Viver é medo

Dizem que, se em seu primeiro respiro consciente do dia não houver medo, talvez você ainda não tenha acordado. Viver é medo.

É necessário abrir os olhos e encontrar a angústia no teto, pra depois levantar-se e vestir a roupa de coragem. Encobre a nudez e nos cai muito bem. Deixa as pessoas à nossa volta mais confortáveis também. Viver é medo debaixo da pele.

Durante o dia a roupa cola no corpo, mesmo no inverno quando não há suor suficiente — e vivemos. Respiramos, comemos, arrotamos. Por algumas vezes a sensação de estar despertando pela manhã nos assombra mesmo em estado de alerta e o medo vem em uma inspiração profunda, junto com o oxigênio que entra nos pulmões. Viver é um medo gasoso, incontrolável e volátil.

É o medo dos outros, de si mesmo e das coisas. É abafar a ansiedade que tudo isso nos causa vestindo a carapuça de quem bebe um café displicentemente depois do almoço. É se envolver de normalidade até a hora de dormir, despido. Riobaldo já dizia, “viver é perigoso”, e o perigo não estava nas guerras do Sertão, mas por baixo das roupas de Diadorim.

Viver é um medo acordado. Ouso dizer que morremos no sono. Mesmo nos pesadelos mais macabros o medo não é o mesmo — o que causa impacto não é o sonho em si, mas o zumbido que ele deixa reverberar depois que o alarme toca de manhã. Os olhos se abrem, e a angústia continua ali: no teto.

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