Bárbara Coelho e as aventuras do esporte
Apresentadora do SporTV é a convidada do 4º episódio do podcast Vida de Jornalista. Leia a transcrição do papo
Por Rodrigo Alves
Os bastidores de um programa de esportes ao vivo na TV. Assim começa o papo com Bárbara Coelho, apresentadora do Tá na Área, do SporTV. Ela é a convidada do quarto episódio do podcast Vida de Jornalista. A conversa passa ainda pelos desafios das mulheres no jornalismo esportivo e por uma aventura na Copa da África, quando Bárbara vendeu seu carro em Vitória para viajar, ver e cobrir o evento em 2010.

Os episódios em áudio estão disponíveis no Spotify, em todos os aplicativos de podcast para celular (iTunes, Castbox, Stitcher, Podcast Addict, Podcast Go, Player FM etc), ou direto no Podbean:
A transcrição das entrevistas é uma opção para pessoas com deficiência auditiva — ou simplesmente para quem prefere o texto ao áudio.
Rodrigo Alves — Quero começar com você contando um pouco como é o Tá na Área por trás das câmeras, como é a preparação do programa. Quem só te vê na televisão acha que é fácil, né, mas como é o programa antes de ir para o ar?
Bárbara Coelho — Esse sentimento é muito louco, porque às vezes as pessoas perguntam: “Como é tua rotina? O programa vai ao ar às 17h, você chega lá umas 15h30?”. Eu falo aham, vai achando que é assim (risos). O programa começa muito antes, a gente chega por volta de 11h da manhã. Tem uma reunião rápida para poder entender qual o conteúdo do dia para dar prioridade, o que a casa tem para oferecer. A casa que eu falo são as praças, as reportagens, para a gente construir o espelho. Tem o editor chefe do programa, que é o Eugene, é ele que define tudo isso. Mas a gente tem toda a liberdade para participar. E eu gosto muito. O último processo é o da apresentação. Talvez o último e mais importante para mim, porque eu fui contratada para isso. Mas existem coisas que são construídas ao longo do dia que para mim são tão importantes quanto. Aí a gente discute o conteúdo. O Tá na Área é o programa marqueteiro da casa. O que é isso? A gente está ali para fazer jornalismo, claro, mas é o programa que vai vender os eventos da casa. Então, se hoje à noite a gente vai transmitir um jogo de Libertadores, o Tá na Área tem o compromisso de falar sobre esse jogo e dizer que você pode acompanhar o jogo na programação. Então eu passo a tarde estudando, falando com os repórteres que vão entrar no programa. Faço questão de falar com todos eles, ou a maioria, para poder fazer da nossa conversa uma coisa muito natural. Para que eu possa me envolver com o conteúdo do repórter. A gente passa o dia construindo esse espelho, que é o roteiro do programa, falando com os repórteres, colhendo informações. É uma hora e meia de programa, não é um programa curto, e absorve muita coisa. Porque o bicho às vezes pega à tarde. Os treinos acontecem à tarde. Às vezes eu estou aqui me maquiando, e as coisas estão acontecendo.
Eu já participei do Tá na Área algumas vezes para falar de basquete, e é legal porque além de participar a gente consegue ficar ali um pouquinho no estúdio observando, vendo a preparação na hora do intervalo. Mas você e o Fred Ring, que também apresenta, sempre parecem muito tranquilos, dominando aquele espaço. E o Tá na Área tem um estúdio enorme, com várias câmeras. Tem uma câmera que fica andando pelo chão e sempre me dá um certo medo de que ela vai atacar alguém.
Eu também tenho medo dela até hoje (risos), acho que ela vai bater em algum lugar e dar errado.
“A gente é jornalista, não é artista. Esse é o desafio. O Tá na Área forma o jornalista. Se você for jornalista de raiz mesmo, provavelmente você vai se dar bem”
Leva um tempo até você dominar esse cenário e se sentir à vontade ali?
Eu acho o Tá na Área, sem querer valorizar, o programa da casa mais difícil de se fazer. Primeiro porque ele muda o espelho. O que está programado não é o que acontece no ar. O vivo cai, às vezes a conexão no lugar está ruim, começa uma coletiva, a gente inverte a ordem. O que faz a gente ter tranquilidade é o domínio que a gente tem dos assuntos. Eu estou há cinco anos no Tá na Área, sou a mais antiga da equipe. Quando o Fred chegou, deixei claro para ele, e ele assimilou muito rápido, porque ele é um cara de muito conteúdo, extremamente inteligente, e pegou essa ideia fácil. O Tá na Área não é pegar um espelho, estudar os assuntos, entender as introduções do VT. Não. Você tem que estar por dentro do conteúdo. Porque vai cair uma bomba no teu colo da noite para o dia, de uma hora para a outra, e isso não estava programado no espelho. O editor chefe e a Isabel, que é a sub dele, têm um milhão de atribuições. Não tem esse glamour de ter alguém passando tudo para a gente. E nem quero. A gente é jornalista, não é artista. Esse é o desafio. O Tá na Área forma o jornalista. Se você for jornalista de raiz mesmo, provavelmente você vai se dar bem.
Você participa de outros programas da casa, o Seleção, o Troca de Passes, como comentarista. E você teve uma experiência durante a Copa, que foi o Central da Copa com o Tiago Leifert. Como foi esse momento na TV aberta?
A TV aberta é curiosa. A única diferença que tem é a repercussão, que é muito maior, tem um alcance maior. Mas o trabalho é o mesmo que a gente desenvolve aqui. Eu estou iniciando minha carreira, são 10 anos, mas tenho muito que aprender. Mas tenho alguma estrada, então aprendi algumas coisas. Cheguei lá muito tranquila de que o que eu estudei, o que eu já fiz e tenho tentado fazer ia me dar tranquilidade para exercer o meu papel lá. Só que a Central tinha outro desafio. Eu dividia a apresentação com caras extremamente renomados e já conhecidos do público. O Tiago, que para mim é um gênio da comunicação, porque ele transita por tudo: esporte, entretenimento. A sensação que eu tenho é de que ele é tão inteligente que, se você colocá-lo para apresentar um debate político, ele está preparado. O Caio, que é um dos principais comentaristas da casa. O Julio Cesar, um goleiro de três Copas do Mundo. E eu. Apesar da minha experiência, uma jornalista em desenvolvimento, estou aprendendo. Para mim foi desafiador ter a oportunidade de falar de igual para igual com ele. E esse objetivo eu atingi. Além de toda a solidariedade deles, de entender meu papel e me respeitar muito profissionalmente, de serem meus amigos e criar um ambiente saudável, acho que eu consegui, dentro da minha realidade, falar de igual para igual com eles. Saí de lá muito mais madura profissionalmente. Não pelo alcance da TV aberta, mas pela experiência de dividir espaço com pessoas tão renomadas, e eu chegando ainda.
Tanto na Central, como no seu dia a dia no Tá na Área, você usa muito as redes sociais para mostra bastidores. Como é a sua relação com o Instagram? E te dá alguma dor de cabeça de vez em quando essa interação com o público?
Cara, eu tenho uma relação muito boa. A minha experiência é meio diferente do que as pessoas me contam. Tenho uma coisa que eu gosto de fazer na minha rede social. Eu acho que o mundo está muito perfeito. E não mostro só as minhas vitórias. Quando dou uma escorregada, gosto de trazer realmente o meu dia a dia e um pouco do que eu vivo. Não só aquela coisa: tira uma foto, fica feia, tira a outra. Se eu saio feia, ponho feia. Hoje dei um escorregão na academia, coloquei o escorregão. Essa coisa de ser gente como a gente cativa as pessoas. Então tenho muita interação legal. A interação perigosa é a do futebol. Por exemplo: ontem teve Crueiro x Flamengo, resolvi fazer só um post elogiando o Cruzeiro. Porque eu não queria fazer dez posts, queria fazer um. Achava que, dentro de tudo que eu tinha para falar, o mais relevante era elogiar a postura do Cruzeiro. Aí veio o torcedor do Flamengo me pegando. Até brinquei, depois até apaguei, porque não quis entrar em discussão. Me perguntaram: “Você é cruzeirense?”. Eu copiei e falei: gente, só para lembrar, eu sou jornalista. E o torcedor se apega muito a isso. Eu pensei muito sobre isso ontem. Pretendo usar minha rede social para falar do meu dia, adoro falar a forma como eu me informo. Fico pincelando algumas coisas ali. Talvez a maior dificuldade é quando você vai para a bola, no comentário curto. As pessoas se apegam naquilo ali e transformam você no que elas querem.
“O machismo é cultural. A bandeira que eu levanto é a do trabalho. Trabalhar sempre. Infelizmente, sim, a gente tem que provar duas vezes, tá? Para ter qualquer tipo de recompensa, de valorização. Não temos uma posição salarial como a dos homens. Eu posso mostrar isso em pesquisa, então isso não pode ser mimimi. Isso é número, não é papo, não é balela”
E acham que você está torcendo para um determinado time.
É, ontem eu respondi para algumas pessoas que foram educadas. Todo mundo tem direito de discordar, acho ótimo que discordem. Mas falei: só para lembrar a todos vocês que, antes de cruzeirense, flamenguista, são-paulina, corintiana, botafoguense — porque eu tenho um time, óbvio — eu sou jornalista. Então se puderem sempre olhar para um comentário meu, avaliando o jornalístico, concordando comigo ou não, é mais saudável para todo mundo.
Agora, Bárbara, dentro ou fora de rede social, o jornalismo esportivo ainda é um ambiente muito contaminado pelo machismo. E você é muito engajada também com o movimento #DeixaElaTrabalhar, um movimento de mulheres contra o machismo e o assédio. A gente vê vários exemplos tristes de mulheres que estavam trabalhando e foram assediadas verbalmente, fisicamente. E tem gente que acha que isso é bobagem, que é mimimi. Qual é a importância de não deixar esse assunto cair e sempre reforçar essa campanha?
Primeira coisa: eu gostaria de deixar um recado para as mulheres. Por mais que o preconceito exista, se ele não estiver na sua cabeça enquanto você estiver executando o seu trabalho, ele também pode não estar na cabeça das pessoas. Esse é o meu lema, que eu levo para a minha vida. O que isso quer dizer? A gente tem que tomar um cuidado, porque o discurso está tão emocionalmente contagiado por tudo que a gente já viveu, que às vezes a gente se perde no argumento. Por isso as pessoas falam de mimimi, que agora tudo é machismo. Então é importante saber pontuar o que é machismo e saber argumentar. Em vez de brigar, educar. Porque nós somos machistas, todos. Somos machistas em desconstrução. Eu não deixo de amar meu avô, meus pais, pessoas mais velhas da minha família, mesmo sabendo que muitos deles são machistas, porque eles foram criados com essa cultura. O machismo é cultural. A bandeira que eu levanto é a do trabalho. Trabalhar sempre. Infelizmente, sim, a gente tem que provar duas vezes, tá? Para ter qualquer tipo de recompensa, de valorização. Não temos uma posição salarial como a dos homens. Eu posso mostrar isso em pesquisa, então isso não pode ser mimimi. Isso é número, não é papo, não é balela. Está na hora de focar no que a gente acredita, que é o trabalho. Continuar brigando pelos nossos direitos, e a igualdade, que é muito importante. Mas atacar menos quem é assim. Talvez o nosso compromisso seja educar. Pegar o machista pela mão e explicar que ele está errado.
“Existe o preconceito velado, que para mim é o pior. É o que diz não ser preconceituoso, é o que te trata bem na frente das pessoas, e o preconceito dele é no olhar, é não deixando você falar, é diminuindo a tua opinião, te expondo, tentando te colocar em situações para que você se exponha”
Durante a sua trajetória, imagino que você tenha ouvido muito comentário. Teve o episódio com o Túlio Maravilha, que foi aqui dentro da empresa, um episódio de assédio. O quanto você teve que lidar com isso desde que você começou até hoje?
Existem vários tipos de preconceito. O preconceito da arquibancada é o preconceito idiota. É o torcedor que xinga o negro, a mulher, o homossexual, o cego, alguém com problema físico. É o idiota, é o ignorante. Então eu não tenho esperança, infelizmente, de melhorar isso. Eu sinceramente me coloco um pouco como derrotada. Não é à toa que a gente vê violência no estádio. Existe também o preconceito que é aquele: não vou te colocar nessa posição porque você é mulher. A gente está chegando com tanta capacidade de desenvolver determinadas tarefas, que não tem mais como não colocar a gente. Eu não quero cota. Eu não quero estar em lugar nenhum porque tem que ter uma mulher. Quero estar porque sou uma profissional preparada para isso, tanto quanto um homem. E existe o preconceito velado, que para mim é o pior. É o que diz não ser preconceituoso, é o que te trata bem na frente das pessoas, e o preconceito dele é no olhar, é não deixando você falar, é diminuindo a tua opinião, te expondo, tentando te colocar em situações para que você se exponha. Esse é o que mais existe. Por isso às vezes parece mimimi. Porque é tão velado, é tão difícil de mostrar que está acontecendo, que parece que você está exagerando. É o que eu tenho mais dificuldade. Eu já sofri muito, confesso. Mas uma coisa dessa fase da minha vida que me deixa muito feliz — e é um depoimento pessoal, não estou falando pelo movimento — é que hoje em dia eu tenho respeito das pessoas que trabalham comigo, de verdade. Trabalho numa equipe com a maioria de homens. Meu chefe tem um imenso respeito pelo meu trabalho, tenho certeza disso. Os meninos que trabalham comigo também me respeitam. Eu acho que conquistei isso, e acho que todos nós podemos conquistar. Acho que podia ser menos difícil. Mas também é novidade para eles. Sabe por que a gente aponta o dedo? Porque a gente já sofreu muito. É natural que isso revolte a gente. Se a gente naturalizar o movimento do lado de lá, eu acho que normaliza mais as coisas. E uma coisa que o Tiago Leifert falou para mim na Central da Copa que ficou na minha cabeça: no primeiro dia, ele falou: “Você não está aqui por ser uma mulher que entende de futebol. Você está aqui porque, para mim, de todas as pessoas que eu acho que poderiam estar aqui, você é a melhor delas. Ponto. Entre homens e mulheres. Põe isso na sua cabeça e trabalha”. Quando eu vi que ele tirou de mim essa responsabilidade de ser uma mulher que representa as mulheres, fluiu. Então vamos tirar um pouco essa responsabilidade das nossas costas, de ser a mulher que tem que provar. Vamos naturalizar esse movimento.
Se para mulheres que já estão consolidadas na profissão é difícil, imagino para quem está começando. Por isso eu queria voltar lá para Vitória, no Espírito Santo. No teu caso, como o jornalismo pintou na tua vida?
Cara, é uma história muito louca. Eu torço para um time, como qualquer jornalista esportivo se aproxima do esporte porque tem uma paixão em alguma coisa. Se não for pelo futebol, vai ser por uma franquia de basquete, por um tenista. Não conheci um jornalista esportivo que nasceu do nada. Existem alguns que caem por acidente na profissão, como em todas. Mas estou falando como nós dois, apaixonados pelo que fazemos. Eu era do Espírito Santo, esse meu time não é de Vitória, e eu precisava viajar para ver esse time jogar. Eu comecei a buscar excursão no jornal. Sempre fui muito para frente, desde nova. Com 12 ou 13 anos, eu fui para uma viagem, escondida da minha mãe, para ver o time. Minha mãe achou que eu tinha ido dormir na casa de uma amiga. E como eu sempre tive nota boa na escola, minha mãe não era muito de duvidar das coisas que eu falava. Depois eu rodei, muitos anos depois (risos). Quando cheguei nesse estádio, vi o time jogar, eu estava naquela época, ainda criança, mas já tentando desenvolver dentro de mim o que eu seria quando crescesse, sabe? Eu vi os profissionais de imprensa nesse estádio. Falei: não tem como, eu vou ter que trabalhar com isso. Quando vi aquelas repórteres, aquelas mulheres, já naquela época, em campo trabalhando, eu falei: vou trabalhar aqui um dia, e vai ser nesse estádio. Não necessariamente cobrindo esse time. Até porque eu tive oportunidade de ser repórter e cobrir o time que eu torço, e foi uma péssima experiência, confesso. Porque foi campeão, cobri dois títulos. Mas foi muito difícil, eu era muito imatura. Então só para passar um outro recado, vamos parar com essa ilusão, óbvio que eu continuo torcendo. Quando vou para o estádio eu torço, quando estou em casa eu xingo do mesmo jeitinho. Mas quando eu exerço a profissão, é uma relação muito diferente. A gente tem um compromisso muito bonito com a nossa profissão. E a partir dali, entrei na faculdade de jornalismo falei: bom, vou trabalhar com esporte. Nos primeiros períodos da faculdade comecei trabalhando com outra coisa nada a ver e pensei: como é que eu vou entrar nesse meio? Ainda é um meio genuinamente masculino, e eu não conhecia ninguém. Um amigo meu da faculdade falou: “Olha, tem uma vaga lá na rádio. O chefe lá é meio carrancudo, mas é um cara de bom coração”. Aí eu comecei a ir lá todo dia, todo dia, todo dia. Ele me contratou por cansaço, ele me disse isso (risos). A partir dali começou minha história no jornalismo esportivo.
“Um amigo que trabalhava na TV Capixaba estava indo para a Copa, num motorhome, num esquema com uma galera. Cheguei em casa e falei para a minha mãe: ‘Olha só, eu tomei uma decisão. Eu vou para a África, para a Copa do Mundo. Vou vender meu carro e vou’. Minha mãe me tirou de louca na hora, e meu pai falou: “Você já conhece, ela vai”
E nesse seu começo tem uma história que eu queria muito que você contasse os detalhes. É a história da Copa da África do Sul em 2010. Muita gente que está começando fica naquela dúvida, às vezes não está numa grande empresa, e pensa: como vou fazer meu currículo ficar mais legal? Hoje as ferramentas permitem que a gente faça as nossas coisas. E a tua paixão naquele momento foi voltada para uma aventura louca na África, conta como foi.
Eu morava em Vitória e fazia estágio na Rádio Espírito Santo e na TV Capixaba, que é a filial da Band. Eu estava bem profissionalmente, dois estágios e faculdade à noite. Mas eu não queria construir minha vida profissional lá. Eu amo minha cidade, volto correndo sempre que posso, lá é minha raiz, meu sangue. Mas eu queria vir para um grande centro, São Paulo ou Rio. Quando Vasco e Fluminense fizeram pré-temporada em Vitória, eu aproveitei para fazer alguns networkings com jornalistas, peguei o contato deles. Por isso o Rio. Eu fiz uma relação com a imprensa daqui e entendia que seria mais fácil, entre aspas, de pelo menos me apresentar. Eu tinha alguém para dar um oi. Mas pensei como eu ia chegar no Rio falando que eu quero trabalhar sem nada no currículo, nada que mostre que eu sou diferente. Aí me deu um estalo. Um amigo que trabalhava na TV Capixaba estava indo para a Copa, num motorhome, num esquema com uma galera. E ele falou: “Vou falar com os moleques, mas acho que não tem problema nenhum você ir. Está sobrando uma vaga. É meio apertadinho. Se você não se importar, somos eu e mais quatro homens, dos quais você não conhece nenhum, só eu”. E a gente era colega de trabalho, não tinha uma baita intimidade. Cheguei em casa e falei para a minha mãe: “Olha só, eu tomei uma decisão”. Eu sempre fui assim, super decidida. “Eu vou para a África, para a Copa do Mundo”. Minha família não era uma família de muita grana. “Vou vender meu carro e vou, acho que é importante para mim”. Minha mãe me tirou de louca na hora, e meu pai falou: “Você já conhece, ela vai”. Montei um projeto para conseguir patrocínio para entrar na rádio. Porque a rádio não podia me dar grana para eu entrar na programação. A Band falou: “Vai ser feliz, encerramos seu contrato de estágio”. E a rádio queria me usar, e eu também queria dizer que trabalhei, não queria ir a passeio. Fiz uns projetinhos de patrocínio, consegui tipo Colchões Ortobom, umas coisas bem pequenas que me ajudaram em algumas coisas. E fui. Eu estava para me formar. Fui na coordenação do curso e contei todo o meu sonho. Foi um choque para mim, porque a coordenadora era aquela pessoa bem acadêmica, que parece má. E ela super me apoiou. E a minha defesa de TCC foi uma das mais lotadas da história da faculdade, porque todo mundo achou a história incrível. Fiz meu TCC sozinha, 120 páginas, foi uma coisa muito louca. E eu fui.
E como foi o perrengue lá?
Cara, aconteceu de tudo naquele lugar. Primeiro porque hoje é fácil ir para a África, as pessoas conhecem, sabe como é. Mas quando eu fui, não. E a gente não tinha muito onde alugar motorhome. A gente dormia nos estacionamentos de boate, em troca de camisas do Brasil. Os africanos amam a gente, então a gente levou umas 20 camisas do Brasil. Não eram camisas oficiais, eram comemorativas, qualquer coisa, e trocávamos por moradia. Percorremos 1.800km, tinha bicho na estrada, era só história. Não tinha água quente no motorhome, então tinha que pedir favor para tomar banho. Não tinha hotel, nada. Era desenrolar com segurança de balada: “Poxa, deixa eu tomar um banho aí no seu banheiro”. Foram 40 dias assim. E te falo que foi a melhor experiência que eu vivi na minha vida. Foi muito legal.
“Eu falo para os chefes aqui que eu me sinto jornalista, me sinto preparada. Se tiver que ser repórter eu sou, se tiver que comentar eu comento, se tiver que apresentar eu apresento”
E certamente te serviu muito profissionalmente, né.
Quando eu vim para o Rio, não tinha nada, nenhum emprego. Minha mãe ia me ajudar mais ou menos financeiramente por seis meses, os custos básicos. Meu primeiro emprego foi na Rádio Popular AM, lá em Duque de Caxias, que um amigão me arrumou. Um amigão que eu fiz lá em Vitória. Mas não era um trabalho remunerado. Foi o primeiro contato que eu tive. Aí um amigo meu falou: “Bárbara, eu conheci o dono de um tal de Esporte Interativo na Copa da Alemanha. Posso te apresentar, não garanto nada, mas acho que você deve ir lá”. Era o Fábio Medeiros, que é um dos CEOs. Cheguei lá, e não sei o que aconteceu comigo, porque eu estava muito corajosa na época, é disso que eu me orgulho muito. Porque eu cheguei na sala de um cara que era diretor de uma emissora no Rio, e falei: sou assim, fiz isso. Ele tinha algumas coisas de futebol na sala, a gente começou a falar sobre o campeonato inglês, e ele começou a achar aquilo tudo muito absurdo. Eu tinha 22 anos, sem grana, nada folgado para mim. E ele disse que não tinha vaga. Eu falei para ele: “Tudo bem, não tem vaga. Mas posso te pedir uma coisa? Posso fazer um teste? Eu faço o teste, você guarda. No dia em que pintar uma vaga, eu entro”. Ele me colocou para fazer um teste como comentarista. Fiz esse teste, e ele me chamou no mesmo mês. Minha carreira no Rio começou assim, lá no Esporte Interativo.
E hoje você está no SporTV. Quando você olha lá para frente, pensando no futuro, você se vê sendo apresentadora por muito tempo? Quer fazer outras coisas também?
Eu cheguei aonde eu queria chegar. O SporTV era um sonho que para mim nunca ia acontecer. Lá em Vitória, aquela menina de cidade pequena, eu achei que Globo era contato, que só entrava quem tinha o esquema. Esquema no bom sentido, conhecer alguém. E vi que não era o caso. Eu falo para os chefes aqui que eu me sinto jornalista, me sinto preparada. Se tiver que ser repórter eu sou, se tiver que comentar eu comento, se tiver que apresentar eu apresento. Estou transitando por esses cenários. Comentar jogo, muita gente me cobra isso. Pode ser um caminho. Mas não me vejo fazendo isso agora, não estou preparada. Me falta experiência. O comentário pede muita bagagem, que eu não tenho ainda, mas quem sabe um dia. Então eu me vejo assim, estou aqui para contribuir no que eu puder.
Bárbara, adorei ouvir suas histórias, muito obrigado.
Só tem história maluca, mas tem história.
Quanto mais maluca, melhor. Obrigado, e continua arrebentando.