Japonês tem cinco filhos, todos eles são gentis…
Quem passou pela escola pública já deve ter parodiado o Hino à Independência, e cantado a cada um dos filhos do japonês.
Um desses filhos teve mais filhos, netos, bisnetos, e um dos tataranetos dele tem uma quitanda aqui perto de casa.
Hoje está frio e, enquanto compro batatas pra sopa, uma senhora pergunta ao tataraneto do japonês do hino se eles abrirão a quitanda amanhã no feriado e ele responde que sim. “Eita, vocês não têm folga?” é a minha interjeição de cliente simpática antes do “débito, por favor” – interjeição desagradável. à senhora ao meu lado que argumenta ser ótimo pras pessoas do bairro que eles abram no feriado – claro, por que eu que tenho folga no feriado iria me organizar com antecedência pra comprar tudo hoje pra que mais pessoas tivessem uma folga né? Não faz sentido mesmo. Nem o tataraneto japonês concorda com uma bobagem dessas e sorri dizendo “temos um compromisso com a clientela”.
A clientela agradece. Ou não.
Hoje dei um abraço na Cícera antes de sair de casa enquanto ela terminava de lavar os panos, depois passei num bar tomar um café onde absolutamente todos os 7 funcionários tinham sotaque do norte ou nordeste – parece que paulistano não serve pra servir café? Parece que algumas pessoas simplesmente não… servem.
A clientela – sempre muito agradada, nem sempre muito agradável.
É muito bizarro o quanto nós brasileiros estamos acostumados com o regime de servidão: escancarado ou mascarado, quem é servido está à vontade, quem serve está fadado à máxima da padaria “servir bem pra servir sempre”.
Tô bem pro lado dos acomodados e bem servidos, e é de se pensar o quanto a nossa história colaborou pra isso.
A “Independência” do país foi em 1822, ano em que o hino a ela foi composto, mas a liberdade só raiou no papel, e o “longe vá, temor servil” na verdade ficou tão perto, mas tão perto, que virou raiz.
O que importa mesmo é que virou feriado, e se eu quiser comprar um pão quentinho é só descer até a quitanda do japonês gentil.
