazer naquela terça, então, depois de comer subiu as escadas e foi até a varanda. De lá, tinha como ver as casas dos dois vizinhos. Uma mais irritante que a outra. À esquerda havia uma construção com pedreiros barulhentos operando máquinas barulhentas. Quem dera fossem só eles, mas não, a coisa sempre piora. A família que morava à direita tinha um recém-nascido. A graça que as pessoas viam em bebês lhe fugia à compreensão.

Ia matá-lo quando voltasse. Ninguém merecia ficar sozinha desse jeito. Deitou-se em cima dos pijamas dele. Próxima vez que ele descer as escadas, não vai ser de pé, pensou enquanto se ajeitava. Simplesmente não era justo, em um dia quente como aquela terça-feira, ficar dentro de casa.

As vezes, o universo nos faz escolher entre dois cenários péssimos. Janela fechada, calor insuportável. Janela aberta, bebê chorando como se estivesse dentro de casa. Ah! Se ao menos estivesse, também não desceria as escadas de pé. Uma hora ou outra, alguém enfiaria uma teta na cara dele e ele pararia.

Na próxima casa que morassem, faria questão de escolhê-la pelos vizinhos. Nada de construções, bebês e muito menos cachorros. Argh. Cachorros. São como bebês que nunca crescem. Barulhentos por toda vida. Ele não vai chegar nunca? Já estava na hora.

Às dezesseis, ele chegou em casa apertado e correu pro banheiro. Sem falar oi. É bom ele começar a prestar melhor atenção aos degraus. Quando saiu, com os cabelos ainda molhados, despencou na cama. Ela aninhou-se ao lado, cabeça encostada em seu peito. Talvez o jogasse da escada amanhã, hoje ficaria um pouco deitada com ele.

Depois de um dia quente e estressante, o único remédio era dormir. Desligar e ligar de novo, assim como um computador. Acordaria para jantar e trabalhar mais um pouco, pensou. Colocou um alarme para dali duas horas. Percebendo a cabeça dela, fez um carinho atrás da orelha da gata e pegou no sono.