Areia em Rolimã: a poesia de Rafael Aquino
O escritor está trabalhando num novo livro de poemas com nome provisório “Oníricos” , sem previsão de lançamento


Jean Albuquerque
O biólogo, médico e também escritor, Rafael Aquino, 34, lançou ano passado, Areia em Rolimã, Imprensa Oficial. Sua poesia consiste num fervilhar de acontecimentos e vivências sobre a infância. Temos aí, uma precisão na construção dos poemas e uma busca constante pela imagem precisa.
“[…] Eu escrevo sobre o que me comove e, quando eu reflito sobre a arqueologia da minha sensibilidade eu acabo desembocando nos tempos em que eu descobria o mundo. Se escrevo é por que tento encontrar os sentido da minha comoção na minha história. Entender o porquê do que me toca”, defende.
O livro é dividido em quatro partes: Mistério sensível e impronunciável, Mar e restinga e Pequenos versos para retina e Carne Crescida. Ainda é carregado do olhar sensível sobre o cotidiano: “[…] E eu, / cruzando a cidade em um coletivo, / estou só / em minha linguagem dura. / Só / com minha língua escassa / armada em farrapos.”, p.22.
Aquino escreve poemas desde 2006, costumava reunir seus escritos num blog chamado Evitar Parar; restrito aos poucos amigos próximos. Antes do lançamento do primeiro livro chegou a ter publicado um poema na coletânea que reuniu autores de Alagoas, o Caderno de Poesias Vol. I, de 2011; do antigo Coletivo Frente e Verso.
Conversei com o escritor e o bate papo você pode conferir logo abaixo.

Jean Albuquerque — Você lançou o livro de poemas, Areia em Rolimã (2016), Imprensa Oficial. Como foi o processo de produção?
Rafael Aquino — O Areia em Rolimã surgiu principalmente por quê uma amiga, a Ana Maria Vasconcelos, que conhecia minha poesia, insistiu para que eu saísse da loca. Ela me convenceu que eu tinha material acumulado para compor um livro e a partir do que eu já tinha, poemas esparsos, eu tentei compor um todo mais ou menos coerente. A verdade é que esse livro não existia ainda, o que tinha era seu núcleo. Desde a época do blog que eu já identificava alguns núcleos temáticos nos meus poemas que eram questões às quais eu — as vezes sem perceber — sempre retornava. Com a ajuda de uma grande amiga, a Raffaela Gomes, jornalista que já possuía experiência editorial, revisei e depurei meu material antigo, defini esses núcleos e daí comecei a compor novas coisas que deram no texto final. Dois amigos ilustradores, Azul Araújo e Moreno Baeta, com quem eu já havia discutido a possibilidade de ilustrar textos meus, se animaram com a ideia do livro e fizeram aquelas ilustrações fantásticas. Eles souberam captar de forma impressionante o universo do livro e isso enriqueceu bastante a obra.
A tua poesia consiste num fervilhar de acontecimentos e vivências sobre a infância. Temos aí, uma precisão na construção dos poemas e uma busca constante pela imagem precisa. Conta um pouco como foi a sua infância.
Minha infância foi com um pé em Maceió e um pé em Barreiros, cidade do litoral sul de Pernambuco de onde veio minha família. Maceió foi onde eu me fiz gente, frequentei escola, fiz meus amigos, tive contato com música e literatura, tudo isso com as peculiaridades da terra, seus caprichos e precariedades. Maceió pra mim é o lugar onde eu aprendi a andar sozinho. Já Barreiros ocupa um terreno mais lírico na minha memória. É uma cidade que cresceu em torno de uma usina de cana de açúcar cujo prédio central da administração e moagem ficava a um quarteirão da casa da minha avó. Na frente da casa dela corria o trilho do trem que vinha trazendo a cana das fazendas e cujo apito fazia minha mãe e tias correrem para tirar as crianças da rua.
Nos períodos de atividade da usina era comum no fim da tarde descer sobre a casa e a rua flocos de neve negra da palha da cana queimada que faziam os adultos baterem os lençóis das camas e da mesa religiosamente antes de comer e dormir. Nós nos enfiávamos nas aventuras com meus pais pelos engenhos, que eram como se chamavam as fazendas remanescentes de cana em Barreiros e suas estruturas de casas de funcionários que a cercavam. Não eram mais engenhos, certamente, mas preservavam o nome na boca de todos. Nos metíamos nos engenhos para visitar os conhecidos dos meus pais, conhecer novos e principalmente frequentar seus rios e banhos e pescas. Era lá onde meu pai ia revisitar sua infância e me apresentá-la. Ali tomei contato com as pessoas, suas palavras e sotaques, seus hábitos, as casas de farinhas, as casas coladas umas nas outras de fronte para a cana, as paredes amarelas do barro da rodagem e a natureza do ambiente rural, os insetos e toda sorte de bichos que meu pai sempre me acostumou a pegar com a mão, conhecer e respeitar.
Depois o trem parou, vieram os treminhões. Depois a usina foi quem faliu e arrastou toda a cidade que passou a viver quase que exclusivamente do funcionalismo público e do comércio e de que até hoje tenta se recuperar. Posteriormente vieram as grandes cheias (em 2010 houve a maior delas que praticamente destruiu toda a cidade, na mesma época que Branquinha, Rio Largo e outras cidades de Alagoas também sofriam do mesmo mal) de que só havia visto ensaios em minha infância e relatos dos mais velhos. Mas ai já não é mais história da minha infância, é história recente de Barreiros e já estou fugindo do tema.

O livro é dividido em quatro partes: Mistério sensível e impronunciável, Mar e restinga e Pequenos versos para retina e Carne Crescida. Ainda é carregado do olhar sensível sobre o cotidiano: “[…] E eu, / cruzando a cidade em um coletivo, / estou só / em minha linguagem dura. / Só / com minha língua escassa / armada em farrapos.”, p.22. Além da infância, o cotidiano serve de inspiração na hora de escrever?
O cotidiano é o campo onde vivo e que me sugere temas. Não é que eu escreva sobre a infância, é que eu escrevo sobre o que me comove e, quando eu reflito sobre a arqueologia da minha sensibilidade eu acabo desembocando nos tempos em que eu descobria o mundo. Se escrevo é por que tento encontrar os sentido da minha comoção na minha história. Entender o porquê do que me toca.
Mas isso de se comover acontece meio sem planos e me pega quase sempre desprevenido, então às vezes é num ônibus, na rua olhando um muro, olhando fragatas voando sobre a Baia de Guanabara pela janela do hospital em que trabalho, são em lugares assim que ela me vem, e nesse sentido é natural que o cotidiano se reflita em minha escrita.
O Areia em Rolimã (2016) é teu livro de estréia. Existe o momento em que o escritor percebe que está pronto para ser publicado?
Talvez os gênios tenham tanto domínio e conhecimento de si e do que fazem que consigam perceber a hora exata do bote. Como não sou nenhum gênio nem nunca conheci nenhum que me dissesse nada sobre isso, eu só posso achar que tudo não passa de um chute mais ou menos bem dado. Quanto a mim, como falei, precisei que alguém me convencesse que era a hora. E acho que, no fim, o chute acabou sendo em um bom momento.
Por que começou a escrever? Quais as suas influências?
Comecei a escrever porque sempre gostei de ler. Para mim foi algo natural querer passar da identificação com o que lia à ideia de que aquilo que o outro descrevia era tão meu no que eu sentia que podia acreditar que também dava pra fazer. E com aquilo eu vi que tinham coisas que eu sentia, que notava, que precisavam ser expressas e que não tinha outra forma que não o verso. Como uma linguagem que se espreme entre os tijolos duros das palavras. E de repente aquilo tomou pra mim uma dimensão maior, de interpretação do mundo e de entendimento de mim. Acho que é isso que o Rilke quer dizer nas suas “Cartas a um jovem poeta” quando ele o alerta para só escrever se ele não puder viver sem isso. Num momento para mim abrir mão dessa linguagem passou a ser ficar uma parte cego ou mudo.
Mas veja que uma coisa é escrever. Outra é ser escritor, publicar um livro. Por que para isso supõe-se que o que foi escrito interessa a alguém além do autor, faz sentido fora do seu universo. E esse salto entre uma coisa e outra acho que tem a ver com o que você perguntou antes, sobre o momento de publicar. Saber se as descobertas que você faz na língua dizem algo para outras pessoas.
As minhas influencias mais antigas foram principalmente Neruda, Pessoa, Gullar, Drummond. Depois a beleza poética na escrita de Raduan Nassar me arrebatou também e através dele conheci o monstro que é Jorge de Lima, esse alagoano desconhecido em nossa terra. Além dele, o Murilo Mendes também mexeu e ainda mexe muito com a minha cabeça. Também houve um livro que foi muito importante na minha formação poética, “Cactos Temporário e Itinerário Maríntimo” do Alagoano de Santana do Ipanema José Geraldo Marques. No meu ano de vestibular da UFAL ele foi cobrado e por isso caiu em minha mão. Algum tempo depois me debrucei sobre ele e foi uma revolução na minha visão iniciante sobre poesia.

Qual a sua impressão sobre a literatura produzida em Alagoas? Você lê autores alagoanos?
Acho que tem surgido uma movimentação interessante em Alagoas, principalmente estimulada pelos editais de publicação, que tem cumprido o papel de botar as pessoas para escrever. Isso tem criado a possibilidade de reoxigenar o ambiente de produção literária no estado. É muito bom olhar e ver que além das pessoas que já vinham produzindo, se soma uma quantidade grande de gente jovem disposta a mostrar a cara. Confesso que não li tudo que foi produzido nos últimos tempos mas do que li algumas coisas me interessaram muito. A poesia do Milton Rosendo é de uma força impressionante, o livro do Richard Plácido ficou muito bonito e estou ansioso pelo próximo. O livro do Lee Flores, “Coração de Zinco”, que saiu ano passado, mas cuja a poesia já acompanho tem bastante tempo, ficou lindíssimo. A própria Ana Maria Vasconcelos também tem uma escrita que me toca muito. Além desses li algumas coisas do Arthur Buendía que gostei muito, tentei comprar o livro dele mas infelizmente daqui do Rio ficou um pouco difícil. Espero conseguir da próxima vez que for à Maceió. Falei deles para não falar dos autores já clássicos como Jorge de Lima, Jorge Cooper, Sidney Wanderley e José Geraldo Marques.
Como funciona o teu processo criativo? Costuma escrever diariamente?
Não. Eu escrevo devagar e erraticamente. Passo períodos sem escrever e períodos onde escrevo com mais frequência. Mas meu método é meio caótico. Normalmente as ideias me assaltam em qualquer lugar e eu tomo nota no celular. Ou acontece de ela fica matutando na cabeça por dias, às vezes semanas ou meses até antes que eu a anote. Então eu vou juntando pedaços e ideias e as aproveito ou não em momentos onde esse assalto vem de modo mais forte.
Então meu ritmo de escrita, meu método, depende disso que chamei que de “assalto das ideias”, que chamam de inspiração, mas que na verdade é uma sensação de estranhamento, um incomodo que me toma e que eu tento resolver ou acomodar com a linguagem. E eu não controlo muito isso, é como um bicho solto, vem quando quer.
Entrando na onda das listas, indica 5 livros lidos em 2016 e comenta um pouco sobre eles.
Os dois livros da Wislawa Szymborska que foram publicados pela Companhia das Letras (“Poemas” e “Um Amor Feliz”), é incrível o poder dessa mulher de captar poesia de onde você não espera. Seja da matemática, das ciências naturais em geral, ou mesmo de algo que você tem como um lugar comum e que ela reapresenta para você de uma maneira belíssima.
Grandes Esperanças, Charles Dickens consegue mostrar um panorama da Inglaterra do século XIX e os personagens são tão humanos quanto hoje. A edição da Pinguim/Companhia das Letras traz o final original que não foi publicado à época e ele é impecável.
A Máquina de Fazer Espanhóis do Valter Hugo Mãe, esse cara precisa ser lido!
Diário do Hospício / Cemitério dos Vivos, Lima Barreto em primeira pessoa descrevendo sua experiência, os médicos e os pacientes do Hospício Nacional da Praia Vermelha. Além do valor literário indiscutível, um grande documento histórico.
MAUS o quadrinho do Art Spiegelman, você conhece toda a história sobre o nazismo, já viu vários relatos em primeira pessoa mas, mesmo com tudo isso, é impossível não se impactar com o livro.
Para finalizar. Quais são os próximos projetos?
Estou trabalhando num novo livro de poemas com o nome provisório de “Oníricos” , mas seu material ainda é algo muito incipiente. Além disso tenho tido vontade de começar a escrever em prosa, mas não tenho nenhum projeto nem germinando sobre isso.
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