Desenvolve! Integrando Territórios

Jogo, oficinas, aplicativo e plataforma compõem metodologia aplicada em caráter piloto em Boa Vista

A chegada de um grande grupo de migrantes a um território traz consigo um contingente de capacidades, potencialidades e desafios. Essa é a premissa do Desenvolve! Integrando territórios, metodologia elaborada pelo PNUD e aplicada em Boa Vista, Roraima, em 2019. A iniciativa é composta por um kit de ferramentas, métodos e oficinas criados pelo PNUD Brasil para fomentar o desenvolvimento local.

Pensar o desenvolvimento humano em territórios vulneráveis está em consonância com o mandato da organização.

“O PNUD tem experiência nacional e internacional na criação de soluções e metodologias que incentivam o desenvolvimento dos territórios, priorizando abordagens intersetoriais e participativas”, explica a Represente Residente Assistente do PNUD, Maristela Baioni.

A aplicação-piloto da metodologia foi liderada pelo PNUD, em parceria com a Organização Internacional para as Migrações (OIM); com o Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (CIEDS); e com a Escola Nacional de Administração Pública (ENAP).

Evento Ideação Coletiva, realizado em Boa Vista, Roraima, nos dias 8 e 9 de novembro para pensar em rede soluções de desenvolvimento para o território.

KIT DE FERRAMENTAS

Pensado a partir de um conjunto de ferramentas conectadas entre si, a metodologia tem por objetivo oferecer mecanismos para a realização de diagnósticos e a formulação de planos de aceleração do desenvolvimento, assim como facilitar a formação e a consolidação de redes para o desenvolvimento local. Isso é feito considerando as necessidades e capacidades tanto daqueles que migram como daqueles já estabelecidos nos territórios, assim como os diferentes desafios e o potencial que um território possui.

A metodologia Desenvolve! contém um jogo de tabuleiro, uma plataforma virtual, um aplicativo de mapeamento de capacidades e métodos de dinamização do território. Sua aplicação-piloto foi realizada em um conjunto de oficinas em Boa Vista, que contaram com participação de diferentes atores sociais locais.

“Acreditamos que a colaboração entre setores e a população é o caminho para potencializar ativos de um território em prol do desenvolvimento de todos que ali habitam”, afirma a gerente de projetos do PNUD, Pollyana Miguel.

O método Desenvolve! foi criado com base nos conceitos de desenvolvimento humano e de territorialização e aceleração dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ambos adotam premissas semelhantes: a implementação de ações voltadas às diferentes dimensões do desenvolvimento, respeitando as necessidades de cada lugar.

“Entender as características de um lugar antes de implementar uma ação, assim como engajar os diferentes atores e instituições do território nos processos de promoção do desenvolvimento local é fundamental para que os ganhos do desenvolvimento sejam uma realidade para todos”, afirma a assistente de projetos do PNUD Júlia Matravolgyi.

A partir dos elementos centrais do desenvolvimento humano — o foco nas pessoas e a geração de capacidades e oportunidades –, de estudos e diagnósticos dos desafios enfrentados nos territórios e pelas populações em situação de migração, assim como da abordagem para alavancagem do desenvolvimento adotada pelo PNUD na América Latina, foram selecionadas quatro dimensões como pilares da metodologia: inclusão, produtividade, resiliência e governança efetiva.

Considerando que os desafios complexos de gestão exigem soluções bem fundamentadas e direcionadas às reais demandas da população, a metodologia prevê diferentes instâncias de participação social e de gerenciamento de conteúdo.

Para promover a reflexão sobre desafios e capacidades dos territórios, foi desenvolvido o jogo de tabuleiro do Desenvolve!. Inspirado no RPG (Role-Playing Game ou, em tradução livre, jogo de interpretação de papéis) e nos gamebooks, a “brincadeira” articula a história de vida de personagens de um território imaginário com os desafios relacionados ao crescimento desse local. É um convite para que “pensar o território” seja algo lúdico e feito em conjunto — o jogo fica mais rico quanto mais diferentes forem as pessoas envolvidas em uma mesma partida.

No jogo, as missões de cada jogador são construídas a partir dos eixos da metodologia (inclusão, produtividade e resiliência e governança efetiva) e envolvem dinâmicas de cooperação, trocas culturais e construção coletiva para objetivos comuns, de modo que não haja um único vencedor.

Na versão piloto da metodologia Desenvolve!, em Boa Vista, o jogo foi utilizado como forma de atrair a comunidade para o uso da plataforma e do aplicativo de mesmo nome, e como introdução para a participação da população e de gestores públicos nas oficinas de construção coletiva de iniciativas de desenvolvimento local.

As plataformas virtuais do projeto foram pensadas para que esses cidadãos e gestores possam mapear e priorizar os problemas e capacidades mais relevantes de sua região. A partir da inserção de dados (feita por parte dos gestores públicos, no caso da plataforma, e pela comunidade, no caso do app) as ferramentas ajudam a traçar rotas de capacidades reais — ou seja, já disponíveis — e ideais, que são aquelas que atenderiam às demandas de determinado local. A finalidade dessas rotas é subsidiar análises do território, por parte de cidadãos e daqueles que pensam políticas e iniciativas para o território.

MÃOS NA MASSA

Dois eventos marcaram as atividades realizadas pelo PNUD, CIEDS, OIM e ENAP em Boa Vista: uma oficina de Ideação Coletiva realizada em novembro, para construção de ações multissetoriais; e uma em dezembro com gestores municipais para consolidação das ações desenvolvimento local.

O primeiro encontro reuniu representantes do governo do Estado, da gestão municipal, membros de ONGs, cooperativas, lideranças jovens e migrantes, universidades e sociedade civil para jogar uma partida de Desenvolve!, seguida de uma sequência de atividades para pensar soluções para problemas da cidade em grupos.

Para a assessora local do projeto, Anna Clara Monjardim, responsável pela organização e mobilização dos convidados em parceria com a equipe do CIEDS, “mobilizar participantes tão diferentes entre si foi um desafio diante da proposta de reunir pessoas de setores com vários interesses para dialogarem e construírem propostas conjuntas em prol do desenvolvimento”.

Por meio de metodologias como design thinking e gamificação, a oficina dividiu os migrantes em grupos para discutir questões identificadas como problemáticas por eles mesmos: entre elas, o bullying nas escolas, a violência de gênero, a falta de conhecimento dos cidadãos sobre gestão pública e a necessidade de capacitação dos jovens profissionais. “A proposta é permitir que pessoas de várias organizações e origens possam dialogar com igualdade, transferindo diferentes formas de conhecimento”, completa Anna Clara.

A aplicação do jogo Desenvolve! na abertura da Ideação Coletiva foi feita de forma a apoiar a compreensão de conceitos como desenvolvimento humano, inclusão, produtividade para que os participantes pudessem identificar e mapear os problemas locais, suas causas e consequências.

Identificados os problemas, os convidados da oficina foram reunidos em grupos para um processo de amadurecimento dos projetos e planejamento de iniciativas pensadas para ajudar a solucionar o problema escolhido pelo grupo. Ao final das atividades, alguns projetos foram selecionados para terem suas iniciativas financiadas e executadas.

“Os problemas mapeados são abrangentes e, por isso, o encontro de representantes de diversas áreas é tão importante: assim, sabemos o que pensam as diferentes secretarias, bem como as ideias de quem está no comércio, o que acham os migrantes. Nos questionamos: o que o outro traz e o que a gente traz?”, explica a técnica administrativa do Governo do Estado de Roraima, Gisele, Bordonal Tresoldo. “Normalmente as discussões ficam só em um meio específico — hoje a discussão é transversal e de diversas áreas”, completa.

Para a líder da cooperativa de costureiras COOFECS, Maria dos Santos (foto), o evento foi uma oportunidade de se engajar em uma nova atividade. “Me senti grata, pois nunca havia feito uma atividade em grupo dessa forma”, afirma. “Fizemos um bom trabalho, foi suado; o mais difícil é fazer o planejamento de imediato, colocar no papel tudo aquilo que precisamos. Aqui eu ganhei novas amizades com pessoas que não conhecia, uma parceria na qual vamos juntas até o fim”, diz.

“A metodologia foi capaz de integrar o coletivo”, completa a líder do Núcleo de Mulheres de Roraima, Andrea Vasconcelos.

“Escolhemos o nome Mulheres que Brilham porque há muitas mulheres apagadas por situações de maus tratos, porque têm de modificar sua maneira de agir, por que trabalham e não são pagas, às vezes têm famílias e não tem como sustentá-las. Queríamos ver mulheres que brilhassem!”, explica a migrante Kerim Valentina. “Se uma mulher, entre as participantes do evento, tiver uma vida diferente, o projeto já será válido”.

Os dados, soluções e capacidades levantados durante a Ideação Coletiva foram compartilhados com os gestores municipais na oficina realizada em 9 de dezembro. Os gestores foram convidados a pensar, em grupos que reuniram secretários e técnicos de diferentes áreas, soluções para questões capazes de compor um plano de desenvolvimento local, sempre considerando aspectos relativos ao crescimento da cidade, dado o intenso fluxo migratório.

“Conseguimos planejar de forma intersetorial: reunidos com colegas de diferentes secretarias é possível ter visões diversas da realidade do município para, em seguida, colocar as ideias no papel e estabelecer diretrizes e objetivos”, afirma o técnico da Secretaria de Educação de Boa Vista (SMEC), Alexandre Pereira.

Parte dos grupos que tiveram suas ideias reconhecidas posam com as equipes do PNUD, CIEDS e OIM no encerramento do evento de Ideação Coletiva em novembro de 2019.

MIGRAÇÃO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES PARA O DESENVOLVIMENTO

O deslocamento de muitas pessoas em direção a um território pode causar impactos que demandam planejamento para gerir os novos desafios. Ao mesmo tempo, os fluxos migratórios podem gerar numerosas oportunidades de transformação positiva e de desenvolvimento do território. Por isso, a metodologia criada tem a premissa de que não há uma única forma de gerar desenvolvimento: é preciso se adaptar às realidades, tanto do local, quanto do fluxo migratório, contribuindo da melhor forma para avançar. Para isso, é necessário que se conheçam as localidades e os fluxos migratórios ali presentes.

Essa forma de pensar o desenvolvimento e a migração está alinhada aos objetivos da Agenda 2030. Entre eles, destaca-se o Objetivo 10 (reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles), que tem uma meta diretamente relacionada ao tema da migração, a 10.7 (facilitar a migração e a mobilidade ordenada, segura, regular e responsável das pessoas, inclusive por meio da implementação de políticas de migração planejadas e bem geridas).

Além desse, outros objetivos têm também uma grande relação com o tema: como os objetivos 16 (promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis) e 8 (promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todas e todos).

“A metodologia Desenvolve! e seu kit de ferramentas permanecerá como uma contribuição do PNUD para replicação em outros territórios, podendo auxiliar processos de aceleração do desenvolvimento em todo o país”, destaca a coordenadora da Unidade de Paz e Governança do PNUD, Moema Freire.

Fotos: PNUD/ Júlia Matravolgyi

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